“Existe uma consciência mais clara de que a Saúde da Mulher exige abordagem integrada e colaborativa”

Maria João Carvalho e Cristina Nogueira-Silva, responsáveis pelo 3.º Congresso Nacional de Ginecologia em Medicina Geral e Familiar, realçam a proximidade e a colaboração cada vez mais intensas entre ambas as especialidades na área da Saúde da Mulher. Em entrevista abordam alguns dos temas que vão ser debatidos no evento, nomeadamente a autocolheita no rastreio do HPV.

“Existe uma consciência mais clara de que a Saúde da Mulher exige abordagem integrada e colaborativa”

É o 3.º Congresso na área da Saúde da Mulher.  O que podemos esperar de mais uma edição?

Cristina Nogueira-Silva (CNS) – Esta 3.ª edição representa a consolidação de um projeto que nasceu precisamente da necessidade de aproximar estas duas especialidades, Medicina Geral e Familiar e Ginecologia, ambas essenciais na abordagem da Saúde da Mulher. Nas edições anteriores encontramos um espaço de partilha multidisciplinar e orientada para os desafios reais da prática clínica diária. Assim, esperamos um congresso dinâmico, com atualização científica baseada na evidência mais recente e focado em problemas clínicos identificados como relevantes pelos colegas dos cuidados de saúde primários.

Maria João Carvalho (MJC) – Exatamente. O programa foi construído com os colegas, baseado nas prioridades por eles identificadas. Nestes dias iremos abordar a mulher ao longo das diferentes fases da vida — da adolescência à pós-menopausa — abordando temas como contraceção na adolescência, patologia ginecológica frequente, novas perspetivas de rastreios ginecológico, desafios na menopausa tardia e disfunção sexual feminina. Mantemos igualmente a aposta em sessões interativas e discussão de casos clínicos, porque acreditamos que a partilha entre colegas de diferentes áreas é uma das maiores mais-valias deste congresso.

Nestes 3 anos têm sentido que existe uma maior aproximação entre ginecologistas e médicos de família na área da Saúde da Mulher?

MJC – Sem dúvida. Existe atualmente uma consciência muito mais clara de que a Saúde da Mulher exige uma abordagem integrada e colaborativa entre cuidados de saúde primários e hospitalares. O médico de família acompanha a mulher numa perspetiva longitudinal, muitas vezes ao longo de décadas, conhecendo não apenas os seus antecedentes clínicos, mas também o contexto familiar, emocional e social. Isso é absolutamente fundamental na Saúde da Mulher.

CNS – Ao mesmo tempo, o ginecologista funciona como apoio diferenciado em situações mais complexas, permitindo complementar a abordagem diagnóstica e terapêutica. Temos sentido uma evolução positiva na articulação entre especialidades, quer ao nível da referenciação, quer na uniformização de práticas clínicas. Sem dúvida que há ainda muito a fazer, mas este congresso tem também sido um ponto de encontro importante e tem permitido a criação e fortalecimento de redes de comunicação entre colegas.

“Ainda existe alguma tendência para normalizar o ‘sofrimento ginecológico’, sobretudo em áreas como a dor menstrual intensa, a hemorragia uterina anormal ou os sintomas da menopausa”

Da menarca à menopausa, o que mais vos preocupa na saúde da mulher?

CNS – Tudo! Cada mulher é única e importante!

Mas se tiver de selecionar algo, diria que uma das maiores preocupações continua a ser o atraso no reconhecimento e valorização de sintomas que têm impacto significativo na qualidade de vida da mulher. Ainda existe alguma tendência para normalizar o ‘sofrimento ginecológico’, sobretudo em áreas como a dor menstrual intensa, a hemorragia uterina anormal ou os sintomas da menopausa. Muitas mulheres vivem anos com sintomas muito debilitantes antes de serem devidamente avaliadas e orientadas.

MJC – Também nos preocupa a necessidade crescente de uma abordagem global e preventiva da Saúde da Mulher. Hoje sabemos que saúde ginecológica não pode ser vista isoladamente. Questões como obesidade, doença cardiovascular, saúde mental, osteoporose, infertilidade e sexualidade estão profundamente interligadas. Na adolescência, por exemplo, são fundamentais a literacia em saúde, a educação sexual e a prevenção de infeções sexualmente transmissíveis. Na idade reprodutiva, preocupa-nos o impacto de patologias como a endometriose e os miomas na qualidade de vida e fertilidade. Já na menopausa, é essencial combater a desinformação e garantir uma abordagem individualizada, verdadeiramente baseada na evidência científica.

 

Como veem, atualmente, a possibilidade de autocolheita no rastreio do HPV?

MJC – A autocolheita representa uma evolução muito relevante no rastreio do cancro do colo do útero. A evidência científica disponível demonstra que a deteção de HPV de alto risco através de amostras de autocolheita pode apresentar elevada sensibilidade, particularmente quando integrada em programas organizados e com métodos laboratoriais validados. 

CNS – Esta estratégia poderá ter um impacto muito importante no aumento da adesão ao rastreio, sobretudo em mulheres que, por razões geográficas, culturais, sociais ou emocionais, têm menor participação nos modelos de rastreio convencionais. Naturalmente que a autocolheita não substitui a observação ginecológica quando clinicamente indicada, mas pode ser uma ferramenta muito relevante de Saúde Pública. Neste congresso teremos a possibilidade de perceber o enquadramento real deste tipo de colheita numa região do nosso país e os seus resultados.

“A Medicina evolui rapidamente e a Saúde da Mulher é um exemplo claro disso, com constante aparecimento de nova evidência científica e novas abordagens terapêuticas. É importante manter curiosidade científica, espírito crítico e abertura ao trabalho multidisciplinar”

A menopausa tardia é cada vez mais comum? Quais os principais desafios que se enfrenta nesta condição e de que forma o médico de família poderá fazer a diferença?

MJC – Não se trata de um aumento da idade da menopausa, mais sim de um aumento muito significativo da esperança média de vida feminina. Atualmente, muitas mulheres vivem mais de três décadas após a menopausa, o que transforma esta fase numa área central da prática clínica. Felizmente, existe atualmente maior valorização da qualidade de vida nesta etapa da vida e, consequentemente, maior procura de orientação médica.

CNS – Os desafios são múltiplos e vão muito além dos sintomas vasomotores clássicos. Incluem saúde cardiovascular, osteoporose, alterações metabólicas, perturbações do sono, alterações cognitivas, saúde sexual e impacto emocional. A menopausa deve ser encarada numa perspetiva de envelhecimento saudável e prevenção a longo prazo. Mas deve sê-lo baseada na evidência. Os colegas dos cuidados de saúde primários (médicos e enfermeiros) têm aqui um papel absolutamente fundamental.

 

Que mensagem gostariam de deixar aos médicos de família, sobretudo aos internos e recém-especialistas, sobre esta área da Saúde da Mulher?

MJC – Gostaríamos de reforçar que a Saúde da Mulher é uma área extremamente rica, transversal e cientificamente desafiante. O médico de família ocupa uma posição privilegiada, porque acompanha a mulher ao longo de diferentes fases da vida, muitas vezes desde a infância até à idade avançada. Essa continuidade pode, por isso, ter um impacto muito significativo na prevenção, diagnóstico e tratamento precoce, e promoção da qualidade de vida.

CNS – A nossa mensagem é também de incentivo à formação contínua e à colaboração entre especialidades. A Medicina evolui rapidamente e a Saúde da Mulher é um exemplo claro disso, com constante aparecimento de nova evidência científica e novas abordagens terapêuticas. É importante manter curiosidade científica, espírito crítico e abertura ao trabalho multidisciplinar. Quando Medicina Geral e Familiar e Ginecologia trabalham em proximidade, conseguimos prestar cuidados mais atempados, integrados, personalizados e verdadeiramente centrados na mulher.

Maria João Garcia

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais