Medicina Narrativa: O poder terapêutico da arte e das histórias de cada um
Numa sessão sobre o papel da arte em Oncologia, a pediatra Margarida Lobo Antunes vai partilhar as vantagens da ligação da ciência exata – neste caso, a Medicina – às humanidades, explanando o conceito de Medicina Narrativa, que se inspira nas histórias pessoais dos doentes para fins terapêuticos. Convicta de que a arte cura, a especialista defende que a Medicina Narrativa contribui para melhorar a vida não só dos doentes, mas também dos profissionais de saúde, designadamente numa área com uma carga emocional tão pesada como a Oncologia.

A abordagem defendida pela Medicina Narrativa – disciplina que junta os princípios da arte à ciência – assenta na ideia de que a melhoria dos cuidados de saúde ganha força na relação mais próxima entre médico e doente.
Foi nos Estados Unidos da América, no final da década de 90, que este conceito foi cunhado pela médica internista Rita Charon e começou a dar os primeiros passos, assumindo-se com um método centrado no doente e não na doença. De acordo com a pioneira da Medicina Narrativa, há uma necessidade de reconsiderar a relação médico-doente, para (re)valorizar a singularidade e o contexto específico de cada caso, e combater um sistema de saúde que coloca preocupações corporativas e burocráticas acima das necessidades dos pacientes. Só assim se garante a singularidade de cada experiência clínica e a proximidade humana entre profissional de saúde e doente, pressuposto fundamental para melhorar os cuidados de saúde, advoga.
Em Portugal, uma das grandes impulsionadoras deste movimento é a pediatra e coordenadora do Departamento da Criança e do Adolescente no Hospital Lusíadas Lisboa, Margarida Lobo Antunes, que acredita que a arte pode curar e que a Medicina Narrativa contribui para uma melhoria da prestação de cuidados de saúde, tanto na perspetiva dos doentes, como na dos profissionais de saúde.
Antes da Medicina se tornar uma ciência exata, e atualmente com um forte pendor tecnológico, era uma ciência humana, resultado de conversas entre médico e doente e da escuta das queixas do doente pelo médico, recorda a especialista, acrescentando que “a abordagem era feita pelo toque, palpação e colheita da história do doente, mas com a sua evolução, a Medicina, que era uma arte, foi-se transformando numa ciência pura e dura e começando a desligar-se da sua parte humanística”.
A importância da empatia e de “ouvir com outros olhos”
Foi precisamente da necessidade de regressar a estas origens que nasceu a Medicina Narrativa, com vista a redirecionar um sistema de saúde despersonalizado para cuidados de saúde humanizados e atentos a cada doente.
Isto porque, advoga Margarida Lobo Antunes, “conhecer o doente é mais importante do que conhecer a doença. A Medicina está cada vez mais tecnológica e burocrática, mas não há outra maneira de a fazer se não for com empatia e compaixão”.
“Ouvir com outros olhos” foi uma frase que se habituou a ouvir da boca do seu pai, o neurocirurgião João Lobo Antunes, e que coloca a empatia no patamar cimeiro da relação com o outro, que é neste caso o doente. Mas essa é uma prática que nem sempre é fácil e nisso, mais uma vez, a arte pode dar uma ajuda. Para um médico que nunca estudou agricultura, é difícil compreender a história de vida de um doente que sempre viveu no campo e que lhe fala das suas colheitas como a maior das suas conquistas. Mas, se esse médico já tiver lido um livro sobre o assunto ou visto um filme com uma personagem semelhante, mais facilmente vai conseguir “calçar os sapatos” da pessoa que tem à sua frente e ser naturalmente empático.
Ora, na essência da Medicina Narrativa, Rita Charon defende precisamente isso: que a análise de textos literários e o conhecimento da literatura e de histórias pode ajudar os médicos a compreenderem melhor a dimensão dos seus doentes e traz outros benefícios, como a prevenção do burnout, por se tratar de uma forma de escape. O que em Oncologia é especialmente importante, devido à carga emocional associada às doenças oncológicas.
Igualmente determinante em Oncologia, de acordo com a médica, é ir um pouco mais além da máxima “tratar os outros como nós gostaríamos de ser tratados’” e “tratar os outros como eles gostariam de ser tratados”. Mas, para isso, “é imprescindível conhecer a pessoa e as suas histórias”, sustenta.
Cláudia Brito Marques
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