18 Jun, 2026

Exposição ao espelho reforça atividade cerebral ligada à perceção social em bebés de 4 meses

Estudo avaliou se a exposição ao próprio reflexo influencia o desenvolvimento da mímica facial em bebés de 4 meses. Os resultados mostraram que os bebés expostos ao próprio reflexo apresentaram maior aumento na atividade do córtex sensoriomotor ao observar expressões faciais de outros, mas isso não se traduziu num aumento do comportamento de imitação facial.

Exposição ao espelho reforça atividade cerebral ligada à perceção social em bebés de 4 meses

Um estudo recente concluiu que a exposição diária ao próprio reflexo pode reforçar a atividade cerebral associada à perceção das emoções e das ações dos outros em bebés de quatro meses. No entanto, esse efeito não se traduziu num aumento da imitação espontânea de expressões faciais, conhecida como mímica facial. A investigação, apoiada pela Fundação Bial e liderada por Carina de Klerk, da Universidade de Essex, no Reino Unido, procurou compreender de que forma a experiência sensoriomotora precoce influencia o desenvolvimento da mímica facial, um processo considerado importante para a empatia e para o reconhecimento das emoções.

A mímica consiste na tendência automática para reproduzir ações observadas noutras pessoas. Este comportamento desempenha um papel relevante na construção de relações sociais, facilitando a empatia e promovendo comportamentos de ajuda. No caso da mímica facial, acredita-se que esta possa contribuir para a capacidade de identificar e compreender as emoções dos outros.

Embora alguns investigadores defendam que a ligação entre observar e executar ações está presente desde o nascimento, outros sugerem que esta capacidade é moldada pela experiência adquirida ao longo do desenvolvimento. Foi com base nesta última hipótese que a equipa decidiu testar se a exposição ao próprio reflexo poderia influenciar o desenvolvimento destes mecanismos nos primeiros meses de vida.

O estudo envolveu bebés com cerca de quatro meses de idade. Durante duas semanas, um grupo utilizou diariamente um brinquedo equipado com um pequeno espelho, enquanto outro grupo teve acesso ao mesmo brinquedo, mas sem espelho. Antes e após este período, os participantes observaram vídeos de outros bebés a exibir diferentes expressões faciais. Durante as sessões, os investigadores registaram simultaneamente a atividade cerebral através de eletroencefalografia (EEG) e a atividade muscular facial por meio de eletromiografia (EMG), permitindo avaliar tanto as respostas neurais como os comportamentos de imitação.

Os resultados, publicados na revista científica Developmental Science no artigo Two Weeks of Mirror Exposure Enhances Sensorimotor Cortex Activation but not Facial Mimicry in 4-Month-old Infants, revelaram que os bebés expostos ao espelho apresentaram um aumento da ativação do córtex sensoriomotor quando observavam expressões faciais de outros bebés. Este efeito foi particularmente evidente no hemisfério direito do cérebro, numa região associada à representação dos movimentos faciais. Segundo os autores, a observação dos próprios movimentos poderá fortalecer os circuitos neurais responsáveis por ligar a perceção das ações à sua execução.

Apesar desta alteração ao nível cerebral, os investigadores não encontraram evidências de um aumento da mímica facial. As medições realizadas através de EMG não revelaram diferenças significativas na imitação espontânea das expressões observadas. Os autores sugerem que períodos mais prolongados de exposição ao próprio reflexo poderão ser necessários para que as alterações observadas na atividade cerebral se traduzam em mudanças comportamentais.

Para Carina de Klerk, os resultados demonstram que experiências simples do quotidiano podem desempenhar um papel importante no desenvolvimento social precoce. “Os mecanismos neurais subjacentes à perceção social podem ser moldados pela experiência sensoriomotora numa fase precoce da infância e poderão emergir antes de essas mudanças se refletirem no comportamento”, afirma a investigadora.

O estudo reforça a ideia de que o cérebro social começa a ser moldado muito cedo e que interações aparentemente simples, como observar o próprio reflexo num espelho, podem influenciar o desenvolvimento dos processos envolvidos na compreensão dos outros.

SO/COMUNICADO

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