“A Bolsa Cabral Ascensão tem um impacto que, muitas vezes, só se torna visível anos depois”
A realização de estágios em centros de referência internacionais é uma das mais-valias da Bolsa Cabral Ascensão, segundo António Fernandes Massa, vogal da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia. O dermatologista apela aos colegas que se candidatem.

As Bolsas da SPDV têm sido um instrumento importante no apoio ao desenvolvimento científico e formativo. Na sua perspetiva, que impacto têm tido na afirmação da Dermatologia portuguesa e que tipo de projetos gostaria de ver apoiados no futuro?
As Bolsas da SPDV têm um impacto que, muitas vezes, só se torna plenamente visível anos depois — porque aquilo que financiam não é apenas um estágio ou a presença num congresso, mas a formação de uma geração de dermatologistas com horizontes mais amplos.
No plano formativo, permitiram a muitos colegas realizar estágios em centros de referência internacionais, contactar com técnicas e abordagens que de outro modo demorariam anos a chegar à prática nacional, e trazer esse conhecimento de volta para os seus serviços. Falo com alguma propriedade, pois uma parte relevante do que hoje considero estruturante na minha forma de exercer Dermatologia resulta precisamente desse tipo de experiências formativas fora de portas. A frequência de congressos e eventos científicos, por sua vez, cumpre um papel que vai além da atualização: cria redes, abre colaborações e coloca os dermatologistas portugueses em diálogo direto com os seus pares europeus e mundiais.
A apresentação de trabalhos científicos nacionais no plano internacional coloca a Dermatologia portuguesa não apenas como consumidora de conhecimento, mas também como geradora desse conhecimento. As Bolsas têm sido, neste sentido, um motor dessa afirmação científica.
Quanto ao futuro, gostaria de ver apoiados projetos que combinem rigor científico com aplicabilidade real à nossa população. Penso em investigação clínica e translacional liderada por dermatologistas, em projetos colaborativos entre serviços e entre subespecialidades — por exemplo: a tricologia, a oncologia cutânea, a dermatologia pediátrica, a dermatologia estética com base em evidência, entre outros — e em iniciativas que aproveitem ferramentas hoje incontornáveis, como os registos nacionais, e a inteligência artificial aplicada ao diagnóstico. Valorizaria também o apoio a projetos de divulgação científica séria, que aproximem o conhecimento dermatológico dos colegas de outras especialidades e da própria população, porque a afirmação da especialidade também se faz por aí.
Que mensagem gostaria de deixar a quem se queira candidatar?
Candidatem-se. Pode parecer uma resposta simples, mas é a mais relevante. Estas Bolsas existem para serem usadas — e existem precisamente para apoiar quem ainda está a construir o seu percurso, não apenas quem já o tem feito. Permitem também que haja uma posterior partilha de conhecimento adquirido, modernizando e atualizando a Dermatologia portuguesa, com inputs de centros de referência, ou com o incremento da produção científica.
A candidatura, em si mesma, já é um exercício formativo — obriga-nos a estruturar o pensamento, a definir objetivos e a olhar criticamente para aquilo que queremos fazer. A SPDV tem demonstrado, ano após ano, vontade genuína de investir nos seus sócios. Cabe-nos a nós, dermatologistas, corresponder a essa confiança com projetos que façam crescer a especialidade. O futuro da Dermatologia portuguesa constrói-se, em boa parte, com estas decisões individuais de dar um passo em frente.
SO











