Riscos psicossociais e o seu impacto na saúde das pessoas – desafios para os Enfermeiros do Trabalho
Enfermeiro do Trabalho; Coordenador na Pós-Graduação de Enfermagem do Trabalho da CESPU

Riscos psicossociais e o seu impacto na saúde das pessoas – desafios para os Enfermeiros do Trabalho

A crise invisível que cresce dentro das organizações

Há crises que se veem e crises que se sentem. As primeiras ocupam manchetes, geram debates políticos. As segundas, silenciosas, infiltram-se no quotidiano, corroem a saúde, desgastam relações e minam a produtividade, sem que quase ninguém lhes dê nome. Os riscos psicossociais pertencem a esta segunda categorias.

Apesar dos avanços legislativos e maior sensibilização, a realidade permanece preocupante. Os trabalhadores continuam a relatar níveis elevados de stress, exaustão emocional e falta de apoio organizacional. E no meio deste cenário, existe um grupo profissional cuja intervenção é essencial, mas ainda subvalorizada: os Enfermeiros do Trabalho.

A área de exercício profissional dos Enfermeiros do Trabalho é dirigida à gestão da saúde e segurança do trabalhador na sua relação com o ambiente de trabalho. Focaliza -se no bem-estar, na promoção, proteção, vigilância e recuperação da saúde, bem como na prevenção de riscos profissionais, de acidentes, doenças profissionais e doenças relacionadas e/ou agravadas pelo trabalho, em parceria com os trabalhadores, com o propósito de promover ambientes de trabalho saudáveis e seguros tendo em conta as características individuais, do posto de trabalho e do ambiente socio laboral (OE,2018).

Segundos dados oficiais (DGS e OE) existem cerca de 2250 Enfermeiros do Trabalho, mas perante os dados da população trabalhadora deviam existir cerca de 3250. Os Enfermeiros do Trabalho têm o conhecimento, a proximidade e a sensibilidade para liderar esta mudança pois a dignidade no trabalho também começa pala saúde mental. Os riscos psicossociais são, no fundo, um espelho da forma como tratamos as pessoas no trabalho. E a saúde ocupacional tem a responsabilidade também ética de colocar este tema no centro da agenda.

A OIT estima que mais de 300 milhões de pessoas sofrem de stress laboral significativo. A EU-OSHA afirma que o stress é o segundo problema de saúde mais reportado pelos trabalhadores europeus. E há ainda o fenómeno do presenteísmo – trabalhadores que continuam a trabalhar apesar com algum condicionalismo, com impacto direto na produtividade e na qualidade do trabalho.

Os Enfermeiros do Trabalho conhecem os trabalhadores, acompanham-nos ao longo do tempo, observam sinais subtis, compreendem o contexto organizacional e têm competências clinicas relacionais e éticas que os tornam essenciais na prevenção dos fatores de risco psicossociais. No entanto continuam frequentemente confinados a tarefas burocráticas, administrativas ou meramente formais. É um desperdício de talento, de conhecimento e de impacto potencial. A sua formação atual passa por Pós-Graduação de Enfermagem do Trabalho (30 ECTS) em instituições de ensino superior e em breve como Mestrado / Especialidade de Enfermagem do Trabalho.

Assim estão disponíveis para atuar em seis domínios: Identificação precoce de sofrimento emocional; colaborar na avaliação de fatores de riscos psicossociais; promoção de saúde mental no trabalho; apoio individual e encaminhamento; participação em politicas organizacionais e trabalho em equipa multidisciplinar.

A crise silenciosa está aí. Os sinais são claros. Os custos são elevados. As consequências são reais. Assim temos de assumir um novo paradigma, o da salutogénese, uma mudança cultural e os Enfermeiros do Trabalho têm de ter voz, pois eles veem o que muitos ignoram, eles podem transformar os ambientes de trabalho mais saudáveis, seguros e produtivos e organizações mais prosperas e sustentáveis com trabalhadores felizes, também no local de trabalho.

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