3 Ago, 2026

“Os programas de rastreio do cancro do pulmão são custo-efetivos e representam um investimento sustentável para os sistemas de saúde”

No âmbito do Dia Mundial do Cancro do Pulmão, assinalado a 1 de agosto, o SaúdeOnline entrevistou Ana Barroso, secretária da Direção do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão, sobre os desafios da prevenção, do rastreio e do diagnóstico precoce em Portugal. A especialista defende que a implementação de um programa de rastreio de base populacional deve ser uma prioridade para melhorar a sobrevivência e o prognóstico dos doentes.

“Os programas de rastreio do cancro do pulmão são custo-efetivos e representam um investimento sustentável para os sistemas de saúde”

Apesar da evidência científica demonstrar que o rastreio com TC de baixa dose reduz significativamente a mortalidade, Portugal continua sem um programa nacional implementado. Em que ponto está este processo? Há perspetivas de avanço a curto prazo?
Os ensaios NLST nos EUA e NELSON na Europa vieram comprovar que o rastreio com TC de baixa dose reduz em 20-25% a mortalidade por cancro do pulmão.

Em Portugal, o Despacho n.º 4667/2026, de 9 de Abril, determina a implementação de dois projetos-piloto de rastreio do cancro do pulmão no Serviço Nacional de Saúde, a desenvolver na Unidade Local de Saúde de Gaia/Espinho (ULSGE), e na Unidade Local de Saúde de Santa Maria. O referido despacho estabelece ainda que “podem ser implementados projetos-piloto adicionais noutros estabelecimentos de saúde do SNS, por despacho do Diretor Executivo do SNS, podendo, para o efeito, ser estabelecidas parcerias ou mecanismos de colaboração com outras entidades públicas ou privadas, designadamente autarquias locais.”

O projeto-piloto de rastreio de cancro do Pulmão da ULSGE está aberto e a recrutar doentes há vários meses constituindo um importante passo na avaliação da viabilidade e do impacto desta estratégia de prevenção.

Persiste, contudo, uma elevada expectativa quanto à expansão deste programa para um rastreio de base populacional, que permita assegurar o acesso, em todo o território nacional, a todos os cidadãos que preencham os critérios de elegibilidade, contribuindo para um diagnóstico mais precoce e para a redução da mortalidade associada ao cancro do pulmão.

 

Na sua opinião, quais têm sido os principais entraves à implementação do rastreio do cancro do pulmão em Portugal?
A implementação de um programa de rastreio do cancro do pulmão depende, inevitavelmente, de vontade política e da afetação dos recursos financeiros indispensáveis à sua concretização. De acordo com o relatório da OCDE de 2023, Portugal apresenta um dos custos per capita mais baixos da União Europeia na área da Oncologia. Em 2018, o custo total do cancro foi de 256 euros per capita, valor cerca de 20% inferior à média da União Europeia.

A implementação de um programa de rastreio do cancro do pulmão de base populacional exigirá um investimento significativo no reforço da capacidade instalada do SNS, nomeadamente ao nível dos recursos humanos, infra-estruturas e equipamentos. Este reforço deverá abranger todas as etapas do percurso assistencial, desde a identificação e convocatória da população elegível, à realização da tomografia computorizada de baixa dose, à integração de programas estruturados de cessação tabágica, à investigação diagnóstica dos casos suspeitos, ao estadiamento e ao tratamento dos doentes com diagnóstico confirmado.

Importa igualmente reconhecer que o rastreio permitirá identificar um número considerável de achados incidentais com relevância clínica, como calcificações coronárias, enfisema pulmonar ou outras patologias torácicas e extratorácicas, cuja avaliação e orientação constituem uma oportunidade adicional de prevenção e intervenção, mas implicam também um acréscimo da carga assistencial.

 

“A implementação de um programa de rastreio do cancro do pulmão depende, inevitavelmente, de vontade política e da afetação dos recursos financeiros indispensáveis à sua concretização”

 

Paralelamente, será essencial assegurar que as instituições de saúde dispõem da capacidade técnica e organizativa necessária para responder, de forma eficiente e atempada, ao aumento da procura decorrente da implementação do programa. Tal pressupõe o reforço dos meios de diagnóstico, da capacidade de resposta das consultas multidisciplinares e dos circuitos de referenciação, garantindo elevados padrões de qualidade, segurança e equidade no acesso aos cuidados.

Contudo, importa salientar que este investimento deverá ser encarado não como um custo, mas como uma estratégia de elevado valor em saúde. O diagnóstico do cancro do pulmão em fases precoces traduz-se em tratamentos menos complexos, menor necessidade de terapêuticas sistémicas prolongadas, redução dos internamentos e melhores resultados clínicos, com ganhos significativos em sobrevivência, qualidade de vida e utilização eficiente dos recursos do sistema de saúde. A evidência disponível demonstra que os programas de rastreio do cancro do pulmão são custo-efetivos e representam um investimento sustentável para os sistemas de saúde.

 

Os dados mostram um aumento dos casos entre mulheres e pessoas que nunca fumaram. Como explica esta evolução e que implicações tem para a prática clínica?
“Nem todos os cancros do pulmão são iguais”, é precisamente o mote do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão (GECP) na comemoração do dia mundial do cancro do pulmão em 2026.

O cancro do pulmão, fundamentalmente o subtipo adenocarcinoma, tem vindo a aumentar nas mulheres pelo aumento do tabagismo feminino nas últimas décadas refletindo-se agora na incidência de cancro do pulmão, devido ao longo intervalo entre a exposição ao tabaco (cerca de 20 anos) e o desenvolvimento da doença. Equaciona-se ainda que as diferenças biológicas e hormonais, possam ter influência na susceptibilidade ao desenvolvimento de determinados subtipos de cancro do pulmão, embora o seu papel exato ainda não esteja totalmente esclarecido.

Nos não fumadores, o cancro do pulmão tem vindo a aumentar pela exposição ao fumo passivo, à poluição atmosférica, sobretudo a exposição prolongada a partículas finas (PM2.5, classificada como carcinogénica), a exposição ocupacional a vários carcinogéneos, mas principalmente a exposição prolongada ao radão no interior de edifícios (gás radioactivo natural, sem cor nem cheiro, que se acumula em espaços fechados). Segundo a Organização Mundial de Saúde, estima-se que a exposição ao radão cause entre 3 a 14% dos cancros do pulmão a nível mundial e de acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente estima-se que na Europa 9% das mortes por cancro do pulmão se devam à exposição ao radão. A predisposição genética poderá ser também um factor agravante, mas até hoje os dados são ainda escassos aguardando-se estudos que sejam esclarecedores.

É igualmente importante reconhecer que o cancro do pulmão no não fumador constitui atualmente uma entidade clínica distinta, frequentemente associada a alterações moleculares específicas do tumor, como mutações do EGFR ou rearranjos dos genes ALK, ROS1 e RET. Estes tumores beneficiam particularmente da medicina de precisão e das terapêuticas dirigidas, que têm vindo a transformar o prognóstico de muitos destes doentes.

 

“Nos não fumadores, o cancro do pulmão tem vindo a aumentar pela exposição ao fumo passivo, à poluição atmosférica (…), a exposição ocupacional a vários carcinogéneos, mas principalmente a exposição prolongada ao radão no interior de edifícios”

 

Embora o tabaco continue a ser responsável por cerca de 85% dos casos de cancro do pulmão, sabemos hoje que esta não é uma doença exclusiva dos fumadores. Assim, sintomas respiratórios persistentes ou inexplicados devem ser valorizados independentemente da história tabágica do doente, evitando atrasos no diagnóstico. Paralelamente, as estratégias de prevenção devem ir além da cessação tabágica, incluindo medidas eficazes para reduzir a exposição ao radão e à poluição atmosférica, bem como ações de sensibilização que contribuam para combater a ideia errada de que apenas os fumadores podem desenvolver cancro do pulmão.

 

Além da implementação do rastreio, que medidas considera prioritárias para reduzir o número de diagnósticos em fases avançadas da doença?
Enquanto não estiver implementado um programa de rastreio do cancro do pulmão de base populacional, é essencial continuar a investir na literacia em saúde da população. São necessárias campanhas de sensibilização que alertem para os principais sinais e sintomas de alarme, como tosse persistente, dispneia, expetoração hemoptóica ou perda de peso inexplicada, incentivando à procura precoce do médico de família. O reconhecimento atempado destes sintomas pode traduzir-se numa referenciação mais célere e num diagnóstico em fases mais precoces da doença.

Paralelamente, é imprescindível otimizar toda a jornada de diagnóstico e estadiamento. A redução dos tempos de espera para a realização de exames de imagem, procedimentos diagnósticos e obtenção dos resultados anatomopatológicos e moleculares permitirá encurtar o intervalo entre a suspeita clínica e o início do tratamento, objetivo particularmente relevante nos doentes diagnosticados em fases mais precoces da doença, em que a intenção terapêutica é curativa. Circuitos de diagnóstico e estadiamento bem definidos e eficazes, são determinantes para evitar atrasos que podem comprometer o prognóstico dos doentes seja em que fase for da doença.

 

“É essencial continuar a investir na literacia em saúde da população”

 

Por último, é igualmente fundamental garantir um acesso rápido às terapêuticas inovadoras. A agilização dos processos de avaliação e autorização dos medicamentos, eliminando constrangimentos administrativos desnecessários, permitirá reduzir ainda mais a jornada do doente. Em Oncologia, o tempo é um fator crítico: cada etapa do percurso assistencial deve contribuir para que o tratamento mais adequado seja iniciado o mais precocemente possível, maximizando as probabilidades de controlo da doença e de sobrevivência com qualidade de vida.

 

As terapias-alvo e a imunoterapia transformaram o tratamento do cancro do pulmão. Os doentes portugueses têm hoje acesso atempado aos testes moleculares e às terapêuticas inovadoras de que necessitam?
A última década revolucionou o tratamento do cancro do pulmão. Evoluímos do tratamento igual para todos e ineficaz para a maioria, para a era da terapêutica personalizada com terapêuticas alvo e imunoterapia que permitem não a todos, mas a um número já relevante de doentes viver vários anos após o diagnóstico e com qualidade de vida.

“Em Portugal, os testes de caracterização molecular encontram-se implementados de forma exemplar há vários anos, constituindo um motivo de reconhecimento e de orgulho para a comunidade científica nacional.”

No entanto, a demora, por vezes significativa, na disponibilização dos resultados continua a representar um obstáculo à tomada de decisões terapêuticas atempadas, atrasando o início do tratamento mais adequado.

Paralelamente, os processos de aprovação e de acesso aos medicamentos inovadores permanecem pouco uniformes entre as diferentes instituições, incluindo no SNS, sendo frequentemente excessivamente morosos. Estas desigualdades e atrasos podem traduzir-se numa deterioração do estado clínico dos doentes, comprometendo a possibilidade de beneficiarem, em tempo útil, de terapêuticas potencialmente mais eficazes, com impacto significativo na sobrevivência e na qualidade de vida.

É igualmente fundamental reforçar o investimento em investigação clínica, promovendo o aumento do número de ensaios clínicos (com imunoterapia, terapêuticas-alvo, ADCs, anticorpos bi/triespecificos entre outros) realizados em Portugal e criando estruturas de investigação bem estruturadas e dedicadas nos hospitais. Esta aposta permitirá oferecer aos doentes o acesso precoce a terapêuticas personalizadas inovadoras, reforçar a capacidade científica e a atratividade das instituições de saúde, bem como gerar benefícios económicos que contribuirão para a sustentabilidade e o desenvolvimento do sistema de saúde, numa estratégia win-win-win.

 

Quais continuam a ser, na sua perspetiva, os principais desafios no tratamento do cancro do pulmão em Portugal?
Os principais desafios são: a ausência de um programa de rastreio do cancro do pulmão de base populacional, que reduziria substancialmente os cerca de 70% dos casos atualmente diagnosticados em fases avançadas da doença, nas quais as possibilidades de cura são muito limitadas;

Os baixos níveis de literacia em saúde da população, traduzidos na persistência de elevadas taxas de tabagismo e no reduzido conhecimento dos sinais e sintomas de alerta para o cancro do pulmão, que poderiam condicionar um diagnóstico mais precoce;

A demora no percurso de diagnóstico, estadiamento e caraterização molecular, conduzindo ao atraso no início do tratamento mais adequado;

A insuficiência de recursos humanos e limitações na organização dos cuidados, dificultando o funcionamento efetivo das equipas multidisciplinares e o investimento na formação contínua dos profissionais;

Assim como, o investimento insuficiente na investigação clínica, limitando o acesso dos doentes a ensaios clínicos multicêntricos internacionais;

 

Que prioridades gostaria de ver refletidas nas políticas de saúde para melhorar o prognóstico destes doentes nos próximos anos?
As prioridades que deveriam ser refletidas nas políticas de saúde são: o reforço dos recursos humanos envolvidos em todas as etapas do percurso assistencial da pessoa com cancro do pulmão, desde o diagnóstico e estadiamento até ao tratamento, seguimento e cuidados paliativos; assim como a agilização dos processos de autorização e acesso a fármacos inovadores, de forma a garantir um tratamento atempado, equitativo e baseado na melhor evidência científica.

É necessário implementar de um programa de rastreio do cancro do pulmão de base populacional, integrado com campanhas estruturadas de promoção da cessação tabágica, tal como apostar no reforço das iniciativas de literacia em saúde dirigidas à população, promovendo a sensibilização para os fatores de risco, os sintomas de alarme, a importância do diagnóstico precoce e os benefícios da cessação tabágica.

Além disso, é preciso que se faça um investimento em medidas de controlo ambiental, nomeadamente com impacto na redução de micropartículas poluidoras da atmosfera (PM2.5) e na promoção de estilos de vida saudáveis no sentido de reduzir a incidência de cancro do pulmão e de outras doenças respiratórias; e ainda um reforço da aposta na investigação clínica, promovendo o acesso dos doentes a ensaios clínicos e incentivando a participação dos centros nacionais em estudos multicêntricos internacionais; e ainda um investimento na formação contínua dos profissionais de saúde envolvidos na prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos doentes com cancro do pulmão.

 

Sílvia Malheiro

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