
Assistente Graduado Sénior de MGF Mestre em Comunicação em Saúde pela Universidade Aberta; Doutorado em Clínica Geral pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa
O médico é responsável pela ponte, não pelo destino: Resgatar o prazer da consulta
A gestão dos serviços de saúde baseada no controlo dos processos e a “indústria da saúde”, cujo objetivo é o consumo e o lucro, transformaram a consulta num processo de produção desumanizado. O que importa é produzir, não importa o quê, nem para quê, desde que o resultado se traduza em números ou dividendos.
Entretanto, temos um paradoxo: a população nunca consumiu tantos produtos de saúde e, no entanto, nunca se sentiu tão doente ou, melhor dizendo, tão “dolente”. Por outro lado, os médicos nunca tiveram tantas armas terapêuticas à sua disposição, mas nunca se sentiram tão desiludidos com o exercício da profissão. Por vezes, sentimo-nos “vendedores de saúde” que falham sistematicamente. Talvez o problema não seja o doente que não adere, mas seja o médico que ainda acredita que pode decidir por ele.
O diagnóstico: quando o Sistema coloniza a Medicina
Numa homenagem a Jürgen Habermas, recentemente falecido, evoco o seu conceito de ação comunicativa, algo que os bons clínicos sempre souberam fazer intuitivamente e que Habermas nos ajuda a nomear e a defender. O seu legado intelectual permite-nos denunciar como o “Sistema” colonizou a Medicina e a usa em proveito próprio: cria métricas e algoritmos que visam apenas o consumo (de fármacos e serviços) e o lucro. Neste Sistema, o paciente é um objeto a ser reparado. Para Habermas, esta é a “ação estratégica“: levar o outro a mudar de comportamento por influência externa ou força.
Habermas trabalhou sobre o conceito de “ato de fala” de John Austin (How to do things with words). O ato de fala pode ser performativo, ou seja, “fazer coisas” através das palavras (por exemplo, levar o interlocutor a mudar o comportamento). Para que o paciente mude (efeito perlocutório), é necessário que o ato de fala tenha força ilocutória. Este poder depende do comportamento do médico, mas também da perceção que o doente tem do clínico. Ora, no “Mundo da Vida”, o paciente é um sujeito com vontade própria a quem deve ser reconhecida a capacidade de escolha. É aqui que entra a ação comunicativa, cujo objetivo é alcançar o entendimento mútuo, a que Habermas chama de alinhamento de significados.
O conceito: da aderência à concordância
As métricas atuais para avaliar o impacto da intervenção médica baseiam-se no conceito de aderência, como se fosse um fenómeno mecânico de submissão. O paciente deve “agarrar-se” ao que lhe é proposto, moldando-se ao plano prescrito, em vez de ser a proposta a adaptar-se à sua complexidade individual. Falar de aderência, quando se defende a Medicina Centrada na Pessoa, é uma incongruência, um verdadeiro oxímoro. Numa medicina humanizada, o objetivo é informar, capacitar e construir confiança para que o paciente possa escolher livre e conscientemente. O paciente escolhe, não tem de “aderir”. Tal como num casamento: não se adere ao outro, escolhe-se a pessoa com quem se quer viver.
Quando o paciente, na plena posse do conhecimento, decide não mudar, não houve falha de aderência nem resistência, houve a expressão da sua autonomia. Tal como uma floresta não é feita de árvores direitas: a maioria torce-se para a luz, contorna pedras, adapta-se ao terreno. É essa diversidade que lhe dá força e beleza. Os nossos doentes não são diferentes. O papel do médico é garantir que a árvore sabe por que é torta, sem procurar endireitá-la à força, pois nenhuma árvore se endireita dessa forma de modo saudável.
O objetivo do médico deve ser chegar ao entendimento comum: o “alinhamento de significados”. De todos os resultados possíveis de uma consulta, o que nunca deve faltar é a sensação de que o paciente foi compreendido. Se ele sai com essa certeza e compreende a sua condição, o médico foi efetivo, independentemente de o plano terapêutico ser seguido.
No ato comunicativo de Habermas, o sucesso depende de três pretensões de validade: 1) Verdade (relação com o mundo objetivo); 2) Correção (o conteúdo está de acordo com o contexto social); 3) Sinceridade (a veracidade do clínico). A escuta é a principal ferramenta para atingir estas pretensões. Só a escuta permite conhecer o mundo objetivo e o contexto social do paciente. Esta atitude preserva a relação, não culpabiliza o médico e devolve a dignidade e o poder de decisão ao doente.
O imperativo: resistir, comunicar e recuperar o prazer
A omnipresença dos meios digitais agrava ainda mais esta deriva. Citando Byung-Chul Han, o ato comunicativo digital carece de presença, é efémero e não gera compromisso. Por isso, não permite alcançar o alinhamento de significados porque tenta “vender” aderência (quantidade e estratégia), quando a Medicina de excelência exige construir concordância (qualidade e entendimento). No digital, o paciente é um “seguidor”; na clínica, deve ser um interlocutor.
A consulta é um ato de linguagem, não de produção. Recuperar esse gosto não é nostalgia, é resistência. É urgente que os Médicos de Família abandonem a “ação estratégica”, em que se procura vergar o paciente pela persuasão, manipulação ou coerção, e assumam a “ação comunicativa”, em que se procura o entendimento mútuo, respeitando a verdade, o contexto e a sinceridade. Como médicos, somos responsáveis pela qualidade da ponte (a relação e a comunicação) não pelo destino final de quem a atravessa. Que os Médicos de Família reconquistem o prazer da consulta, a bem da saúde dos seus pacientes e da sua própria sanidade.
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