Joaquim Oliveira >> PrEP justifica-se em indivíduos com elevado risco

Em entrevista ao Saúde Online, Joaquim Oliveira, presidente da APECS, explicou que os estudos disponíveis mostram que a PrEP funciona, ressalvando, no entanto “desde que os indivíduos tomem consistentemente a medicação”

Em Portugal, pese embora alguma contenção suscitada pelas questões éticas de uma intervenção dirigida a pessoas que assumem que muito embora saibam que ao praticarem sexo não seguro correm o risco de serem infetados pelo VIH, mantêm o comportamento, a opinião de que a profilaxia pré-exposição deve ser implementada tem vindo a ganhar adeptos. Joaquim Oliveira, do Serviço de Infeciologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, é uma das vozes pró adoção da medida Em entrevista ao Saúde Online, o também presidente da Associação Portuguesa para o Estudo Clínico da SIDA (APECS) explicou que os estudos disponíveis mostram que a PrEP funciona, ressalvando, no entanto “desde que os indivíduos tomem consistentemente a medicação”.

O grupo-alvo é o mesmo que integrou os estudos já realizados: “homens não infetados, que têm sexo com homens e que estão em risco, ou seja, que têm sexo desprotegido e que estão expostos repetidamente à infeção”.

A identificação dos indivíduos que preenchem os requisitos para uma intervenção PrEP é, para o especialista, uma das principais dificuldades. Isto porque, explica “integram uma população jovem, saudável, que por isso tem um contacto muito limitado com os serviços de saúde onde poderiam ser identificados, como os cuidados de saúde primários”. Um obstáculo que pode ser ultrapassado com o apoio de organizações de base comunitária, mais próximas destas pessoas e que podem servir de “ponte” com os serviços de saúde, sinalizando os casos de risco”.

As questões éticas que envolvem a PrEP não deixam indiferente o médico, que aponta paralelismos com outros riscos, igualmente alvo de intervenção pelas autoridades de saúde. “Não obstante sabermos que se está a utilizar medicação, com custos significativos e efeitos secundários, para proteger pessoas que conscientemente não os meios disponíveis e eficazes para se protegerem; que se está a pedir ao Serviço Nacional de Saúde que pague para que estes indivíduos não se infetem”, a verdade é que o mesmo acontece noutras áreas. “As pessoas conhecem quais os comportamentos que as colocam em risco de virem a desenvolver diabetes, hipertensão, doença pulmonar obstrutiva crónica, muitas formas de cancro…. E no entanto, boa parte da população não altera esses comportamentos”. Sabemos que é assim, e não é por isso que deixamos de investir em campanhas de prevenção e rastreio, porque também sabemos que em algumas situações conseguimos ter sucesso, evitando assim custos elevadíssimos não apenas económicos, mas sociais”, Defende, para logo acrescentar “No caso das pessoas em alto risco de infeção por VIH, caso não façamos nada, o que vai acontecer é que vão infetar-se e propagar a infeção na comunidade, o que a prazo acarreta custos muito elevados para o SNS”. Tendo em conta os custos totais resultantes da propagação da epidemia, parece-me realista, em algumas circunstâncias, a adoção de uma estratégia como a PrEP, que comprovadamente permite evitar novas infeções; particularmente se os custos com a terapêutica baixarem…

Segundo o médico, há mais argumentos a favor da PrEP. “Estamos a falar de uma população sexualmente muito ativa, com múltiplos parceiros, onde o risco de infeção é muito elevado. Ora, a fase inicial da infeção, embora decorra num período relativamente curto, é particularmente importante em termos epidemiológicos, dada a quantidade de vírus em circulação na corrente sanguínea e nas secreções genitais. Estima-se que 1/3 de todas as novas infeções ocorrem neste pequeno período de tempo” por isso, sublinha “é importante identificar atempadamente e agir”. O recurso à PrEP permite interromper a cadeia de infeção”, afirma.

Relativamente ao acompanhamento clínico dos indivíduos elegíveis para iniciarem PrEP, Joaquim Oliveira manifesta-se mais cauteloso. “Há um desfasamento entre as pessoas em risco e os cuidados de saúde mais diferenciados que as poderiam seguir”. Assim, diz, “ou conseguimos encontrar uma ponte que faça uma ligação entre estas pessoas e os cuidados de saúde ou capacitamos outros profissionais de saúde para que possam suprir estas necessidades”.

Já quanto aos efeitos secundários associados ao Truvada, o especialista desdramatiza algum alarme que tem sido lançado na discussão da implementação da PrEP: “O risco de toxicidade renal existe, mas é um risco relativamente baixo e fácil de monitorizar. E a verdade é que tratamos milhares de doentes com esta patologia e muito poucos desenvolvem problemas renais. Ou seja, não é um risco elevado. E poderá até ser ultrapassado com uma nova formulação do Tenofovir, cujo lançamento foi anunciado para breve.

Para além da monitorização dos efeitos secundários, “é preciso uma monitorização da aquisição da infeção por VIH e de outras doenças sexualmente transmissíveis, porque esta terapêutica apenas evita a transmissão do VIH e não as demais doenças sexualmente transmissíveis”, conclui.

 

MMM

 

 

ler mais

RECENTES

ler mais