As farmácias não podem ficar offline
Presidente da Associação de Farmácias de Portugal

As farmácias não podem ficar offline

Os sistemas do Serviço Nacional de Saúde (SNS) estiveram inoperacionais no dia 12 de junho, com a explicação a apontar para uma falha de energia. O resultado? Médicos sem conseguir prescrever, hospitais a regressar ao papel e farmácias de todo o país sem conseguir dispensar medicamentos com comparticipação no processo “normal” de dispensa eletrónica. De norte a sul, no Continente e nas Regiões Autónomas, no SNS e no setor privado.

Contudo, vários dias depois, continuam a verificar-se pontualmente alguns constrangimentos nas farmácias comunitárias. No entanto, enquanto os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SMPS) garantiam que os sistemas estavam a ser repostos e na sua maioria estavam “praticamente todos operacionais”, as farmácias continuavam no terreno a tentar encontrar soluções para garantir que nenhum utente ficava sem acesso à medicação e especialmente à medicação crónica. Este desfasamento entre o que é comunicado oficialmente e o que acontece na prática é parte do problema.

Na verdade, existe um modelo de dispensa offline previsto nas próprias especificações técnicas dos SPMS que permite o levantamento de medicamentos através de QR Code para as receitas eletrónicas, com registo posterior e manutenção da comparticipação. O problema é que este mecanismo é de tal forma complexo, moroso e pouco comunicado que, na prática, não era operacional para a maioria das farmácias. O resultado foi o de sempre: muitas farmácias dispensaram a medicação por bom senso e os utentes pagaram o valor total sem comparticipação. Serão ressarcidos mais tarde, num processo burocrático que para muitas famílias será mais um obstáculo.

A pouco mais de cinco semanas do prazo legal de se designar quais são as entidades críticas em Portugal, conforme transposição da Diretiva Europeia no Decreto-Lei n.⁰ 22/2025, não é aceitável que não exista um plano de contingência funcional. Este plano deverá assentar em mecanismos de redundância, planos de contingência testados e soluções de failover capazes de assegurar o funcionamento dos serviços mesmo perante incidentes inesperados. E isto é ainda mais relevante quando se trata de todo o SNS.

Esta situação não é nova. Já aconteceu no passado e continuará a acontecer enquanto não se adotarem as devidas diligências. O setor da saúde é hoje profundamente digital, mas quanto maior é a dependência tecnológica, maior deve ser o investimento nos sistemas que a suportam.

As farmácias trabalham na linha da frente, encontrando respostas para problemas que não controlam, e essa capacidade é uma força do setor. Contudo, não deve ser confundida com uma solução permanente, pois é inglório estarmos sempre a tentar arranjar soluções sem infraestruturas de acesso funcionais. A proximidade, dedicação e profissionalismo devem ser complementados por sistemas resilientes, preparados e capazes de responder quando surgem imprevistos.

Cada incidente deve ser encarado como uma oportunidade de aprendizagem e melhoria. É fundamental retirar conclusões, identificar vulnerabilidades e implementar medidas que reduzam o risco de repetição, já que, em menos de um mês, é a segunda vez que somos confrontados com falhas graves nos sistemas de informação do SNS, conforme a própria Ordem dos Médicos reconheceu, ao pedir esclarecimentos urgentes aos SPMS.

Num sistema de saúde moderno, a tecnologia deve ser uma garantia de acesso. Nunca um obstáculo.

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