O Doente Cubista: O que Picasso nos ensina sobre a Medicina Moderna
Assistente Graduado Sénior de MGF (Reformado); Mestre em Comunicação em Saúde pela Universidade Aberta; Doutorado em Clinica Geral pela Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa
17 Ago, 2026

O Doente Cubista: O que Picasso nos ensina sobre a Medicina Moderna

Hoje venho dar-vos uma novidade: Pablo Picasso fez o Curso de Medicina!

Em 1897, com apenas 15 anos, o jovem prodígio pintou a tela “Ciência e Caridade”. A obra retrata um médico (representante da Ciência) sentado ao lado do leito e tomando o pulso de uma mulher doente. Para além destas duas figuras, vê-se uma freira (representante da Caridade) segurando uma criança. Logo a seguir o jovem entrou na Faculdade de Medicina. No primeiro dia, colocaram-no perante um cadáver desmembrado e com os seus órgãos isolados. Então, disseram-lhe: “agora estuda o coração, o pulmão, o rim, o cérebro, os músculos da perna e assim sucessivamente”.

Ninguém se preocupou em saber como aquele cadáver ali chegara. Qual foi a sua história, o que lhe aconteceu, qual o seu trajeto de vida, que discursos o construíram, quais os sonhos que realizou e deixou de realizar, quem amou e por quem foi amado.

E este método de estudo, por órgãos isolados, desgarrados da pessoa e do seu contexto, repetiu-se ao longo de todo o curso. No final, os professores disseram-lhe: “Agora vai à tua vida“. Esqueceram-se apenas de um detalhe: juntar as peças e devolver a integridade ao ser humano. Qual foi a consequência? Em 1907, com 25 anos e recém-licenciado em Medicina, Picasso retomou a atividade artística e pintou “Les Demoiselles d’Avignon”. A sua visão do ser humano estava mudada: agora representava-o na tela de forma fragmentada, geométrica e desintegrada. Dir-se-á mesmo desumanizada: operou-se ali uma autêntica antropomorfização ao contrário.

Esta biografia ficcionada é uma metáfora para o que observamos no ensino médico atual. O Cubismo faz exatamente o que ensino médico faz quando isola as estruturas anatómicas, rodando-as, analisando-as nos mais diverso ângulos, sem as integrar no seu contexto vivo. Já estamos longe da divisão dualista clássica (de mente e corpo), mas caímos num pluralismo cego. O pintor cubista e o médico hiperespecializado partilham do mesmo erro: esquecem que o todo é radicalmente mais que a soma das partes, muito particularmente nos sistemas vivos. Se no primeiro caso o Cubismo continua a ser Arte, na Medicina é desumanização.

Ao desagregar o indivíduo em sistemas estanques, o ensino médico destrói a identidade da pessoa. Dentro de cada especialidade, com a hiperespecialização a atomização do doente aprofunda-se. Hoje o doente com multipatologia corre o risco de ser visto como uma tela cubista ambulante: desmembrado, desprovido da sua integridade de humano, visto num plano único e em que os órgãos já não se encaixam harmonicamente.

O foco passa a ser a peça, às vezes até a parte da peça. O cardiologista olha para o coração num dado ângulo e o arritmologista noutro; o pneumologista aborda o pulmão noutra perspetiva; o neurologista isola o cérebro do resto do organismo. No final do corredor do hospital, o doente não se compreende a si nem o que se passa consigo, porque foi despedaçado em blocos  que não se encaixam harmoniosamente na sua realidade vivida.

Esta atomização em “peças” põe em risco a  própria sua segurança do doente. A hiperespecialização foca-se obcessivamente no rastreio do “órgão X” ou do “sistema Y”, ignorando ou desvalorizando as consequências que esta abordagem tem para o doente: o sobrediagnóstico e o sobretratamento que só reduzem a qualidade de vida do paciente, fazem disparar os custos com a saúde e, no mínimo, sem qualquer valor acrescentado.

O grande desafio da medicina  contemporânea é colar os fragmentos  que a Escola Médica separou. Esta é a missão nuclear das especialidades médicas generalistas (ou integradoras): a Medicina Geral e Familiar,  a Medicina Interna e a Pediatria. São as especialidades generalistas que devem liderar a formação médica, reconfigurando o papel das especialidades técnicas para que colaborem em vez de competirem. Para isso é preciso colocar as Faculdades de Medicina do avesso e derrubar as muralhas dos departamentos isolados.

Mudar estruturas é um processo burocrático; o verdadeiro desafio está em mudar as atitudes e isso depende de cada um. O nosso desafio atual não é diagnosticar melhor cada milímetro do fragmento, mas sim ter a coragem de voltar a pintar “A Ciência e a Caridade”, isto é, juntar as peças e tratar as pessoas na sua maravilhosa totalidade.

NOTA: O autor utilizou o modelo de inteligência artificial Gemini (Google) como assistente editorial para a revisão estilística e estruturação gramatical do manuscrito original.

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