“É frustrante ver que não há uma verdadeira articulação entre a MGF e as especialidades hospitalares”
Luiz Miguel Santiago é o Médico de Família ao Longo da Vida, em ex-aqueo, com José Mendes Nunes. Além da atividade clínica em MGF, conseguiu enveredar por outros caminhos, nomeadamente pela Farmacologia e pela Ética. Em entrevista, fala sobre o Serviço Médico à Periferia, que o levou a optar pela Clínica Geral e dá a sua opinião sobre a articulação (ou falta dela) nas unidades locais de saúde.

Acreditou que iria receber o Prémio de Médico de Família ao Longo da Vida, que destaca o trabalho dos MGF?
De maneira nenhuma! Não é falsa modéstia, não esperava mesmo nada, dado o gabarito dos outros nomeados. Foi, de facto, uma surpresa muito grande, porque a única coisa que tenho feito, desde a minha aposentação, tem sido na área académica. Só tenho de agradecer, em particular a quem fez a candidatura, a Sra. Professora Inês Rosendo e a todos aqueles que votaram em mim e a quem me apoiou ao longo da carreira. O meu agradecimento é, em primeiro lugar, à minha família, porque tentei sempre estar em casa, mas tive sempre muitas coisas para fazer, o que não permitiu estar mais tempo com ela…
Também aos Internos, aos utentes e a todas as pessoas que tiveram a paciência de me aturar enquanto médico. Enfim, a todos os que me ensinaram, sobretudo dois homens que são muito importantes para a minha formação: o Prof. Salvador Massano Cardoso, que me lançou o desafio de fazer mestrado e doutoramento e também a um outro Homem, o Sr. Prof. Batel Marques, com quem eu aprendi imensa coisa na década de 90 e no início de 2000, abrindo-me as portas para muitas coisas.
Logicamente, a vontade de fazer coisas novas, de colocar os paradigmas todos em causa e de procurar soluções, implica muita motivação intrínseca. Há quem se adapte, outros não. Eu acredito que podemos sempre ir mais além. Por outras palavras, sou daquelas pessoas que não sabem dizer não e que por causa disso se veem com alguns problemas, de vez em quando. Tive momentos na vida que achei que tinha de ir com mais calma, para evitar entrar demasiado em stress. É preciso saber delegar e contar com a ajuda de terceiros.
Por que optou por Clínica Geral?
Fiz parte do grupo de médicos que fez o último ano de Serviço Médico à Periferia. Foi em 1982. Para fugir a sorteio defini com a minha mulher, também médica, ir para Seia, juntamente com mais sete ou oito colegas, onde prestávamos cuidados de saúde em todo aquele concelho. Acabado o Serviço Médico à Periferia, voltei para Coimbra, e tinha de escolher uma especialidade. Fiz o exame e na altura até atrasei o concurso ao ponto de me telefonarem a dizer que tinha poucas horas para decidir, caso contrário seria excluído.
Qual era a minha grande dúvida existencial? Estava dividido entre “Clínica Geral” e Psiquiatria, porque eram as duas áreas em que se conseguia falar com as pessoas e ter uma visão mais holística. Acabei por optar pela “Clínica Geral”. Mas nunca quis ser médico para ser um mero técnico a aplicar guidelines de algo muito específico. Não considero que devamos ser um Leonardo da Vinci, que fez tudo e mais alguma coisa e de forma espetacular. Entendo que um espírito como o meu e dos médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF) é o de se serem capazes de saber um pouco de tudo e bem, e não muito de muito pouco. A minha vida académica tem muito a ver com esta visão… não ficar estagnado.
“Quase todos os que entraram para “Clínica Geral”, o fizeram porque havia emprego, gostavam da área e também por não quererem fazer muitas horas no hospital. E, devo dizer, muitos optaram por causa da experiência do Serviço Médico à Periferia”
Como foi a experiência do Serviço Médico à Periferia?
Foi espetacular! Imagine que tinha acabado o curso há dois anos e, por uma questão de fuga a sorteio, fui parar a Seia. Cheguei, com mais colegas, numa camioneta com mobílias, como cama, cómodas, fogão, frigorífico… Entretanto, ficamos a saber que nós (7 médicos) teríamos de fazer consulta e prestar cuidados em quase todas as localidades da região, no Centro de Saúde de Seia e num pequeno hospital com 14 camas de internamento masculinas e 14 femininas.
Logo no primeiro dia de trabalho no hospital, mal entro, chamam-me de urgência para fazer um parto. Nesse dia ainda houve mais três…Tínhamos de fazer de tudo um pouco, inclusive promover a vacinação. E não se tinha as condições atuais… Mas isso também permitiu ter um contacto mais concreto com a realidade das pessoas. Perto, havia um lar, onde me prontifiquei a ir como médico que podia ajudar. E ia ao lar mais que uma vez por semana, fora do horário. Foi uma experiência que me ensinou muito e que me tocou profundamente. Tornei-me mais expedito e resiliente. O Serviço Médico á Periferia ajudou-nos a ser mais humanos, algo fundamental, sobretudo quando estamos numa especialidade tão abrangente.
Como foi a transição de Clínica Geral para MGF, na prática clínica?
Quase todos os que entraram para “Clínica Geral”, o fizeram porque havia emprego, gostavam da área e também por não quererem fazer muitas horas no hospital. E, devo dizer, muitos optaram por causa da experiência do Serviço Médico à Periferia. Foi importante a criação da especialidade, mas isso também levou a uma maior responsabilidade. A MGF tinha que ser atrativa, cientificamente culta e com resultados observáveis. E conseguiu-se tudo isso, tanto que, em pouco tempo, somos exemplo na Europa.
Foi um reconhecimento e um avanço social e cultural, por causa da premissa de que a Medicina é uma ciência económica. Por outras palavras, fazemos o melhor para que as pessoas estejam bem de saúde para que consigam trabalhar e, quando doentes, possam estar o melhor possível. E, mesmo os incapacitados, devem estar minimamente bem para que também não haja tantos custos. A vacinação, por exemplo, e outras medidas preventivas ajudaram muito neste ponto. Na altura, a figura do médico era muito prestigiada. Hoje, é menos, mas mesmo assim está entre as mais bem vistas.
O que foi mais desafiante na reforma dos cuidados de saúde primários (CSP)?
Em 2004, estive à frente da Sub-região de Saúde de Coimbra e percebi que tinha de lançar um desafio de mudança. Por um lado, pôr os enfermeiros a ter mais competências e, por outro, iniciar a informatização do sistema para os médicos.
“Há trabalhos sobre isso: os médicos de MGF consideram, na sua maioria, que o modelo ULS não cumpriu com essa missão. Isso só se conseguiu, até agora, nas ULS mais antigas. É preciso apostar numa cultura de aproximação”
E o mais frustrante?
Sou um otimista por natureza… mas ainda é frustrante ver que não há uma verdadeira articulação entre a MGF e as especialidades hospitalares. Somos todos uma equipa que trabalha para que a população tenha saúde. E isso não depende apenas dos médicos. A saúde é um sistema interconectado e interdependente de todas as especialidades.
Mas essa articulação não tem sido possível com as ULS?
Gostava muito de acreditar nisso… Por acaso até defendo mais os sistemas locais de saúde… Há trabalhos sobre isso: os médicos de MGF consideram, na sua maioria, que o modelo ULS não cumpriu com essa missão. Isso só se conseguiu, até agora, nas ULS mais antigas. É preciso apostar numa cultura de aproximação. A comunicação entre MGF e hospital dá-se cada vez mais quando as pessoas se conhecem e, segundo alguns estudos espanhóis, a comunicação seria muito melhor se as unidades de saúde estivessem situadas no mesmo espaço do hospital. O modelo ULS talvez venha a dar resultados num futuro distante, mas se calhar não vai ser muito fácil, enquanto a dimensão das ULS for a que é atualmente.
Na sua opinião, deveria haver ULS mais pequenas?
Será mais fácil, mas obviamente que há exceções, como é o caso dos hospitais universitários, porque são de última linha.
“É preciso pensar que há quem queira conjugar a clínica com o ensino e a investigação e deverá poder fazê-lo. Temos mais de 50 doutorados em MGF!”
Como vê o facto de os jovens quererem conciliar mais a vida profissional e pessoal, assim como o ensino e a investigação?
O que eles querem, nós também o quisemos. Mas, na prática, não fizemos nada. Fiz o meu doutoramento sempre a trabalhar…Reconheço que os jovens têm razão. São ciclos. Hoje, devemos repensar o paradigma do tempo. A vida não é apenas trabalho. Mesmo fora de Portugal, procura-se esta nova forma de estar. É preciso ponderar o que se pede, mas nunca esquecer que a saúde da população não pode ser posta em causa.
Nos CSP, surgiram as USF modelo C. O que pensa destas mudanças?
Entre 2006 e 2011, Portugal teve à frente da European Union of General Practitioners (UEMO), e tal como está hoje e em todas as visitas ao estrangeiro, víamos este tipo de unidades, que são uma espécie de cooperativas médicas. Resta saber como isto se articula com o Serviço Nacional de Saúde (SNS), que é um bem social que não pode ser posto em causa, mas cujo paradigma deve ser repensado.
E de que forma?
Temos que ouvir a população, os profissionais e perceber por onde ir. A saúde é essencial e pode até haver mais modelos do que aqueles a que estamos habituados. É preciso pensar que há quem queira conjugar a clínica com o ensino e a investigação e deverá poder fazê-lo. Temos mais de 50 doutorados em MGF! Mais importante que o modelo, é saber que estamos a trabalhar para um bem social comum.
Está ligado à academia, não se deveria fazer mais estudos para que se adotem modelos que são cientificamente validados?
Já existem estudos, mas um modelo para dar resultado tem que ser pensado, posto em prática, acompanhado e avaliado. E a avaliação não se deve resumir à produção e aos resultados em curto prazo. Isso é importante, mas também temos que olhar mais além para saber se há mais qualidade de vida, menos morbimortalidade e maior custo-eficácia ou eficiência.
É conhecido como o “pai” do Sistema de Apoio ao Médico (SAM). Como é que surgiu este projeto?
No meu primeiro ano de trabalho, em 1983, no Centro de Saúde de Santa Clara, tínhamos de fazer o registo das consultas em fichas em papéis duros pequenos e depois em fichas A4, que incorporaram o modelo SOAP. Comecei a mexer em computadores em 1988. Achei que todo aquele processo manual era uma perda de tempo e criei uma base de dados em Excel que serviu para servir estatísticas de prevalência.
Mais tarde, em 2003 fui trabalhar para o INFARMED a dirigir o Observatório de Medicamentos e Produtos de Saúde e percebi que havia algo chamado Serviço de Apoio ao Médico, o SAM. Vindo para Coimbra, em 2004, comecei a trabalhar em software e redes com uma equipa pequena. O objetivo era simples: libertar o médico da burocracia para que ele pudesse estar concentrado no doente. Foi um desafio enorme convencer os médicos de que o computador não os ia substituir, nem ia tirar tempo à consulta. Pelo contrário, ia organizar a informação e torná-la acessível. Hoje parece óbvio, mas em meados dos anos 90 e início dos de 2000, para muitos colegas era quase ficção científica.
E o SAM acabou por se tornar a norma durante muitos anos em Portugal. Foi um orgulho ver aquele “filho” crescer e ser utilizado por colegas, em particular na zona do Distrito de Coimbra. Mudou a forma como trabalhávamos, melhorou a segurança do paciente, porque passámos a ter um histórico legível e organizado e passou a dar-nos a capacidade de ter trabalho estatístico em Saúde. Acho que foi por isso que teve o sucesso que teve, porque os médicos reviram-se naquilo, sentiram que não era uma imposição administrativa, mas uma ferramenta de trabalho. Mas os tempos mudaram.
“No dia em que eu perder a curiosidade, no dia em que eu achar que já sei tudo ou que já não vale a pena aprender mais nada, então aí estou reformado. Em suma, quero continuar a viver”
Também se interessou sempre pela Farmacologia e pela Ética.
Sim, sempre senti um fascínio enorme pelo medicamento. É incrível como se consegue provocar alterações. E, antes, era a principal arma que o médico tinha e isso levou-me a estudar mais esta área, tendo sido inclusive a minha área de Mestrado em Saúde Pública e de Doutoramento em Saúde na área da Sociologia Médica, Medicina Preventiva. Quanto à Ética, comecei a dedicar-me mais após o doutoramento, quando fui convidado pela ARS Centro para coordenar uma equipa que se destinaria a estudar as propostas de estudos na sua área de influência. Foi mais um desafio, que me levou à Comissão de Ética da ARS Centro e, posteriormente, à Comissão de Ética da APMGF.
Quais são os seus próximos projetos?
O projeto é estar vivo amanhã. Gostava de continuar a dar o meu contributo na Faculdade e ver os meus alunos de Doutoramento chegarem ao fim com sucesso. Que os trabalhos deles possam, de facto, ser contributos para a melhoria da MGF em Portugal. Também gostava de continuar a escrever. Eu gosto muito de escrever e tenho algumas ideias para alguns livros, não só técnicos, mas também de reflexão sobre a medicina e a vida.
A nível mais pessoal, quero ver os meus netos a crescer e cantar no meu Coro, o Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra. Viver um dia de cada vez, com a mesma intensidade e com a mesma vontade de aprender. Este é o segredo. No dia em que eu perder a curiosidade, no dia em que eu achar que já sei tudo ou que já não vale a pena aprender mais nada, então aí estou reformado. Em suma, quero continuar a viver.
“As coisas mais importantes não são coisas.” A frase é da sua autoria e é destacada num artigo da médica Inês Rosendo, que entregou a sua candidatura para o Prémio da Gala MGFamiliar. É, de facto, a principal mensagem que quer deixar a quem o lê?
Sim, sem dúvida. Uma coisa não é algo abstrato, mas uma entidade que, de alguma forma, quer dizer algo. Isso significa que se não tivermos bem atenção àquilo com que estamos a lidar, poderemos ter a pouca sorte de não atingir o resultado que achávamos, a priori. As coisas não são inertes e têm que ser muito bem pensadas. E são sempre um desafio.
Maria João Garcia
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