Carreira, vida e o dilema silencioso dos novos especialistas
Membro da Direção da APMGF

Carreira, vida e o dilema silencioso dos novos especialistas

Terminar o internato e tornar-se especialista em Medicina Geral e Familiar deveria ser um momento de escolha. Para muitos médicos, é o início de um dilema difícil de ignorar: ficar no SNS ou conseguir preservar uma vida fora dele. Durante anos repetiu-se que o problema não é apenas o salário – e é verdade. Mas também não é só organização, ou burocracia, ou pressão assistencial. É o conjunto. É o peso acumulado de um modelo que exige muito, todos os dias, e que raramente devolve na mesma medida.

Nem todos trabalham em USF modelo B. Muitos médicos estão em UCSP, com remunerações mais baixas e contextos mais exigentes. E mesmo no modelo B – o cenário mais favorável – o rendimento nem sempre acompanha aquilo que o trabalho realmente implica: responsabilidade clínica constante, decisões complexas, múltiplas funções e um custo de vida que não pára de subir. A progressão ao longo da carreira também não ajuda. Mais anos, mais experiência, mais responsabilidade – e, muitas vezes, pouco muda na prática. Quando o esforço cresce mais do que o retorno, o equilíbrio começa a falhar.

Também importa falar das 40 horas. Porque, na prática, raramente são apenas 40 horas. São agendas cheias, decisões clínicas em sequência, interrupções constantes e trabalho que se prolonga para além do horário – seja em tarefas administrativas, seja na preocupação que fica. Não é uma exceção. É o dia a dia de muitos médicos.

A isto soma-se um erro estrutural difícil de ignorar: os médicos não escolhem verdadeiramente onde vão trabalhar – escolhem vagas. Só depois percebem a equipa, o ambiente, o nível de exigência. E, quando não resulta, o sistema não se adapta – o médico é que tem de lidar com isso.

O setor privado não resolve este problema. Para quem valoriza a essência da Medicina Geral e Familiar, não é uma alternativa equivalente. Muitos médicos ficam no SNS por convicção. Porque acreditam no serviço público, porque se ligam aos doentes, porque sentem que fazem falta. Mas essa escolha tem um custo. E, cada vez mais, esse custo é pessoal.

No modelo B, o médico de família já não é apenas clínico. É gestor, analista, planeador, responsável por indicadores, por resultados e por organização. Muitas vezes, tudo ao mesmo tempo – e sem reconhecimento proporcional. Se queremos reter médicos, é preciso dizer isto com clareza: o SNS não está a perder profissionais por falta de vocação. Está a perdê-los porque o modelo, tal como está, é difícil de sustentar a longo prazo.

A Medicina Geral e Familiar não precisa de profissionais em permanente esforço de resistência. Precisa de condições que permitam fazer bem, com tempo, com qualidade — e sem que isso implique abdicar da vida pessoal. Porque um sistema que funciona à custa do desgaste contínuo dos seus profissionais pode aguentar durante algum tempo. Mas não aguenta para sempre.

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