30 Jun, 2026

“Ainda é o SNS que, de uma forma geral e controlada, permite o acesso à inovação terapêutica”

Alberto Mota está há um ano à frente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia. Em entrevista, faz um balanço do mandato e avalia alguns dos principais desafios que os dermatologistas enfrentam e como a falta de flexibilização no setor público leva os especialistas a optar pelo privado.

“Ainda é o SNS que, de uma forma geral e controlada, permite o acesso à inovação terapêutica”

Porquê o tema do evento ser “Coimbra, conhecimento e renovação: a visão para o 25.º Congresso Nacional da SPDV”?

A escolha deste tema reveste-se de um profundo simbolismo, como referi na mensagem dirigida aos colegas, uma vez que Coimbra é uma cidade onde história, ciência e cultura se entrelaçam de forma singular. Mas, pretendemos ir mais além, ao sublinhar que a ciência é, simultaneamente, herança e renovação. De facto, este congresso procura refletir esse equilíbrio, por um lado, homenagear a tradição e a memória da Dermatologia portuguesa, por outro, promover a inovação científica, tecnológica e organizacional. O programa foi concebido como um espaço privilegiado de atualização e reflexão crítica, onde o rigor clínico e científico se conjuga com um forte espírito de partilha, formação e evolução contínua.

 

Qual o simbolismo de Coimbra, cidade dos estudantes?

No fundo, continuamos sempre a ser estudantes, não apenas como ideal poético refletido na conhecida canção “Amores de Estudante”, cuja composição musical foi, aliás, da autoria de um dermatologista, o Professor Aureliano da Fonseca, mas como atitude permanente perante o conhecimento e Coimbra simboliza, de forma exemplar, essa renovação contínua do saber e o compromisso com a formação das novas gerações. Mais do que transmitir conhecimento, importa questioná-lo, aprofundá-lo e transformá-lo, num espírito crítico e dinâmico que associamos, de forma quase natural, à juventude e ao ambiente universitário. Neste contexto, a apresentação, durante o congresso, das experiências vividas pelos internos bolseiros da SPDV em estágios internacionais, traduz precisamente esse incentivo a um percurso de aprendizagem constante, aberto ao mundo, essa “aldeia global” e orientado para a procura da excelência.

“Ao longo deste último ano, procurámos ouvir ativamente os sócios e dar resposta às suas preocupações, através da criação de canais formais dedicados”

O que teve por base o programa científico?

O programa científico foi concebido com base em três pilares fundamentais: a atualidade científica, a abrangência, tanto temática como da audiência-alvo e, não menos importante, a relevância prática para a atividade do dermatologista. Abrange um vasto leque de áreas, desde a psoríase até à dermatologia pediátrica, passando pelo papel crescente da genética, pelos simpósios dedicados à inovação terapêutica, pela atualização em diversas áreas, incluindo uma conferência internacional sobre formulações magistrais, tão caraterístico da arte e do saber dermatológico, finalizando com um curso pós-congresso, centrado nas infeções sexualmente transmissíveis. Inclui, ainda, sessões clínicas e comunicações científicas, a quais refletem a dinâmica investigadora, sobretudo dos serviços formativos, assumindo também um papel formativo transversal a todas as gerações de dermatologistas. Foi, igualmente, considerada a importância de temas transversais, como a literacia financeira aplicada à prática médica, reconhecendo os desafios contemporâneos da profissão. Por fim, a partilha das competências adquiridas pelos internos bolseiros em estágios internacionais constitui um contributo particularmente relevante, enriquecendo o programa com uma perspetiva global e atualizada.

 

Assumiu a presidência da SPDV há um ano. Que balanço faz?

Faço um balanço globalmente positivo, embora exigente, que atribuo, em grande medida, ao empenho dos colegas da Direção, dos restantes órgãos sociais e dos diversos grupos de trabalho da SPDV.  Ao longo deste último ano, procurámos ouvir ativamente os sócios e dar resposta às suas preocupações, através da criação de canais formais dedicados. Destaco, neste âmbito, os grupos de reflexão e análise sobre matérias profissionais e sobre os estatutos da sociedade, bem como iniciativas como a SPDV Jovem e o Gabinete de Intrusismo, entre outras.  Paralelamente, continuámos a reforçar o papel da SPDV enquanto espaço privilegiado de formação, partilha científica e defesa da qualidade da prática dermatológica.

“A Dermatologia no Serviço Nacional de Saúde (SNS) português distingue-se pela sua elevada qualidade técnica, humana, científica e formativa. Contudo, enfrenta desafios significativos. Entre os mais prementes destacam-se a necessidade de maior investimento em recursos humanos…”

O que tem sido mais desafiante?

O contexto atual é, por natureza, permanentemente desafiante. Encontrar um equilíbrio entre a resposta aos legítimos anseios dos sócios e a necessidade de assegurar uma sociedade científica robusta, coesa e sustentável constitui uma tarefa exigente, mas é um compromisso do qual não nos afastamos. Acresce a complexidade de acompanhar a rápida evolução científica, tecnológica e organizacional da Dermatologia, garantindo que a SPDV mantém a sua relevância, independência científica face a diversos poderes e tentações e a capacidade de antecipação face aos desafios emergentes. Paralelamente, importa promover uma participação ativa e inclusiva de todos os sócios, valorizando diferentes perspetivas e promovendo consensos possíveis em matérias sensíveis. Este processo exige, por isso, uma governança equilibrada, transparente, com um enfoque contínuo na verdadeira missão da SPDV, a de servir a Dermatologia portuguesa praticada pelos seus sócios, defendendo padrões elevados de qualidade científica, formativa e assistencial.

 

Que avaliação faz da Dermatologia portuguesa no Serviço Nacional de Saúde? O que pode melhorar e de que forma?

A Dermatologia no Serviço Nacional de Saúde (SNS) português distingue-se pela sua elevada qualidade técnica, humana, científica e formativa. Contudo, enfrenta desafios significativos. Entre os mais prementes destacam-se a necessidade de maior investimento em recursos humanos, a modernização tecnológica, o acesso a terapêuticas inovadoras, a garantia de equidade no acesso aos cuidados dermatológicos pela população e a crescente sobrecarga clínica e administrativa dos dermatologistas do setor público. É motivo de preocupação verificar que muitos dermatologistas encontram no setor privado uma alternativa mais favorável para conciliar a vida profissional com a pessoal. Quando, em algumas instituições públicas, a principal preocupação parece centrar-se no controlo rigoroso da assiduidade ao minuto, torna-se compreensível o desejo destes profissionais em assumirem maior autonomia sobre o seu percurso. Por outro lado, importa reconhecer também os constrangimentos enfrentados pelo financiador público. Entre estes incluem-se as limitações inerentes às grelhas salariais da função pública, muitas vezes uniformes e pouco flexíveis, o aumento contínuo dos custos associados à inovação terapêutica e tecnológica, e a pressão acrescida decorrente das reivindicações salariais de outras profissões da área da saúde, que tendem a acompanhar quase de forma automática, eventuais valorizações atribuídas aos médicos.

 

Esses problemas estão a ter impacto na formação dos internos?

A elevada pressão assistencial e a insuficiente renovação tecnológica podem, respetivamente, comprometer o tempo disponível para a formação e a sua qualidade, caso estas dimensões não sejam devidamente salvaguardadas pelas instituições. Acresce a crescente pressão, frequentemente refletida de forma indireta nos meios de comunicação social, para o aumento do número de dermatologistas em formação, nem sempre acompanhada por uma expansão proporcional das condições formativas. Ainda assim, o SNS continua a evidenciar um compromisso sólido com a diferenciação e a qualidade, nomeadamente através da manutenção do internato médico. Tal compromisso é visível na participação ativa dos internos em atividades de investigação, congressos científicos e estágios nacionais e internacionais, muitos dos quais apoiados por bolsas da SPDV.

“Simultaneamente, o financiador público impõe restrições à prescrição de determinadas terapêuticas inovadoras no setor privado, o que contribui para a limitação da prática clínica”

O setor privado também enfrenta desafios? Quais?

Infelizmente, de forma afirmativa e crescente, podendo denominar alguns de ameaças. Mantêm-se as exigências em matéria de inovação tecnológica e diferenciação clínica, às quais se soma a ausência de um sistema de certificação profissional equiparável ao que existe no setor público, nomeadamente através dos concursos de progressão. Por outro lado, o regulador, por via legislativa, tem vindo a impor um conjunto de exigências logísticas e estruturais que impactam, particularmente, a cirurgia dermatológica. O cumprimento destas exigências poderá implicar investimentos adicionais significativos ou, em alguns casos, revelar-se tecnicamente inviável em determinados consultórios e clínicas privadas. Tal realidade pode conduzir a situações de desigualdade face a outros profissionais médicos, que não estão sujeitos a requisitos equivalentes para a realização de procedimentos similares.

Acresce, ainda, a desadequação das tabelas de honorários à crescente complexidade dos atos dermatológicos, frequentemente considerados, de forma redutora e por vezes desinformada, como superficiais ou meramente estéticos.  Esta perceção condiciona a valorização adequada destes atos e limita a sua proposta, sobretudo por parte de entidades intermediárias, como as seguradoras, que, adicionalmente, introduzem uma carga administrativa excessiva e muitas vezes injustificada para os dermatologistas. Simultaneamente, o financiador público impõe restrições à prescrição de determinadas terapêuticas inovadoras no setor privado, o que contribui para a limitação da prática clínica. No seu conjunto, estes fatores comprometem a autonomia médica e podem colocar em causa a sustentabilidade da atividade dermatológica no setor privado. Torna-se, por isso, fundamental promover um diálogo construtivo e colaborativo com as entidades financiadoras, tanto públicas como privadas, no sentido de assegurar condições que preservem a acessibilidade aos cuidados dermatológicos, bem como elevados padrões de qualidade assistencial e de segurança para os doentes.

 

De que forma o desenvolvimento tecnológico e a IA têm afetado a Dermatologia?

O impacto é deveras significativo, mesmo revolucionário, tanto no diagnóstico como na terapêutica. Aliás, a Dermatologia é uma especialidade singular, que alia a tradição secular da observação do doente, com a inovação tecnológica e científica. Precisamente, o programa deste congresso reflete essa realidade. Contudo, a inovação suporta e melhora a decisão clínica, mas não a substitui na dimensão humana.

“A IA não se limitará a apoiar a decisão clínica, vai ter, também, um impacto decisivo no desenvolvimento de novas e mais eficazes terapêuticas”

Esta inovação está a pôr em causa, de alguma forma, o acesso a tratamentos inovadores por parte dos doentes com menos capacidade económica e que não podem recorrer ao privado?

Poderá existir esse risco para algumas abordagens terapêuticas, se o sistema público não souber adaptar-se. Contudo, ainda é o SNS que, de uma forma geral e controlada, permite o acesso à inovação terapêutica, independentemente da condição socioeconómica do doente.

 

No futuro, o que podemos esperar da Dermatologia?

Malgrado as ameaças, os desafios devem ser encarados como oportunidades de evolução. O futuro será inevitavelmente marcado por uma medicina cada vez mais personalizada, em particular através da integração da genómica e do uso crescente da inteligência artificial. A IA não se limitará a apoiar a decisão clínica, vai ter, também, um impacto decisivo no desenvolvimento de novas e mais eficazes terapêuticas, bem como no aprofundamento do conhecimento da etiopatogenia das doenças, ao permitir a análise de grandes volumes de dados. Contudo, enganam-se aqueles que acreditam que esta transformação relegará para segundo plano a dimensão humanista da medicina. Pelo contrário, essa dimensão permanece como a essência e a razão de ser da prática médica.

 

Maria João Garcia

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