Glaucoma: um “ladrão silencioso” que é preciso prevenir

Entrevista a António Figueiredo, Coordenador do Grupo Português de Glaucoma, da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia

A Novartis divulgou recentemente os resultados de um estudo internacional que concluiu que a maioria das pessoas (54%) não está familiarizada com a doença, que é a principal causa de cegueira no mundo, afetando aproximadamente 60 milhões indivíduos, um número que deverá atingir 76 milhões até 2020. Ainda de acordo com o estudo, 85% dos entrevistados tem mais medo de perder a visão, do que os outros quatro sentidos, mas apenas 33% faz rastreios regulares. Os principais motivos apontados para a ausência de rastreios regulares são: dificuldades financeiras (21%); a crença “Eu não tenho problemas oculares” (19%); a ideia de que um exame anual não é necessário (17%).

Em entrevista ao SaúdeOnline, António Figueiredo, Oftalmologista, coordenador do Grupo Português de Glaucoma, da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, fala da doença e avança com algumas possíveis explicações para alguns dos resultados apurados pelo estudo.

A visão é, sem dúvida, um dos – se não o mais – sentidos mais valorizado pelo homem. É assim desde os primórdios da humanidade. Um medo que se mantém e que até ganhou maior dimensão nos tempos modernos. É assim! E se a intuição pessoal não bastasse para o atestar, não faltam estudos que o façam. António Figueiredo recorda um: “há alguns anos atrás, foi realizado um estudo nos Estados Unidos – que teve grande repercussão na comunicação social – que revelou que mais de 50% dos americanos preferia ter um tumor maligno ou um acidente vascular cerebral a perder a visão. Ou seja, o receio de perder a visão ultrapassa mesmo a dimensão dos sentidos. Esse “terror” encontra-se hoje exacerbado pela utilização que temos da visão”, começa por explicar o especialista, que acrescenta: “Em termos de representação de células ganglionares do tecido cerebral, os nervos óticos ocupam praticamente um terço do espaço ocupado por todos os sentidos”.

Pese a importância que assume a visão para o indivíduo, a verdade é que os cuidados para manter funcional o sentido não surgem como uma prioridade para a maioria. De 85% da população que afirmou tem medo de perder a visão, apenas 33% faz rastreios regulares. Uma contradição que António Figueiredo explica com o otimismo na base do pensamento, enraizado, expresso na convicção da maioria de que “não me vai acontecer a mim…” No entanto, salvaguarda, é necessário ter em conta o descaso em função das faixas etárias. “Se fizer essa pergunta a uma pessoa com 20 anos, provavelmente vai receber uma resposta diferente da que receberá se a colocar a alguém com 50 ou 60 anos de idade”, afirma. Isto porque quando somos jovens, temos a ideia de que estamos imunes a esse tipo de problemas; que a falta de visão é algo que afeta as pessoas mais velhas… Com o andar dos anos, a vida vai-se encarregando de nos mostrar que não é assim; que também somos frágeis. Importa também dizer que o glaucoma, que esteve na base do estudo, é uma condição que na sua forma mais comum só ocorre de forma estatisticamente significativa a partir dos 45/50 anos de idade. Pelo que é normal que um jovem – a menos que tenha um transtorno da visão evidente – olhe para o problema sem grande preocupação. Por tendência, são mais descuidados…”, remata António Figueiredo.

A baixa adesão a rastreios de visão, evidenciada no estudo realizado pela Novartis poderá ser explicada também, até certo ponto, por assimetrias no acesso que se verificam a nível nacional. “Apesar de Portugal, ao contrário do que por vezes se veicula, não estar tão mal em termos de indicadores de saúde… Bem pelo contrário, ocupando em alguns indicadores valores que nos colocam «no melhor dos mundos», a verdade é que em algumas áreas – e a Oftalmologia é uma delas – regista-se alguma dificuldade de acesso da população a cuidados especializados. Mesmo sabendo nós que são múltiplas as «portas» de acesso, públicas e também do setor privado.

Esta limitação no acesso limita, na opinião do especialista, a eficiência dos rastreios. Este ano, o Grupo Português do Glaucoma, da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, de que António Figueiredo é coordenador, “decidiu não realizar o já tradicional rastreio do glaucoma, implementado na semana em que se assinala a doença, precisamente porque não tinha uma resposta eficaz para dar se encontrasse algumas pessoas que necessitassem de uma resposta rápida para o seu problema. No próximo ano vamos ter mais tempo para preparar a «Semana do Glaucoma», que se assinala em março, pelo que provavelmente iremos realizar um rastreio, criando condições para que se possam dar respostas imediatas nas situações consideradas prioritárias para consulta”, explica o responsável. Não é fácil, mas vamos tentar fazê-lo”, sublinha.

Outras das conclusões do estudo realizado pela Novartis dá conta de que o glaucoma é muitas vezes subdiagnosticado porque não apresenta sintomas e vai-se agravando com o tempo, podendo levar à perda total de visão. Contudo, se diagnosticada precocemente, a doença pode ser controlada. A ausência de sintomatologia poderá também justificar a escassa adesão aos rastreios, aponta o coordenador do Grupo Português do Glaucoma da SPO: “Se as pessoas não têm perceção da doença, não se sentem motivadas para detetá-la. É por essa razão que se desenvolvem campanhas de divulgação e sensibilização dirigidas a grupos que apresentam maior risco para a doença, em que se incluem, sobretudo, pessoas com tensão ocular elevada, com familiares com glaucoma, com mais de 45 anos de idade, faixa etária em que a incidência da doença começa a aumentar, pessoas de raça negra, que de acordo com estudos realizados apresentam uma incidência maior da doença e ainda diabéticos (ainda que este não seja um fator de risco major”, explica o Oftalmologista.

Doença incurável, o Glaucoma “é tratável, como gosto de sublinhar”, aponta António Figueiredo, que acrescenta: “o glaucoma é uma doença tendencialmente progressiva e – mais importante ainda – irreversível. Ou seja, as lesões que o glaucoma causa, não são reversíveis. Daí a importância do diagnóstico precoce, salienta o médico, que acrescenta: “o que nós fazemos é controlar a doença; fazê-la parar no estádio em que se encontra, que quanto mais precoce, melhor”.

O arsenal técnico e farmacológico à disposição da Medicina para o controlo do glaucoma é vasto, destaca o especialista ao nosso jornal: “A cirurgia é, claramente, a área que mais tem avançado nos últimos anos, mais concretamente a microcirurgia, que permite hoje tratar mais eficazmente a catarata, a retina e também o glaucoma, com avanços significativos nos últimos cinco, seis anos, em termos de menor agressividade e segurança”, salienta. Infelizmente, aponta, “não existe ainda nenhuma terapêutica eficaz, que erradique o glaucoma”. Em termos farmacológicos – a maioria dos doentes são controlados apenas com recurso a medicamento – “há mais de uma década que não têm surgido novos princípios ativos para o tratamento da doença, mas tem-se conseguido agilizar a forma como os princípios ativos se associam tirando deles o máximo partido”, explica, acrescentando: “hoje, conseguimos através de combinações de fármacos, utilizar apenas um medicamento, que no passado era administrado individualmente, o que trás enormes vantagens em termos de facilidade de utilização e mesmo de adesão à terapêutica, salienta. Estão também disponíveis monodoses, sem conservantes, acrescenta.

Em jeito de conclusão, António Figueiredo deixa um alerta, que constituiu, este ano, a «pedra de toque» do Grupo Português do Glaucoma na semana em que se assinala a doença: “Tenham cuidado com este «ladrão silencioso», que é o glaucoma; estejam atentos aos fatores de risco, como a tensão ocular, a idade e histórico familiar de glaucoma. Se estiver em qualquer destas condições, deve procurar ajuda médica”, conclui.

 

MMM

 

 

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