2 Jun, 2026

Infeções sexualmente transmissíveis. “Temos de aumentar a acessibilidade ao rastreio em consultas e de forma anónima e confidencial”

De acordo com o estudo português “Perceção da população portuguesa sobre as infeções sexualmente transmissíveis”, apresentado no ID Symposium 2026, 45% dos portugueses não realizam exames de rastreio e 59% têm vergonha de os fazer. Para Rita Maciel Barbosa, assistente Graduada em Medicina Geral e Familiar e coordenadora do Centro Integrado de Saúde Sexual do Porto, é preciso falar mais do assunto e desmistificar ideias como sexo oral é mais seguro mesmo sem preservativo.

Infeções sexualmente transmissíveis. “Temos de aumentar a acessibilidade ao rastreio em consultas e de forma anónima e confidencial”

Atualmente, quais são as infeções sexualmente transmissíveis (IST) mais preocupantes?

O Centro de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) lançou recentemente um novo documento onde chama a atenção para o número crescente de casos de gonorreia e de sífilis que, neste momento, são consideradas talvez as IST mais preocupantes. Não podemos esquecer a infeção por clamídia – uma das infeções bacterianas também bastante prevalente.

Quem é mais afetado? Os mais jovens ou também existe um risco acrescido nos mais velhos?

No que diz respeito às três IST acima referidas, a população mais afetada tem sido a população jovem. Estamos a falar da população entre os 20 -24 anos nas mulheres e dos 25 aos 34 na população masculina. Por outro lado, quanto às diferenças entre géneros, no caso da gonorreia e da sífilis destaca-se o sexo masculino, e no caso da clamídia, em grande parte dos países da Europa continua a destacar-se o sexo feminino.

Mas se estivermos, por exemplo, a falar de VIH, é importante relembrar os dados do Relatório Nacional, onde se chama a atenção para o facto de que a maioria dos casos de diagnóstico de VIH, por transmissão heterossexual, ser em pessoas mais velhas, com idade igual ou superior a 50 anos.

“… ter uma IST não quer dizer nada sobre o número de parceiros sexuais ou as práticas sexuais da pessoa, muito menos sobre o tipo de pessoa que é. Basta ter uma relação sexual desprotegida para ser infetado por uma IST”

De acordo com o estudo, 45% dos portugueses não realizam exames de rastreio a IST. Porquê?

O próprio estudo dá, em si mesmo, algumas pistas sobre os motivos. Parece-me que existem vários fatores. Estamos a falar da população geral, que ainda não está muito sensibilizada para o tema, porque se falarmos de grupos de população vulnerável, provavelmente teremos taxas de rastreio muito superiores, uma vez que estas pessoas estão mais sensibilizadas para esta questão.

Cada vez se fala mais sobre o tema na comunicação social; têm saído mais notícias, nomeadamente durante os últimos dois anos, mas continua a não ser um tema sobre o qual se fala com profundidade entre as pessoas, nem com os profissionais de saúde. E os estudos demonstram isso.

Existe talvez uma desvalorização do assunto, sob ideias como aquela “só acontece aos outros e a pessoas com determinados comportamentos sexuais, mais promíscuos”. Ou seja, existem, ainda, preconceitos e mitos – as IST só atingem determinado tipo de população – o que não é verdade. Em boa verdade, ter uma IST não quer dizer nada sobre o número de parceiros sexuais ou as práticas sexuais da pessoa, muito menos sobre o tipo de pessoa que é. Basta ter uma relação sexual desprotegida para ser infetado por uma IST.

De acordo com o estudo, poderia indicar-me exemplos de desinformação/desconhecimento sobre diferentes IST?

Percebemos que existe desconhecimento sobre as diferentes IST. As pessoas ainda associam muito a palavra IST à infeção por VIH e desconhecem a epidemiologia atual, nomeadamente quanto às infeções por gonorreia, sífilis ou clamídia. Por outro lado, as IST são associadas a práticas sexuais penetrativas e a prática de sexo oral continua a ser muito desvalorizada, como sendo igualmente de risco, em caso de não ser protegida. Claro que os mitos e preconceitos, ou as barreiras identificadas no acesso a cuidados de saúde sexual por parte da população, também vão contribuir para essa desinformação. Os próprios profissionais de saúde descrevem sentir dificuldades nesta área, quer na abordagem comunicacional, quer no conhecimento técnico.

“E é urgente recuperarmos uma campanha preventiva, nomeadamente sobre o uso do preservativo, associado ao prazer sexual, tal como se trabalhou tão bem nos anos 90. Observa-se um abandono deste comportamento seguro, nomeadamente entre a população jovem”

O que mais contribui para estes resultados?

São estes vários fatores, é o desconhecimento, os mitos, as barreiras comunicacionais, e também temos aqui outra barreira, que é o facto de, por vezes, o acesso aos rastreios ainda não estar facilitado. Temos de trabalhar mais para aumentar a acessibilidade ao rastreio, quer em consultas, mas também de forma anónima e confidencial, para ultrapassar algumas barreiras.

O estudo deixa algumas recomendações, nomeadamente para os profissionais de saúde?

Acima de tudo, o estudo levanta aqui uma questão: existem necessidades identificadas, estudadas, é preciso priorizar este assunto, normalizar a sua abordagem numa consulta médica. É preciso falar-se por rotina sobre sexualidade, respeitando, naturalmente, os princípios do respeito e ausência de juízo de valor. É preciso normalizar a questão das IST e o acesso aos rastreios. Se eu tenho atividade sexual (desprotegida), é importante fazer rastreios, ponto final.

E é urgente recuperarmos uma campanha preventiva, nomeadamente sobre o uso do preservativo, associado ao prazer sexual, tal como se trabalhou tão bem nos anos 90. Observa-se um abandono deste comportamento seguro, nomeadamente entre a população jovem.

Maria João Garcia

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