24 Jun, 2022

“Boa parte do excesso de mortalidade atual diz respeito a pessoas que morreram de doenças cardiovasculares”

A pandemia de SARS-CoV-2 agravou os fatores de risco das doenças cardiovasculares e aumentou em mais de 60% o risco de eventos cardiovasculares em pessoas infetadas, sublinha, em entrevista, o presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia

Que impacto teve a pandemia de covid-19 no combate às doenças cardiovasculares em Portugal?

A pandemia provocou um grande aumento do número de mortes por doenças cardiovasculares. Por um lado, porque as pessoas reduziram as idas ao médico, por terem tido medo de contactar os serviços de saúde – que viram como locais de risco. A diminuição da prestação de cuidados levou ao aumento e agravamento das doenças cardiovasculares, patologias que são perfeitamente controláveis com um acompanhamento médico regular.

Por outro lado, sabe-se que as pessoas que foram infetadas por SARS-CoV-2, mesmo aquelas que tiveram uma doença ligeira, têm maior risco de virem a sofrer eventos cardiovasculares pelo menos durante o ano seguinte à infeção. Estamos a falar de um aumento de 60 a 70% do risco de enfarte agudo do miocárdio, morte súbita ou AVC. Nestes casos, é necessário otimizar as medidas preventivas da doença cardiovascular, reforçando o estilo de saudável e controlando bem os fatores de risco.

A pandemia também agravou os fatores de risco ou pode ter sido, por outro lado, uma oportunidade que muitas pessoas aproveitaram para melhorem o seu estilo de vida, por exemplo?

Agravou os fatores de risco, porque as pessoas ficaram muito tempo em casa. Muitas passaram por momentos de grande stress durante a pandemia. Tudo isso provocou alterações hormonais que levam a aumento de peso, que aumentam a pressão arterial e o colesterol. As pessoas fizeram menos atividade física, tiveram estilos de vida menos cuidados. O isolamento e a doença mental são fatores de risco cardiovasculares.

Boa parte do excesso de mortalidade atual diz respeito a pessoas que morreram de doenças cardiovasculares.

Estima que continuemos a ter, nos próximos anos, um aumento da mortalidade por doenças cardiovasculares em Portugal?

Enquanto tivermos um número elevado de infeções por SARS-CoV-2, certamente que ocorrerá um aumento dos eventos cardiovasculares

De entre os fatores de risco para DCV, há algum que identifique como especialmente importante?

O aumento de peso, que leva ao aumento da pressão arterial, do colesterol, ao descontrolo da glicemia. Quando se fala da epidemia da diabetes, temos de ter atenção à epidemia que está a montante dessa: a da obesidade, que é fundamental prevenir

Para além da prevenção, que aspetos podemos, enquanto país, de melhorar para combater as doenças cardiovasculares?

A doença cardiovascular é uma doença da civilização. A prevenção é a resposta fundamental. É necessário aumentar a literacia da população, para que conheça melhor a importância dos estilos de vida, o mecanismo dos fatores de risco e também os sinais de alarme dos eventos cardiovasculares. Hoje em dia, temos uma extensa rede de médicos de família que controlam muito bem os fatores de risco. Na área da diabetes, registou-se um progresso muito grande – até agora tínhamos terapêuticas que baixavam a glicemia mas não reduziam as mortes por doença cardiovascular. Nos últimos anos, surgiram dois grupos de fármacos que reduzem o risco de eventos cardiovasculares em doentes com diabetes, o que é importante uma vez que o enfarte agudo do miocárdio e o AVC são a principal causa de morte de doentes com diabetes.

Como classificaria a Cardiologia que se pratica hoje em Portugal?

Estamos bem posicionados. Temos uma boa Cardiologia. É claro que é sempre possível e desejável melhorar, equipar melhor os serviços e dotá-los de mais recursos humanos. Temos uma Cardiologia que, na sua essência, não difere da Cardiologia que se pratica nos outros países desenvolvidos.

Neste momento, que patologias cardiovasculares necessitam de mais atenção por parte da comunidade médica?

Há duas patologias que aumentaram de forma significativa, ligadas ao envelhecimento da população. São patologias que são quase síndromes geriátricas, porque atingem sobretudo as pessoas mais idosas. Trata-se da insuficiência cardíaca (IC)e também a fibrilhação articular – neste último caso, temos de estar atentos ao risco de demência, devido a múltiplas e pequenas microembolias cerebrais, que, ao reduzirem o património cerebral, podem provocar a chamada demência vascular.

Para tratar a insuficiência cardíaca, temos dois novos grupos de fármacos muito eficazes: por um lado, o sacubitril/valsartan e, por outro, as gliflozinas. O tratamento da IC melhorou muito, estamos a mudar a história natural da doença, fazendo que as pessoas tratadas tenham agora melhor qualidade e maior esperança de vida.

Que inovações ou objetivos major gostaria de ver alcançados nos próximos anos?

Temos de vencer a aterosclerose, que é a principal causa de morte da população mundial. O controlo do metabolismo lipídico e o aparecimento de novos fármacos são essenciais para prevenir os eventos cardiovasculares. Têm havido progressos, com fármacos, como os inibidores da PCSK9 e o inclisiran, que permitem uma redução do colesterol de 50 a 60% e até a redução de outras lipoproteínas que aumentam o risco como a Lp (a).

Tem-se registado um aumento dos eventos cardiovasculares na população jovem. Como se explica este fenómeno?

Tem essencialmente a ver com o estilo de vida, com o consumo excessivo de álcool ao fim de semana, com a escassez de atividade física, com uma alimentação abusiva de fast food. Também o consumo de drogas pode contribuir para isto, particularmente no caso da cocaína, que pode provocar enfartes do miocárdio (um estudo feito em Dallas mostra que 25% dos enfartes abaixo dos 40 anos se devem à cocaína). Hoje há muito mais jovens nas urgências dos hospitais com crises cardíacas, taquicardias, etc. É preocupante. Os jovens sentem-se erradamente imortais, mas têm de ser alertados para os riscos de uma alimentação errada e o excesso de álcool.

SO

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