A boca como ponto de partida para a saúde
Quando concluí a minha formação, a medicina dentária cabia, literalmente, num dente. Cáries, coroas, facetas, os problemas estavam, inevitavelmente, associados aos dentes. Era ali que começavam e era também ali que acabavam, como se a boca estivesse separada do resto do corpo. Ao longo dos anos comecei a perceber que muitos dos problemas que via na boca raramente ficavam por ali. Essa inquietação levou-me a estudar para além dos limites tradicionais da medicina dentária, muito antes de a evidência científica consolidar esta visão. E bastava olhar para o nome da especialidade a que me dedico para perceber que deveria ter sido sempre assim.
Afinal, estamos a falar de Medicina Dentária, em que o ‘Dentária’ especifica apenas onde se pratica a medicina que, no entanto, nunca deixou de ser medicina. Foram os profissionais que a praticam que, ao longo de anos, afunilaram o seu olhar, que ficou parado na boca, ignorando o resto do corpo a que essa boca está ligada.
Mas a boca sabe muito sobre o corpo. Não é um órgão isolado, mas um ecossistema onde habita um microbioma, ou seja, uma comunidade de bactérias que não está lá por acaso. A boca é o ponto de partida da digestão e um indicador sensível do que se passa no resto do organismo. Quando esse equilíbrio se perde, as alterações deixam de ser apenas locais e podem influenciar processos inflamatórios no resto do organismo, e as consequências podem sentir-se na boca, mas raramente ficam por aqui.
Na realidade, manifestam-se de diferentes formas e em diferentes sistemas, de tal forma que, como mostram os avanços mais recentes no conhecimento, se fala mesmo numa associação entre a saúde oral e a inflamação sistémica, com associações consistentes a doenças cardiovasculares, diabetes e outras doenças crónicas.
É o que mostra uma revisão internacional (An umbrella review of the evidence linking oral health and systemic noncommunicable diseases), publicada na prestigiada revista Nature Communications, que identificou 28 doenças crónicas, entre as cardiovasculares, diabetes e distúrbios metabólicos, que apresentam uma associação forte a problemas de saúde oral.
De acordo com a investigação, a presença de inflamação crónica na boca, como acontece na periodontite, pode permitir que bactérias e subprodutos acedam à corrente sanguínea, alimentando um estado de inflamação sistémica que desgasta o organismo.
No entanto, essa doença periodontal para o paciente, por exemplo, pode ser apenas uma gengiva que sangra. Para nós, pode representar um sinal de um processo inflamatório que merece ser compreendido no contexto da saúde global da pessoa. E, de acordo com a minha experiência, esta falta de conexão torna-se uma das maiores barreiras à prevenção efetiva.
Dentro da boca há ainda outro sinal que costuma passar despercebido: a saliva. Pessoas com a boca seca, queixas digestivas, fadiga persistente, tudo isto sintomas que podem ser associados a problemas dispersos, têm frequentemente uma origem comum, a boca que, através da saliva, pode fornecer informação relevante sobre o equilíbrio do microbioma oral, processos inflamatórios e outros indicadores importantes para a prevenção personalizada.
No entanto, durante anos, a forma como comunicámos com os pacientes foi sobretudo centrada no tratamento, fosse este a reabilitação, a colocação de implantes ou a resolução de problemas estéticos. Mas este é um modelo que, por definição, chega tarde, uma vez que apenas age quando o problema já está instalado. O que é necessário é uma mudança de paradigma, darmos às pessoas ferramentas para que nunca cheguem a precisar desse tratamento. A prevenção implica compreender fatores como o sono, a alimentação, a respiração ou o microbioma oral, porque todos influenciam a saúde da boca e são influenciados por ela. A boca reflete o que se passa à sua volta; não funciona isolada do resto das escolhas diárias de uma pessoa.
É uma mudança que não é simples. Dizer a alguém que uma bactéria que vive na sua boca pode estar associada a um maior risco de determinado tipo de cancro, ou a um problema cardiovascular, é uma afirmação que pode gerar perplexidade. É preciso, por isso, apostar na informação, na sensibilização, para que as pessoas saibam, de forma concreta, o que podem fazer de diferente. E é importante ter sempre presente que esta visão não pretende, de maneira nenhuma, substituir outras especialidades médicas, mas trabalhar de forma complementar com elas.
E pretendemos também mudar a forma de olhar para a boca, que foi, durante muito tempo, tratada como um departamento isolado do corpo, apesar de ser a porta de entrada de quase tudo o que nos afeta. E está na altura de a tratarmos como tal. Acredito que, daqui a alguns anos, será difícil compreender como alguma vez separámos a boca do resto do corpo. Porque cuidar da saúde oral sempre foi, acima de tudo, cuidar da saúde das pessoas.
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