12 Abr, 2017

Isabel Saraiva >> “Respirar é um ato de tal maneira banal que é muito pouco valorizado pelas pessoas”

Em entrevista ao SaúdeOnline, Isabel Saraiva, vice-presidente da RESPIRA, aborda os desafios que os doentes com DPOC enfrentam no seu dia-a-dia e o papel da Associação na divulgação e prevenção da doença, que, de acordo com os dados mais recentes, afeta cerca de 14% da população portuguesa

SaúdeOnline: É reconhecido que a DPOC é uma doença que em Portugal é muito subdiagnosticada. Como se explica a lacuna?

Isabel Saraiva: As doenças respiratórias são muitas vezes subvalorizadas, desde logo, porque respirar é um ato tão natural que as pessoas não lhe atribuem a devida importância. A tosse, a falta de ar, o cansaço matinal são sintomas que deveriam ser explorados, quer pelas pessoas que os sentem quer pelos médicos que as acompanham. Mas a verdade é que são os doentes os primeiros a desvalorizar estes sintomas. Normalmente… Fumadores. De facto, os doentes com DPOC são, esmagadoramente, ex-fumadores ou mesmo fumadores ativos que têm tendência para desvalorizar estes sintomas e o mal-estar que se lhes associa. Outra das razões que explicam a desvalorização a que é votada a doença reside no facto de que só há relativamente pouco tempo se ter iniciado, em Portugal, o programa de espirometrias, a técnica mais rápida e eficaz para despistar a DPOC. Por outro lado, trata-se de uma doença que só muito recentemente começou a ser abordada de forma sistemática. No passado falava-se de bronquites. Ora, a DPOC é muito mais do que isso. Tudo somado – sobretudo a pouca importância atribuída ao ar e ao ato de respirar – resultaram no subdiagnóstico da doença que hoje se verifica entre nós.

SO: A maioria dos doentes são fumadores ou ex-fumadores. Existem mais grupos de risco?

IS: Os fumadores representam cerca de 80% dos casos. Seguem-se todas as pessoas que, de alguma forma, contactam com substâncias tóxicas que podem irritar as vias respiratórias, como os mineiros, pessoas que trabalham com substâncias químicas e os bombeiros, muito expostos ao fumo. São, sobretudo, pessoas que estão frequentemente muito expostas a substâncias irritantes e inflamatórias para as vias respiratórias.

SO: Quais são os maiores desafios no dia-a-dia de um doente com DPOC?

IS: A doença pulmonar obstrutiva crónica tem quatro graus. O primeiro é a DPOC relativamente ligeira que vai crescendo em termos de intensidade até ao nível quatro, sendo que nesse último grau as pessoas, muitas vezes, já têm de utilizar oxigénio de uma forma mais ou menos permanente para poderem fazer o seu dia-a-dia. Depois existem vários aspetos como o cansaço que o doente respiratório sente. Cansaço que se reflete na dificuldade em realizar tarefas simples como a sua higiene pessoal, pequenos movimentos com alguns pesos, tarefas domésticas e até pentear-se. Gestos banais. Por exemplo, quando acabam de tomar banho, muitos doentes sentem-se de tal forma cansados que têm de se sentar. Estes são alguns dos desafios. Outro sintoma frequentemente associado é a depressão. O doente com DPOC pode ser um doente deprimido e triste… Com uma propensão para ficar todo o dia em casa, sentado no sofá… Nestes indivíduos, todas as desculpas são boas para evitar esforços que causem sintomatologia.

SO: E como se combate essa situação?

IS: Combate-se com exercício físico, apoio de familiares e de profissionais de saúde. E também com alguma força de vontade, naturalmente. A auto-disciplina também ajuda muito no bem-estar dos doentes com DPOC.

SO: Mas o exercício físico também constitui um desafio para estes doentes…

IS: Os doentes respiratórios, no geral, e os com DPOC, em particular, devem praticar exercício físico ajustado às suas capacidades. O exercício físico é muitíssimo importante para as pessoas com doenças respiratórias e dentro destas, com DPOC.

SO: Que medidas de controlo podem ser tomadas?

IS: Deixar de fumar é a condição mais importante de todas. Depois, evitar ambientes poluídos com fumos de tabaco, fumos tóxicos ou com má qualidade de ar. Fazer uma alimentação equilibrada, praticar exercício físico permanentemente, cumprir os tratamentos e exames regulares prescritos pelos médicos e também, insisto, com muita auto-disciplina. É que a DPOC é para toda a vida…

SO: A RESPIRA é uma associação dirigida essencialmente para os doentes? Ou também para os profissionais de saúde?

IS: É uma associação dirigida essencialmente para doentes e cuidadores de doentes, embora também tenhamos relações estreitas com profissionais de saúde, como médicos, fisioterapeutas, enfermeiros e farmacêuticos. Mas, a associação em si é uma associação de pessoas com DPOC e outras doenças respiratórias e também de familiares e amigos destes doentes.

SO: Quais são os principais objetivos da RESPIRA?

IS: O primeiro é promover o conhecimento da doença porque, como referi atrás, não é uma doença muito conhecida. E esse conhecimento consegue-se através de campanhas de esclarecimento junto de profissionais de saúde e da população. Depois é também um objetivo desenvolver iniciativas do lado da prevenção, isto é, da cessação tabágica. Desenvolvemos muitas ações em escolas, onde vamos falar com adolescentes, explicando as consequências, por exemplo, do consumo de tabaco. É muito interessante constatar que os miúdos recebem bem este tipo de informação; que fazem perguntas e participam. Além de que ajudamos os nossos sócios sempre que possível, em questões que digam respeito à sua saúde respiratória, os associados têm benefícios em farmácias, em termas… Estamos permanentemente a organizar iniciativas destinadas a melhorar a saúde respiratória.

SO: E que iniciativas são essas?

IS: Comemoramos os dias mundiais relacionados com a nossa área: da DPOC, do não fumador, da cessação tabágica… Aproveitamos esses dias para despertar a atenção para as causas. São iniciativas que incidem muito na prevenção e na cessação tabágica, no acesso aos tratamentos e também na reabilitação respiratória.

SO: No que consiste a reabilitação respiratória?

IS: A reabilitação respiratória é uma intervenção terapêutica composta por um conjunto de atividades como o exercício físico, a nutrição e o acompanhamento médico e que tem evidência de ser uma das terapêuticas não farmacológicas mais importantes para um doente com DPOC. Infelizmente, em Portugal, apenas cerca de 1% dos doentes têm acesso a programas de reabilitação respiratória, o que nos preocupa muito. E essa também é uma das nossas áreas de intervenção. Abril é o mês do pulmão, com semanas dedicadas a alguns temas relevantes. Na RESPIRA temos programadas algumas iniciativas.

SO: Uma nota final sobre o panorama das doenças respiratórias crónicas em Portugal…

IS: Vou acabar como comecei. Respirar é um ato de tal maneira banal que é muito pouco valorizado pelas pessoas. Os próprios doentes deveriam ter mais cuidado e prestar mais atenção aos avisos que os seus pulmões lhes dão e compreender que necessitam de viver num ambiente em que a qualidade do ar é boa. Precisamos de ter ambientes livres de fumo, consultas de cessação tabágica acessíveis com equipas multidisciplinares e reabilitação respiratória para mais doentes. Era muito importante que toda a comunidade de doentes e profissionais de saúde trabalhasse em conjunto para melhorar a qualidade de vida e promover a qualidade da saúde respiratória. Esta junção de esforços dos profissionais, dos doentes, das autoridades públicas, das sociedades científicas e do público em geral, despertos para estas questões, contribuiria, certamente, para uma melhor saúde respiratória da sociedade portuguesa.

 

SO/SF

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