Existem dificuldades no diagnóstico atempado dos doentes, particularmente aqueles que residem fora dos grandes centros urbanos?

Apesar de não existir um marcador para a Esclerose Múltipla, a conjugação de critérios clínicos e de outros exames complementares, nomeadamente a ressonância magnética, tem permitido cada vez mais reduzir o intervalo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico. De acordo com um estudo realizado recentemente no nosso país, o intervalo médio entre os primeiros sintomas e o diagnóstico da forma mais comum de Esclerose Múltipla (surto-remissão) foi em média de quatro meses, o que representa um ótimo indicador, mesmo a nível europeu.

Contudo, a experiência mostra-nos que este período tende a ser mais longo em algumas regiões com menor nível de cuidados de saúde, particularmente no acesso ao neurologista. Para colmatar estas assimetrias, importa desenvolver centros de referência que funcionem como tal e que trabalhem em rede com todos os hospitais da sua região de influência. Ainda que este já seja um modelo conhecido do Serviço Nacional de Saúde, a sua concretização tende a atrasar-se.

 

“Intervalo médio entre os primeiros sintomas e o diagnóstico da forma mais comum de Esclerose Múltipla (surto-remissão) foi em média de quatro meses”

 

Qual o impacto desses atrasos na qualidade de vida futura dos doentes?

No caso particular da Esclerose Múltipla, há evidência robusta de que o tratamento precoce reduz a atividade da doença (frequência de surtos) e retarda o aparecimento de incapacidade a longo prazo. Assim, é muito importante que o diagnóstico seja estabelecido o mais cedo possível.

Considera que os doentes com EM têm facilidade de acesso a todos os fármacos? Mesmo aos mais caros?

A dificuldade de acesso a medicamentos de Esclerose Múltipla reside sobretudo no que respeita aos fármacos ditos de segunda linha, que apesar de mais efetivos do que os demais, são também mais caros.

 

“Dificuldade de acesso a medicamentos de Esclerose Múltipla reside sobretudo no que respeita aos fármacos ditos de segunda linha”

 

Embora exista uma evidência crescente de que a utilização deste tipo de terapêuticas numa fase precoce da doença pode minimizar a sua progressão, ainda não existe uma uniformização do seu uso, facto que ocorre algumas vezes por ‘inércia terapêutica’, ou na maioria dos casos pelas restrições impostas pelas entidades pagadoras (a saber, as administrações hospitalares), que têm como principal propósito a mitigação de custos do Serviço Nacional de Saúde.

De que forma a investigação em Neurociências tem contribuído para os avanços no diagnóstico, monitorização e tratamento dos doentes?

De facto, o trabalho de investigação clínica nas Neurociências tem tido um contributo muito relevante na evolução do diagnóstico, monitorização e tratamento não só da Esclerose Múltipla, mas de outro tipo de doenças, como a demência.

Neste contexto, o desenvolvimento da genética/biologia molecular e das novas técnicas de imagem vieram permitir um melhor conhecimento dos mecanismos que estão subjacentes aos processos neurodegenerativos. Estes avanços, para além de permitirem um diagnóstico mais precoce e mais preciso, vieram ainda relançar o tratamento destas doenças, levando ao desenvolvimento de tratamentos específicos para evitar a degeneração neuronal (como anticorpos monoclonais ou terapia genética). Muitos destas terapêuticas estão em fase de ensaio clínico, mas há uma grande expectativa sobre o aparecimento de tratamentos que sejam capazes de bloquear o processo neurodegenerativo da Esclerose Múltipla e tantas outras doenças.

AO/SO

 

 

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