Espera-se que a epidemia assuma maiores proporções em Portugal?

Ninguém pode responder com exatidão a essa pergunta. Nós estamos longe de ter o problema resolvido. Outros países europeus têm uma realidade epidémica muito diferente da nossa. O que é preciso é prepararmo-nos e criarmos as condições para que a resposta seja a melhor possível.

Este vírus é de facto mais perigoso do que o vírus da gripe sazonal?

São realidades não comparáveis. Nós temos a infeção provocada pelo vírus influenza, que tem várias estirpes identificadas, e para o qual existe vacina e para o qual existe tratamento. É uma realidade diferente. Estes Covid-19 é um vírus novo, que existia noutras espécies e que agora passou para o homem. Tem uma contagiosidade grande, embora não tenha, felizmente, uma mortalidade tão alarmante. A evolução é imprevisível. Não sabemos se o vírus sofrerá mutações. Ainda não é conhecida toda a sua composição.

Por exemplo, o que aconteceu há dez, quando tivemos a epidemia da gripe A foi que esse vírus se tornou sazonal e já está incluído na oferta vacional que se dá à população. É o que se espera também deste coronavírus.

Como é que a mortalidade do Covid-19 se pode comparar com o vírus da gripe?

A mortalidade não é grande: ronda os 2 a 3%. É menor do que a da crise do SARS [Síndrome Respiratória Aguda Grave] e ainda atingiu uma população limitada. Espera-se que não atinja a dimensão que a gripe sazonal normalmente tem. Mas a verdade é que é um vírus novo, que demonstra alguma agressividade em grupos de risco, nomeadamente nas pessoas mais idosas – que têm várias patologias associadas e que têm as defesas mais fragilizadas.

A infeção pelo Covid-19 é mais preocupante em asmáticos ou pessoas com outras patologias respiratórias?

Um asmático ligeiro não é um doente de risco elevado. Um asmático com doença grave ou não controlada ou com outra doença respiratória ou cardíaca grave têm um risco superior.

Acha que há um alarmismo exagerado na sociedade?

Este é um vírus novo no homem, é uma surpresa. As medidas que estão a ser tomadas não podem ser consideradas alarmistas, são medidas de prevenção. O que é preciso é combater o alarmismo e evitar a desinformação. As pessoas têm de seguir a cadeia de comando da DGS e as recomendações que são dadas, como lavar frequentemente as mãos, evitar contactos com pessoas que possam estar com problemas respiratórios.

Temos assistido a uma corridas às máscaras. É um instrumento eficaz na prevenção?

A máscara deve ser usada apenas pelos doentes ou pelos profissionais de saúde que estejam em contacto com doentes. Não  faz nenhum sentido que a população use máscara.

O Doutor Carlos Cordeiro é coordenador de um Grupo de Acompanhamento do Covid-19, que foi criado na Ordem dos Médicos do Centro. Porque sentiram necessidade de criar este grupo?

É um grupo que congrega médicos de várias especialidades, com conhecimentos específicos em epidemiologia, que têm de estar na linha da frente [no combate ao COVID-19].

Os médicos sentem necessidade de aceder a informação credível, atualizada e que possa servir de suporte a decisões. Este grupo quer ser um grupo de partilha de informação e de apoio à boa decisão. Existem recomendações da DGS, que vão sendo atualizadas mas são colocadas questões concretas, operacionais e que não estão complementadas em grandes comunicações. O interesse é haver um apoio de proximidade.

Um outro aspeto importante é disseminar material de informação, cuidados, recomendações, para que sejam o mais conhecidos possível pela população.

TC/SO

 

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