<i class="iconlock fa fa-lock fa-1x" aria-hidden="true" style="color:#e82d43;"></i> Cessação tabágica: estratégia fundamental no rastreio e no diagnóstico do cancro do pulmão
Responsável pela Consulta Intensiva de Cessação Tabágica no ACES da ULS de Matosinhos

Cessação tabágica: estratégia fundamental no rastreio e no diagnóstico do cancro do pulmão

Quando falamos de rastreio do cancro do pulmão, pensamos na TC de baixa dose, nos critérios de elegibilidade e na deteção precoce. No entanto, o rastreio não deve ser apenas um ato imagiológico. Deve ser uma oportunidade clínica para intervir no principal fator de risco modificável: o tabaco. Esta é, para mim, a mensagem central: no rastreio, no diagnóstico e no tratamento, deixar de fumar não é uma recomendação acessória. É uma intervenção clínica com impacto prognóstico.

Um programa de rastreio que identifica risco, mas não intervém sobre o principal fator modificável, fica incompleto. A cessação tabágica deve estar presente desde o convite ao rastreio, na comunicação do resultado e, naturalmente, no percurso do doente já diagnosticado.

O momento do rastreio pode funcionar como uma janela de oportunidade. A pessoa é chamada porque pertence a um grupo de risco, há uma maior consciência da exposição e das suas consequências. A forma como comunicamos é decisiva: não se trata de assustar ou culpabilizar, mas de ajudar o fumador a perceber que este é um momento concreto para reduzir risco e ganhar controlo.

Perante um rastreio negativo, há uma boa notícia, mas também um risco comunicacional. O utente pode interpretar o resultado como confirmação de que “está tudo bem” ou como autorização implícita para continuar a fumar. É essencial explicar que a TC é uma fotografia daquele momento: não mostra sinais suspeitos agora, mas não elimina a exposição acumulada nem o risco futuro. A mensagem deve ser clara: manter vigilância adequada e deixar de fumar.

Quando o resultado é positivo ou suspeito, a abordagem deve ser igualmente cuidadosa. O medo, a ansiedade e a culpa aparecem facilmente. Nessa fase, o nosso papel é orientar com rapidez, reduzir a incerteza e separar risco de culpa. A cessação tabágica deve ser apresentada como apoio clínico e não como censura. A pergunta não deve ser “porque é que continuou a fumar?”, mas sim “o que podemos fazer agora para o ajudar?”.

A abordagem deve ser breve e empática. Frases como “tem de parar” ou “sabe que isso faz mal” raramente acrescentam valor. É preferível perguntar: “em que ponto está relativamente à possibilidade de deixar de fumar?”, “o que já tentou?” ou “o que acha que poderia ajudar desta vez?”. A conversa deixa de ser moralizante e passa a ser uma decisão clínica partilhada.

Integrar cessação tabágica no rastreio implica mais do que aconselhar. Implica criar circuito: identificar consumo e carga tabágica, avaliar motivação, realizar intervenção breve, referenciar para apoio intensivo quando necessário, acompanhar recaídas, considerar farmacoterapia e medir resultados. Não basta saber quantas TC foram realizadas. É importante saber quantos fumadores receberam intervenção breve, quantos foram referenciados e quantos mantiveram abstinência.

No doente já diagnosticado, é fundamental combater uma ideia muito frequente: “agora já não vale a pena”. Vale a pena. A cessação tabágica deve ser entendida como intervenção terapêutica coadjuvante. Pode melhorar tolerância aos tratamentos, reduzir complicações, favorecer recuperação e ter impacto na sobrevivência e na qualidade de vida.

Assim, no rastreio e no diagnóstico do cancro do pulmão, a cessação tabágica não é um complemento. É prevenção primária, gestão de risco, apoio à comunicação clínica e intervenção terapêutica. Integrá-la de forma sistemática é transformar o rastreio num verdadeiro momento de cuidado.

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