28 Abr, 2026

Canábis medicinal. “O OPCM não vai desistir e vai continuar a lutar pelos doentes”

Tem havido vários avanços na área da canábis medicinal, desde 22 de abril de 2019, quando foi criado o Observatório Português de Canábis Medicinal. Carla Dias, a presidente, destaca os avanços, mas alerta que ainda há muito para fazer, nomeadamente no acesso aos tratamentos, que devem ser comparticipados.

Canábis medicinal. “O OPCM não vai desistir e vai continuar a lutar pelos doentes”

Desde que o Observatório Português de Canábis Medicinal (OPCM) foi criado em 2019, tem havido avanços na aprovação de produtos à base de canábis medicinal?

É com muita satisfação que se tem assistido a avanços, já que em 2019 não tínhamos nenhuma preparação ou substância aprovada pelo Infarmed. Atualmente, são 15.

 

Relativamente aos profissionais de saúde, estão mais sensibilizados para a importância destas terapêuticas?

Temos recebido muitas solicitações de doentes e são unânimes que é cada vez mais fácil ter acesso a um profissional de saúde, não se verificando a resistência que existia anteriormente para se prescrever canábis medicinal.  Mas ainda há falta de formação para conseguirem dar o melhor acompanhamento aos doentes, porque é uma terapêutica nova. De qualquer forma, tem havido uma grande evolução e muitas pessoas são aconselhadas pelo seu médico a pedirem ajuda ao OPCM para saberem quais os especialistas em canábis medicinal.  Não existe, de facto, tanto preconceito em relação a este tratamento.

“Repare-se que a canábis medicinal não é para todos, apenas é opção em segunda ou terceira linha. Por isso, deve ser comparticipada. As pessoas necessitam da canábis medicinal para ter qualidade de vida”

Falta, contudo, a formação…

Exatamente. É preciso estar atualizado, porque há vários estudos e ensaios clínicos noutros países e os profissionais de saúde necessitam de saber como podem ajudar os doentes. Anualmente, o OPCM organiza uma conferência para que os profissionais de saúde se possam atualizar.

 

Ainda é preciso dar passos mais concretos para que todos possam ter um acesso equitativo à canábis medicinal, independentemente da região?

Sim, ainda é preciso. Mas há outros desafios, nomeadamente os que dizem respeito aos pedidos das empresas e ao tipo de preparações e substâncias que são submetidas. As vias de administração poderão ser, eventualmente mais diversificadas. Atualmente, temos terapêutica vaporizada e sublingual, mas poderão vir a existir outras opções.

Um outro ponto a não esquecer é o preço e a falta de comparticipação por parte do Estado. Já falámos com o Infarmed, enviámos um parecer dos médicos do conselho científico do OPCM, para fundamentar as mais-valias do tratamento…Repare-se que a canábis medicinal não é para todos, apenas é opção em segunda ou terceira linha. Por isso, deve ser comparticipada. As pessoas necessitam da canábis medicinal para ter qualidade de vida, mas, atualmente, têm de pagar e os preços são elevados. Isto não faz qualquer sentido. Há quem deixe de fazer tratamento, porque não consegue suportar o custo elevado dos medicamentos.

“No mundo ideal, nos próximos tempos deveríamos ter mais vias de administração, mais patologias abrangidas e a comparticipação do tratamento”

E relativamente às indicações terapêuticas, deverá ser aumentada a lista de patologias, tendo em conta a evidência científica mais recente?

A lei já surgiu há muitos anos. Estamos em 2026 e a promessa do Infarmed seria efetivamente que a lista de indicações fosse atualizada mediante evidência científica, mas isso nunca aconteceu. Há 4 anos enviámos ao Infarmed um parecer científico sobre os benefícios da canábis medicinal no autismo, por exemplo. Não foi aceite. Na ansiedade também existem benefícios… Mas não basta acrescentar mais patologias à lista atual. É preciso também fazer uma revisão das atuais indicações.

 

O que é que podemos esperar nos próximos tempos nesta área da canábis medicinal?

Esperemos que se consiga garantir o acesso, a formulações com diferentes vias de administração, diferentes concentrações e formulações. Há cada vez mais empresas nesta área e, apesar de muitas estarem licenciadas, são poucas as que estão efetivamente a trabalhar no fabrico e na produção até se chegar ao medicamento na farmácia. O Observatório trabalha avidamente com muitas empresas em Portugal, sobretudo com as que têm formulações no mercado. No mundo ideal, nos próximos tempos deveríamos ter mais vias de administração, mais patologias abrangidas e a comparticipação do tratamento. O OPCM não vai desistir e vai continuar a lutar pela saúde e bem-estar dos doentes. O mesmo deveria ser feito pelo Ministério da Saúde e por todas as entidades que estão ligadas à saúde.

Maria João Garcia

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