Arranque do internato em Medicina de Urgência abre nova etapa no SNS
O primeiro internato de Medicina de Urgência e Emergência arrancou em Torres Novas, assinalando um marco histórico no SNS. Especialistas e Tutela convergem na importância da nova especialidade, mas alertam que, sem reformas estruturais, a pressão excessiva sobre as urgências continuará.

O primeiro internato de Medicina de Urgência e Emergência em Portugal teve quinta-feira desta semana, em Torres Novas, sendo considerado um marco histórico para o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Ainda assim, médicos e responsáveis institucionais alertam que a criação da especialidade, por si só, não resolverá os problemas estruturais que afetam os serviços de urgência.
A cerimónia decorreu no auditório do Hospital de Torres Novas, integrado na Unidade Local de Saúde (ULS) do Médio Tejo, e assinalou o arranque da formação dos primeiros 29 médicos nesta nova área clínica.
Na sessão intervieram o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, o presidente do Conselho de Administração da ULS Médio Tejo, Casimiro Ramos, o presidente do Conselho Nacional do Internato Médico, João Carlos Ribeiro, a vogal da direção executiva do SNS, Ana Correia de Oliveira, e, através de mensagem em vídeo, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins.
Carlos Cortes sublinhou que a nova especialidade é fundamental para reforçar a resposta qualificada nas urgências, funcionando de forma complementar às restantes áreas médicas. Contudo, frisou que não constitui uma solução isolada para os constrangimentos existentes, defendendo que contribui para reduzir a sobrecarga dos profissionais e aumentar a segurança clínica.
O bastonário destacou que a criação desta especialidade resulta de uma aposta antiga da classe médica e da Ordem dos Médicos, abrindo um caminho mais consistente para responder às situações verdadeiramente urgentes e emergentes no SNS.
Esclareceu ainda que a Medicina de Urgência e Emergência não substitui especialidades como Medicina Interna, Cirurgia Geral ou Ortopedia, mas vem ocupar um espaço até agora inexistente, permitindo que os serviços de urgência sejam assegurados por médicos com formação específica, melhorando a qualidade assistencial e reduzindo reinternamentos evitáveis.
Carlos Cortes alertou também para a elevada pressão sobre as urgências hospitalares, referindo que Portugal, com pouco mais de 10 milhões de habitantes, regista entre seis e sete milhões de episódios de urgência por ano, um valor sem paralelo nos países da OCDE. Defendeu, por isso, decisões estruturais, como o reforço dos cuidados de saúde primários e o investimento em literacia em saúde, de modo a encaminhar cada doente para o local mais adequado.
Na mensagem em vídeo, a ministra da Saúde classificou o início do internato como um momento histórico para a medicina portuguesa, após cerca de duas décadas de discussão em torno da criação da especialidade. Ana Paula Martins destacou que esta área permitirá uma formação estruturada, baseada em protocolos sustentados pela evidência científica, reduzindo a variabilidade clínica e aumentando a segurança dos doentes.
A governante acrescentou que a nova especialidade contribuirá para atrair e reter profissionais, diminuir o desgaste e a rotatividade nas urgências e reforçar o trabalho em equipa multidisciplinar.
Salientou ainda a elevada taxa de preenchimento das vagas do internato, com 29 médicos selecionados para um total de 32 lugares, considerando este dado revelador do interesse e do compromisso dos jovens médicos.
Carlos Cortes reforçou que a especialidade tem como objetivo apoiar todas as áreas médicas nos serviços de urgência, através de profissionais com formação sólida e específica, reiterando, no entanto, a necessidade de uma reforma profunda do sistema, assente no reforço dos cuidados primários e na correta orientação dos doentes.
Por sua vez, Casimiro Ramos considerou simbólico o início do internato em Torres Novas, sublinhando a centralidade do serviço de urgência para a população. Defendeu que a presença de especialistas em urgência complementa o trabalho dos médicos generalistas, melhora a qualidade dos cuidados, reduz reinternamentos e contribui para aliviar o congestionamento dos serviços.
O responsável classificou o dia como particularmente relevante para o SNS, por representar um reforço da segurança e da competência clínica nas urgências.
O internato em Medicina de Urgência e Emergência tem a duração de cinco anos e integra estágios em contexto hospitalar e pré-hospitalar, incluindo formação em Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER), Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) e transporte aéreo.
A criação desta especialidade é apresentada como um passo decisivo na valorização da formação médica especializada e na melhoria da resposta dos serviços de urgência do SNS, enquadrando-se no Plano de Emergência e Transformação da Saúde do Governo.
LUSA/SO
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