Mais de 1.100 médicos optaram por não tirar especialidade nos últimos três anos
Carlos Cortes destacou que os novos médicos têm hoje uma abordagem diferente face às gerações anteriores, com maior mobilidade e liberdade para escolher o seu percurso profissional, incluindo a possibilidade de emigrar ou trabalhar fora do modelo tradicional.

Mais de 1.100 jovens médicos optaram por não ingressar na formação especializada nos últimos três anos, um fenómeno que está a gerar preocupação junto da Ordem dos Médicos (OM), que pretende apresentar propostas concretas ao Governo para travar esta tendência. Em declarações à agência Lusa, o bastonário da OM, Carlos Cortes, alertou que, de ano para ano, continuam a ficar vagas por preencher, sublinhando a necessidade de integrar mais especialistas no Serviço Nacional de Saúde (SNS) com vínculos estáveis.
Dados da ordem indicam que 407 médicos recusaram iniciar a especialidade em 2023, número que desceu para 307 em 2024, mas voltou a subir para 469 em 2025, totalizando 1.183 profissionais neste período.
Um inquérito divulgado em março pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) revela que dois em cada três médicos que tomaram essa decisão no último ano não conseguiram colocação na especialidade pretendida. A impossibilidade de ficar na unidade de saúde desejada foi também um fator relevante, enquanto razões económicas tiveram menor peso.
Perante este cenário, a OM criou em 2025 um grupo de trabalho para analisar as causas do problema e acordou com a ACSS a realização de um estudo mais aprofundado. O objetivo passa por apresentar ao Ministério da Saúde um conjunto de soluções que ajudem a inverter a situação.
Carlos Cortes destacou que os novos médicos têm hoje uma abordagem diferente face às gerações anteriores, com maior mobilidade e liberdade para escolher o seu percurso profissional, incluindo a possibilidade de emigrar ou trabalhar fora do modelo tradicional. O responsável sublinhou ainda que muitos dos motivos que levam à recusa de vagas na especialidade são semelhantes aos que afastam os médicos do SNS. “As pessoas não sentem essa atração e consideram que, em determinados serviços, não terão condições adequadas para a sua formação e para o exercício da atividade”, referiu.
O inquérito da ACSS, aplicado a 507 médicos e com 254 respostas, indica que mais de 80% dos inquiridos pretende repetir a Prova Nacional de Acesso para melhorar a classificação e tentar obter vaga na especialidade desejada, adiando assim o início da formação. Segundo a ACSS, a decisão de adiar a especialização está sobretudo ligada a limitações estruturais no acesso, e não a uma desvalorização da formação. O estudo alerta ainda que estas interrupções podem comprometer a renovação geracional da classe médica e agravar desigualdades na distribuição de especialistas, com impacto direto na resposta assistencial aos utentes.
SO/LUSA
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