21 Out, 2021

“É importante que o tratamento dos idosos não se foque apenas em evitar a morte”

O presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG) afirma que são várias as alterações que deverão ocorrer nos próximos anos, no sentido de promover a integração ativa das pessoas idosas na sociedade. Segundo o especialista, uma das medidas urgentes passa por aumentar os conhecimentos geriátricos dos médicos.

Enquanto presidente da SPGG, que “ponto de situação” faz da Geriatria a nível nacional?

Fundamentalmente, os desafios que temos sentido, enquanto direção, relacionam-se com o facto de a Geriatria ainda estar numa fase embrionária em Portugal. Assim sendo, a Geriatria, ainda não é uma especialidade médica, mas antes uma competência reconhecida pela Ordem dos Médicos (OM). No nosso país estamos um pouco atrasados em relação a outros países europeus, por isso esperamos que em devido tempo esta se venha a tornar numa subespecialidade.

Nesse sentido, devemos aumentar os conhecimentos geriátricos dos médicos, pois, hoje em dia, praticamente todas as especialidades têm de lidar com pessoas em idade mais avançada, com quadros clínicos mais complexos e cujas doenças se podem manifestar de forma atípica. Por exemplo, o enfarte agudo do miocárdio (EAM) numa pessoa de meia-idade manifesta-se pela clássica dor no peito, enquanto nas pessoas idosas, particularmente nas mais frágeis, pode apresentar-se por uma crise de confusão mental, uma síncope, falta de ar e até, simplesmente, um grande cansaço. De facto, nas pessoas mais idosas, o diagnóstico pode ser mais difícil tendo em conta que algumas doenças, se manifestam de forma diferente.

É, por isso, um dos objetivos primários da SPGG aumentar o conhecimento dos clínicos, no sentido de estarem mais atentos e conscientes das peculiaridades das doenças nas pessoas de idade avançada, ou seja, aquilo que eu chamo “geriatrizar” a pratica clinica.

A Sociedade tem ainda outros objetivos, como estabelecer recomendações sobre os principais problemas da população geriátrica; desenvolver a revista de Geriatria; continuar a realizar o congresso anual, assim como cursos para médicos, promover o intercâmbio internacional, combater o “idadismo”, que é o preconceito mais prevalente na nossa sociedade…

Quais é que considera serem os principais desafios sentidos pelas pessoas na terceira e quarta idades?

Um deles é de facto haver esta ideia de que os idosos são um peso para a sociedade. Há uma grande preocupação com os problemas da saúde dos idosos e até com as suas reformas, mas todos estes tópicos são olhados numa perspetiva negativa. Pelo contrário, devemos ter uma visão positiva e esta passa por perceber que as pessoas estão a viver mais anos e em melhores condições. Atualmente, uma pessoa com 70 anos tem um estado funcional equivalente ao que uma pessoa de 60 anos tinha há cinco décadas.

Hoje em dia, muitas pessoas idosas continuam a estar aptas e a desejar continuar a trabalhar. Há idosos que continuam a ter empregos em part-time, a dar suporte às suas famílias cuidando por exemplo dos netos, e outros colaboram ainda em instituições de solidariedade social.

Eu creio que a sociedade tem de se adaptar, na medida em que há cada vez menos pessoas a trabalhar e cada vez há mais pessoas a viver da segurança social. É necessário repensarmos a ideia da obrigatoriedade da reforma, pois muitos idosos têm condições e gostariam de continuar a trabalhar. A reforma obrigatória em determinada idade pode ser uma restrição não realista para o estado da demografia e da economia dos países ocidentais.

Acredita que é, por isso, necessária uma reformulação na abordagem clínica a estes doentes?

Exatamente. É, sobretudo, importante que o tratamento das pessoas idosas não se foque apenas em evitar a morte. As pessoas idosas, quando são questionadas, dizem que sobretudo não querem sofrer, mas sim viver enquanto tiverem suficiente qualidade de vida. Nós, médicos, não nos devemos focar no tratamento das pessoas só em função da idade. Devemos ter em atenção como é que o doente se encontra do ponto de vista biológico e devemos ser assertivos no tratamento do idoso saudável, ainda que muitos deles tenham doenças crónicas associadas (visão reduzida, surdez, problemas articulares, entre outros). També temos de ter em atenção e respeitar as prioridades de saúde do doente.

Quando pensamos em tratar o idoso, devemos pensar não só em aliviar os sintomas, mas também em manter a sua funcionalidade e a sua autonomia. Enquanto, por exemplo, no indivíduo jovem o problema principal no caso de um EAM é evitar a morte, no caso das pessoas de idade, como estas já têm uma função mais baixa, é importante evitar que, além da morte, entrem em incapacidade e dependência.

As terapêuticas não devem ser baseadas na idade, mas no estado biológico e clínico do doente. Temos de ter especial atenção, porque um dos sentimentos que as pessoas idosas transmitem aos médicos – e isso foi notório principalmente neste período da pandemia – é que muitas têm medo de ir ao hospital porque têm a sensação de que o facto de serem mais velhos leva a que os médicos não se empenhem da mesma maneira no seu tratamento. Esta perceção não pode acontecer, pois temos de tratar as pessoas idosas com mesmo respeito e a mesma atenção que trataríamos uma pessoa da nossa família.

Acha que uma das soluções para a melhoria do acompanhamento dado a estes doentes passa pela criação, pela OM, da especialidade de Geriatria?

Relativamente à especialidade de Geriatria, nós já temos a competência reconhecida pela OM, o que é um bom começo e que tende a evoluir gradualmente, no sentido da criação da especialidade, ainda que tal dependa das dinâmicas dentro da OM e dos próprios ministérios, que poderão mais cedo ou mais tarde levar a criar a especialidade de Geriatria, tal como existe em Espanha, em Itália, em França ou em Inglaterra, etc. Mas, mais importante do que a criação da especialidade é a necessidade de os médicos terem alguns meses de formação em Geriatria, nomeadamente os médicos que exercem em lares, para poderem ser mais eficiente na prestação de cuidados a esses doentes, que são os mais frágeis e os mais difíceis de tratar da nossa sociedade.

Entendo que deveria haver um treino específico para os médicos que trabalham nos lares, através uma coordenação entre o Ministério da Saúde e o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social – pois existe aqui uma sobreposição entre os dois ministérios – de modo a promover programas de formação e de atualização destes médicos. Muitas das pessoas institucionalizadas apresentam situações complexas e, por serem, como já referi, as mais frágeis da sociedade, precisam de ter um acompanhamento da maior qualidade clinica. Para este trabalho, a SPGG manifesta a sua disponibilidade.

Na sua visão, acha que deveria ser feita alguma reestruturação da comunicação dos cuidados de saúde?

Temos de pensar muito na prevenção, insistir muito na alimentação saudável, na necessidade de exercício físico diário, combater o tabagismo e o consumo excessivo de álcool e trabalhar muito ao nível da educação da saúde nas escolas. As crianças são “uma esponja” e tudo o que puderem aprender desde cedo será benéfico, além de que levarão para casa estas mensagens e elas próprias poderão fazer os pais repensar algumas opções alimentares e outras de estilo de vida saudável.

É importante estimular a atividade física, aproveitando todas as oportunidades para andar a pé ou de bicicleta. Igualmente fundamental é a existência de jardins/parques de proximidade em todos os bairros, pois permitem que as gerações se encontrem e promovam a prática da atividade física, bem como torna as cidades mais ecológicas, amenizando até o clima.

Tudo isto envolve alterações profundas na nossa sociedade, que terão implicações na saúde – a saúde ambiental tem um papel determinante na saúde das populações.

CBM/SO

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