De origem familiar, a Mundipharma surgiu nos EUA em 1952, estando hoje presente em todos os continentes, em mais de 120 países. Em Portugal é reconhecida pelo quarto ano consecutivo com o certificado Best Workplaces TM. Com o lema “To move medicine forward”, a farmacêutica transformou-se e diversificou a sua atuação. A Dr.ª Sofia Ferreira, diretora-geral da filial portuguesa, partilha como tem sido a experiência.

A Mundipharma é constituída por uma rede global de empresas, que procuram adaptar-se às necessidades locais. Quais considera serem as mais relevantes no panorama português, a curto-médio prazo?

Apesar de sermos uma empresa multinacional, o nosso portefólio é muito diferenciado de região para região dada a capacidade de nos adaptarmos às necessidades locais. As áreas que consideramos mais importantes são aquelas em que atuamos, diabetes, que é uma pandemia a nível mundial, doenças respiratórias e dor.

Enquanto grupo farmacêutico, a Mundipharma procura, hoje em dia mais do que nunca, ir ao encontro das necessidades dos nossos parceiros. Estes parceiros são os doentes, a quem queremos fornecer os melhores tratamentos nos nossos campos de atuação, e todos os outros intervenientes no ecossistema do sistema de saúde atual – profissionais de saúde, cuidadores e autoridades.

A empresa está também a levar a cabo desenvolvimentos para entrar em novas áreas, sendo elas Oncologia, com foco na dor oncológica, Infeciologia e também consumer health. Outra aposta, iniciada no ano passado com um lançamento, são os biossimilares, surgindo da necessidade de promover a sustentabilidade do sistema de saúde no sentido de se proporcionar a toda a população o acesso a medicamentos a um melhor custo-efetividade.

No respeitante à área da diabetes, no fim do mês de junho, a Comissão Europeia aprovou o alargamento de uma terapêutica antidiabética para os doentes que, tendo diabetes tipo 2, estão em risco de desenvolver falência renal, cuja distribuição é feita pela Mundipharma. O que significa esta decisão para os doentes e para a empresa?

Esta capacidade de proporcionar tratamentos inovadores que marcam pela diferença é um privilégio. Com a decisão, este medicamento vai permitir que doentes que vivem com diabetes tipo 2 e têm doença renal diabética, que na Europa são mais de 2,3 milhões, melhorem substancialmente a sua qualidade de vida. E são doentes que não viam avanços terapêuticos há mais de 20 anos. Esta indicação é um marco histórico no tratamento deste tipo de doentes. Não só surge depois de um longo período de ausência de inovação como vem revolucionar o tratamento ao regredir pela primeira vez a progressão da doença. Os dados dos estudos desenvolvidos indicam que o medicamento permite atrasar a progressão da doença em mais de 60%, face ao tratamento atual.

Se pensarmos no facto de as consequências da evolução da doença renal diabética serem devastadoras e dispendiosas, com este tipo de doentes a evoluir por norma para hemodiálise e insuficiência renal, percebemos que esta aprovação tem um impacto positivo na qualidade de vida dos doentes e em termos de custos para o próprio sistema nacional de saúde, principalmente se atentarmos que a esperança média de vida das pessoas tem vindo a aumentar, acarretando a possibilidade de virmos a ter cada vez mais doentes a atingir estes estádios mais severos da doença.

A diabetes é muito mais do que uma doença associada ao descontrolo da glicémia, já que a maioria dos doentes portadores de diabetes tipo 2 tem uma série de outras patologias associadas, como obesidade, doenças cardiovasculares e renais. Afeta mais de 425 milhões de pessoas em todo o mundo e estima-se que o número duplique nos próximos 20 anos.

Neste contexto, onde a cada dez segundos uma pessoa morre devido a uma complicação da diabetes, urge lançar soluções inovadoras que permitam tratar a doença no seu todo. O futuro passará não só por desenvolver terapêuticas que permitam este tratamento holístico, mas por identificar precocemente fatores de risco para um diagnóstico correto e atempado.

Em relação à pandemia de COVID-19, como analisa a resposta da indústria farmacêutica?

Neste contexto de pandemia, a indústria farmacêutica está a assumir um papel preponderante a nível mundial, quer na produção de tratamentos existentes, quer no desenvolvimento de uma vacina, observando-se, pela primeira vez, alianças e consórcios entre empresas para um bem comum.

Em Portugal, a indústria tem sido exemplar. Desde o início, assumiu uma grande responsabilidade de enfrentar esta situação, através de apoios ao combate à própria pandemia, como tem sido feito internacionalmente, e assegurando que os doentes continuavam a receber os medicamentos.

O setor de atividade nunca parou, pelo contrário, muitas companhias produtoras de medicamentos em Portugal reforçaram as suas horas de trabalho. Para além de produzir os medicamentos, para garantir efetivamente o acesso, a indústria desenvolveu algumas iniciativas.

A APIFARMA – Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica criou um programa que, através de uma parceria entre as farmácias de rua e os hospitais, assegurou a disponibilização de medicamentos – na farmácia de rua ou em casa – para os doentes que inicialmente precisavam de se deslocar ao hospital para os obterem. Nem sempre nos apercebemos do impacto disto, mas com o acesso às unidades de saúde limitado durante este período é importante assegurar o fornecimento de medicamentos a estes doentes.

Para além desse programa, a Associação Dignitude, em conjunto com a APIFARMA, criou o “Fundo de Emergência Abem COVID-19” para permitir o acesso a medicações aos doentes mais carenciados. Tem recebido muitos donativos da indústria e da população em geral e, embora qualquer pessoa possa ajudar, a envolvência da indústria nestas atividades é imprescindível.

A Mundipharma sentiu dificuldades acrescidas devido à COVID-19? Como se adaptou?

A nível internacional, houve uma congregação de todas as filiais e de todas as fábricas que temos pelo mundo inteiro. Em Portugal, como somos uma companhia relativamente pequena, tivemos uma vantagem; conseguimos adaptarmo-nos muito facilmente para assegurar que não havia rotura de medicamentos.

Aumentámos a produção dos nossos medicamentos, alguns imprescindíveis para o tratamento dos doentes em estádios mais graves, que foram necessários de um momento para o outro. E, ao mesmo tempo, conseguimos transformar-nos na forma de comunicação com os nossos parceiros, que era tipicamente presencial, aprendendo com certos erros cometidos nalguns países onde a pandemia chegou mais cedo. Tentámos não sobrecarregar os profissionais de saúde, procurando ir ao encontro das necessidades perguntando apenas por aquilo de que necessitavam. Fizemos doações de material necessário a instituições, participámos em projetos de apoio à população em geral, como o “Camião da Esperança”, e, não menos importante, mostrámos sempre disponibilidade total.

No geral, optámos por manter uma imagem muito mais institucional, com programas de apoio, muito mais do que promover os nossos produtos. Temos tentado desempenhar um papel não apenas de dadores ou fornecedores de medicamentos, mas de parceiros.

Qual é a visão da empresa numa perspetiva de longo prazo?

Para além do alargamento das nossas áreas de atuação, já referido, a Mundipharma pretende dar continuidade ao seu propósito – “To move medicine forward”. E estimular o avanço da medicina implica um mindset de, mais do que vender, saber o porquê de se vender. Para isso, é essencial uma visão integrada do ecossistema da saúde, que permita criar serviços e soluções que beneficiem os sistemas nacionais de saúde e, sobretudo, proporcionem melhor qualidade de vida a todos os doentes pelo mundo inteiro. A Mundipharma irá manter uma filosofia cada vez mais global – porque assim é necessário –, para conhecer necessidades transversais e possuir ferramentas standardizadas, conservando a agilidade local.

Acima de tudo, não descuidando a investigação, a nossa visão é marcar pela diferença apostando em serviços diferenciadores e privilegiando os profissionais que constituem a Mundipharma. Sem os colaboradores – o nosso maior bem – que produzam os produtos e os comuniquem, nada era possível. Relativamente a este aspeto, gostaria de referir que as pessoas que trabalham na Mundipharma funcionam quase como uma família e são a nossa preocupação constante, principalmente neste período de pandemia. Enquanto líder da companhia, o grande desafio foi manter este espírito de família e garantir que os colaboradores sentiam que continuavam a ser cuidados e a ter suporte emocional.

Em teletrabalho, fizemos teleconferências e atividades que extrapolavam o nosso trabalho – como aulas de exercício físico dadas pelos colaboradores – para envolver todas as pessoas e fazê-las sentirem-se úteis. Já fazíamos este tipo de ações presencialmente, mas neste momento em especial, mesmo com todas as contingências e dificuldades, é muito importante não descurarmos que trabalhamos com seres humanos. A vida vai mudar para todos nós e para ultrapassarmos esta pandemia – como vamos fazer – cabe-nos a todos dar o nosso contributo e incentivar os outros a fazer o mesmo.

SS/SO

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