16 Nov, 2021

DPOC continua subdiagnosticada. “Há uma grande falta de sensibilização dos profissionais de saúde”

Em entrevista, o médico de família da USF do Minho admite que o “subdiagnóstico ainda é elevado”. É necessário reforçar a sensibilização dos profissionais, bem como melhorar o acesso às espirometrias.

Fonte: JustNews

Estima-se que a DPOC afete 14,2% dos portugueses acima dos 40 anos, apesar de só uma pequena parte estar diagnosticada.

Os dados que vemos no BI dos cuidados de saúde primários, de clínicos que usam a codificação R95, mostram que o número de portugueses diagnosticados está longe dos 14,2% de doentes. Em 2020, estavam diagnosticados 136017 casos, o que equivale a 2,35% da população com 40 ou mais anos.

Que leitura podemos fazer destes números? Há um subdiagnóstico ainda elevado.

Sim, o subdiagnóstico ainda é elevado. Contudo, existe discussão sobre o valor estimado da prevalência de DPOC. São apontadas, frequentemente, algumas limitações metodológicas ao estudo que estimou os 14,2% e que foi coordenado pela Profª. Cristina Bárbara. Há outros estudos com caráter epidemiológico publicados em Portugal que apontam para valores bastante inferiores. Podemos assim acreditar que o valor mais próximo da realidade rondará os 5 a 7%.

Ainda assim, confirma-se que os 2,35% de doentes diagnosticados é muito inferior ao esperado.

O que está falhar no diagnóstico da DPOC?

Há uma grande falta de sensibilização dos profissionais de saúde e até de conhecimento em relação a estas doenças. Muitos dos diagnósticos feitos não estão bem documentados. Isso faz-me pensar que há doentes com patologias respiratórias que até estão a ser seguidas e medicadas e não têm a doença claramente diagnosticada. É fundamental que se faça o diagnóstico e o registo adequados destes doentes.

Por outro lado, o programa informático nas nossas unidades de saúde dirige-nos muito para o tratamento da patologia cardiometabólica e dá pouca relevância às doenças respiratórias.

Há também um problema de formação dos profissionais?

Sim, embora já se note alguma mudança. Os colegas mais novos, que terminaram a sua especialidade há menos tempo, têm uma formação e uma sensibilização distintas. Nos médicos mais antigos, notam-se lacunas de formação.

De que forma se poderia impulsionar o diagnóstico da DPOC em Portugal?

Utiliza-se muito a desculpa de não haver tempo para cuidar destes doentes – como se importassem menos que um doente diabético ou hipertenso. A verdade é que os médicos de família estão, hoje em dia, assoberbados com tarefas que poderiam ser feitas por outras pessoas. Precisamos de reorganizar as tarefas, de forma a dedicarmos mais tempo a pessoas com doenças importantes, como é o caso da DPOC.

Precisamos também de sensibilizar os profissionais, o que passa, inevitavelmente, por recompensas financeiras aos profissionais (à semelhança do que já é feito com a saúde materna e infantil, a diabetes, a hipertensão, etc) condicionadas ao cumprimento de objetivos e indicadores. O descontrolo destas doenças leva a agudizações e internamentos, o que gera mais custos para o SNS.

Outro aspeto fundamental é a existência de uma consulta estruturada para os doentes com DPOC, o que obrigaria a alterar o sistema informático. Numa consulta a um doente com hipertensão, por exemplo, temos, aqui na ARS-Norte, o SClínico. No caso da DPOC, não há um programa estruturado, não temos acesso a uma série de parâmetros que indiquem o que é mais relevante avaliar nestes doentes (escalas, saturação, técnica inalatória, etc).

A falta de espirómetros ainda é uma realidade transversal a todo o país?

A espirometria é um exame imprescindível para fazer o diagnóstico. Há zonas mais bem servidas do que outras, ou porque há clínicas convencionadas nas proximidades ou porque há protocolos com os hospitais de referência para ultrapassar as dificuldades de acesso às clínicas. Há ainda um acesso difícil à espirometria, porque faltam clínicas que façam o exame.

Por outro lado, muitas vezes os resultados da espirometria são duvidosos. Não basta ao médico ler a espirometria e interpretar o relatório, é preciso olhar para os valores e interpretá-los à luz do doente que temos à frente. Há falta de conhecimento também na interpretação da espirometria.

SO

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