Qual a incidência dos distúrbios da tiroide em grávidas?  

As doenças da tiróide são relativamente frequentes na população em geral e, em particular, no sexo feminino e também nas mulheres em idade fértil.

A gravidez pode alterar a evolução natural das doenças da tiroide e as doenças da tiroide (e o seu tratamento não conveniente) podem afetar a evolução normal da gravidez, a mulher grávida e o seu feto.

O diagnóstico é geralmente feito da mesma forma que é feito fora da gravidez. O doseamento das hormonas tiroideias no sangue deve ser feito em todas as grávidas. No entanto, é importante saber que, na gravidez, os resultados das análises poderão ter uma interpretação diferente, porque os valores de referência habituais apresentados pelo laboratório podem não ser adequados para a gravidez. Como tal, estes resultados necessitam ser interpretados por um médico especialista.

Qual é a disfunção da tiroide mais frequente durante a gravidez?

É o hipotiroidismo, na população em geral e também na gravidez. A carência materna de hormonas tiroideias (hipotiroidismo) pode atingir mais de 3% das gestações. Em alguns casos, esta situação já era conhecida pela mulher antes de engravidar.

A causa mais frequente de hipotiroidismo nesta idade é uma inflamação crónica da tiróide, de natureza autoimune: a tiroidite crónica autoimune (ou linfocítica ou de Hashimoto). Contudo, no início da gravidez se a mulher não estiver suplementada com Iodo pode surgir uma forma ligeira de hipotiroidismo – Hipotiroidismo sub-clínico – por falta de Iodo suficiente para a síntese das hormonas da tiroide, que é superior ao habitual durante a gestação.

O hipertiroidismo, excesso de síntese de hormonas da tiroide, é bastante menos frequente que o hipotiroidismo (<1% das gravidezes) pois se pré-existente e severo conduz a um aborto precoce.

Que riscos existem para a gestação? Há perigo para o correto desenvolvimento do feto, nomeadamente a nível neurológico?

O hipotiroidismo se não estiver tratado e controlado conduz geralmente a uma infertilidade ou dificuldade em engravidar.  A Tiroidite de Hashimoto aumenta o risco de aborto do 1º trimestre. Níveis suficientes de hormonas da tiroide são essenciais para o evoluir normal da gravidez, para o desenvolvimento fetal adequado, nomeadamente a nível neurológico. Sabe-se que filhos cujas mães apresentaram hipotiroidismo não compensado durante a gravidez podem experimentar mais tarde dificuldades de aprendizagem e hipotiroidismo severo materno pode conduzir a défices cognitivos no filho. O hipotiroidismo não controlado aumenta ainda o risco de hipertensão arterial na mãe e pode conduzir a alterações no volume do líquido amniótico.

O hipertiroidismo não tratado relaciona-se com o aumento da incidência de abortamento e de parto pré-termo, baixo peso ao nascer, pré-eclampsia, insuficiência cardíaca na mãe e no feto e morte intrauterina.

 

Por exemplo, uma meta-análise publicado em agosto passado sugere um maior risco de parto prematuro em mulheres com a função tiroideia considerada anormal, nomeadamente o hipotiroidismo. Como vê esta conclusão?

Apesar do parto prematuro ser mais frequente no hipertiroidismo pode também acontecer no hipotiroidismo nomeadamente pelo aparecimento de hipertensão materna e alterações no volume do líquido amniótico.

Que distúrbios da tiroide são mais comuns no período da menopausa e qual a sua dimensão? Há dados sobre incidência no grupo de mulheres em menopausa?

Sabe-se que quando a glândula tiroideia funciona mal o funcionamento dos outros orgãos pode também não ser normal, nomeadamente o funcionamento dos ovários na mulher. A desregulação da função ovárica na mulher pode conduzir a uma menor taxa de fertilidade e a uma ausência de período menstrual (amenorreia) simulando uma menopausa precoce. Isto tanto acontece no hipotiroidismo como no hipertiroidismo porque os ovários necessitam de uma concentração certa de hormonas da tiroide no sangue (T4 e T3) para funcionarem a um ritmo normal.

A incidência do hipotiroidismo aumenta com a idade na mulher pelo que é mais frequente após a menopausa, sem que haja propriamente uma influência direta do défice de estradiol que caracteriza esta fase da vida da mulher.

O subdiagnóstico neste campo dos distúrbios da tiroide ainda é elevado? Que percentagem de casos se estima que ainda esteja por diagnosticar?

Apesar de não existirem estudos de prevalência robustos, estima-se que cerca de 5-10% da população em Portugal apresente alguma forma de doença da tiroide. Uma percentagem considerável são formas ligeiras, subclínicas, que apresentam sintomas inespecíficos que passam despercebidos, pelo que cerca de metade destes estarão por diagnosticar. Isto não significa que todos estes casos por diagnosticar exijam tratamento imediato.

TC/SO

 

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