“A bússola da Oncologia portuguesa aponta na direção da inovação, da excelência, da liderança e do futuro”
“Moving Forward” é o lema do 21.º Congresso Nacional de Oncologia, uma “viagem” de três dias em que os oncologistas portugueses poderão atualizar-se nas principais áreas técnico-científicas da especialidade, bem como ficar a conhecer territórios menos explorados, como a utilidade das redes sociais na prestação de cuidados oncológicos ou os benefícios da medicina narrativa. Em entrevista, o presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), José Luís Passos Coelho, destaca a importância de Portugal não perder “o comboio” da investigação clínica e a necessidade vital de se atraírem recursos humanos, de forma a robustecer a resposta ante o crescente número de casos de cancro.

O lema deste 21.º Congresso – “Moving Forward” – mostra que o azimute da Oncologia portuguesa está virado para o futuro, assente numa ideia de movimento/viagem. Quais foram os objetivos inerentes à escolha desta estratégia?
A Oncologia tem sido uma das especialidades médicas que mais tem, efetivamente, avançado nos últimos 20-30 anos e daí que o lema “Moving Forward” faça todo o sentido. E tem avançado em dois aspetos distintos…
Um deles diz respeito ao impacto que o cancro tem na saúde pública, na medida em que as doenças oncológicas são sobretudo doenças do envelhecimento. Obviamente que há tumores pediátricos e doentes afetados em todas as idades, mas o grosso dos tumores ocorrem em pessoas mais velhas, sendo mais de dois terços dos casos em pessoas acima dos 65 anos. Como felizmente estamos a viver cada vez durante mais tempo, as doenças oncológicas são, só por isso, cada vez mais frequentes. Se a isso juntarmos o facto de atualmente a primeira grande causa de morte serem as doenças cérebro e cardiovasculares, área em que os avanços terapêuticos têm acontecido ainda mais rapidamente que na Oncologia, é previsível que o cancro passe para primeira causa de morte, não porque os doentes oncológicos estejam a viver menos – o que não é verdade, estão efetivamente a viver mais tempo – mas, porque há áreas onde o avanço terapêutico está a ser ainda maior e mais rápido que no domínio da Oncologia.
A menos que se descubra a cura para todos os tipos de cancro nos próximos cinco a 10 anos, o simples facto de se viver mais anos resulta num aumento muito importante do número de novos casos de cancro. Pelo que esta é uma doença com um forte impacto social, um problema com o qual a sociedade tem que lidar.
Além de um aumento do número de casos, dado o sucesso terapêutico e a consequente redução da mortalidade para a grande maioria dos cancros, a probabilidade de um indivíduo com diagnóstico de cancro da mama, pulmão ou outro de estar vivo cinco a 10 anos depois tem vindo a aumentar desde 1990. Há, portanto, um número significativo de doentes curados e outros com doença controlada/crónica.

Qual é, então, o segundo aspeto a realçar como avanço na área da Oncologia?
O outro aspeto em termos de “Moving Forward” é que, de facto, a compreensão do que se passa com a célula cancerosa cresceu de uma maneira absolutamente vertiginosa nos últimos 20-30 anos. Watson e Crick – responsáveis pela descoberta dos ácidos nucleicos, onde está toda a memória do funcionamento das nossas células – permitiram que nos anos seguintes se tenha percebido muito melhor como funcionam as células normais e como funcionam as células tumorais. O estudo do genoma humano veio permitir perceber o que é que é crítico em muitos tipos diferentes de cancros: porque é que são diferentes, o que é que têm em comum, quais são os defeitos que têm… E isso levou a uma explosão de novos tratamentos, porque ao contrário do que acontecia há 30 ou 40 anos atrás – em que as descobertas terapêuticas resultavam de testes em culturas celulares, no laboratório, num processo muito por tentativa-erro – hoje em dia, num número cada vez maior de cancros, há uma divisão por subtipos bastante diferentes uns dos outros, com comportamentos diferentes e hipóteses terapêuticas diferentes. Isto porque, atualmente, entendemos quais são as vias celulares relevantes para cada tipo de cancro, o que permite investigar e desenvolver novos tratamentos, desenhados para atuar nessa via específica. É como se o cancro fosse uma sala com várias fechaduras e agora é possível desenvolver chaves específicas para cada uma das fechaduras. Um dos casos mais impressionantes é o do melanoma metastático, que até há bem pouco tempo não tinha tratamento. Hoje em dia, com terapêuticas como a imunoterapia, mesmo em doenças tão avançadas como o melanoma metastático, os estudos mostram que em quase metade dos doentes (alguns já com vários anos de tratamento) a doença não voltou. Há, portanto, áreas em que a revolução em termos de resultados terapêuticos é enorme; noutros, há uma melhoria progressiva, que tem sido cumulativa. O número de novos medicamentos para o cancro desenvolvidos nos últimos 20 anos é seguramente 10 a 20 vezes maior em número do que os que apareceram nos 20 anos anteriores, o que configura uma diferença gigante.
Não precisamos, por isso, de pensar em mais razões para chegar à conclusão de que “Moving Forward” é um bom lema para o congresso deste ano.
Que desafios marcam, atualmente, a prática da Oncologia e o tratamento do cancro em Portugal?
Diria que são, ao todo, quatro. Prevenção, rastreios, capacidade de resposta e acesso à terapêutica são os grandes desafios que marcam, atualmente, a prática da Oncologia e o tratamento do cancro em Portugal.
O primeiro passa por tentar evitar aquilo que é evitável e há muitos tumores que são evitáveis. Desde logo são evitáveis se não fumarmos. Um fumador tem um risco muito superior a um não-fumador de ter vários tipos de cancro: pulmão, cabeça e pescoço, esófago, estômago e bexiga, entre outros.
Sendo que mais de 95% dos cancros do colo do útero são relacionados com a infeção por HPV, a vacina contra este vírus permite, em última instância, praticamente erradicar os carcinomas do colo do útero, mas também os do canal anal, da orofaringe, entre outros. No plano da vacinação, também de destacar a vacina contra a hepatite B, responsável por uma diminuição da incidência de cancro do fígado, a par da moderação no consumo de álcool.
Estas são todas áreas de prevenção que estão à nossa disposição. Sem esquecer o combate à obesidade, onde considero que temos margem para melhoria. Uma mulher a quem seja diagnosticado um cancro da mama e que seja obesa, terá, só por este facto, uma doença mais agressiva. A obesidade está relacionada com os tumores da mama mais frequentes, com tumores do endométrio, e é uma área em que precisamos de melhorar no que concerne à prevenção. Ao nível da alimentação, importa ainda referir que uma dieta rica em legumes e parca em carnes vermelhas ajuda a reduzir o risco de cancro do colon.
No plano dos rastreios, é preciso investir numa maior participação da população saudável. Portugal tem implementados três rastreios oncológicos de base populacional: cancro da mama, cancro do colo do útero e cancro colorretal. Há recomendações europeias para que se proceda a alguns ajustes no rastreio do cancro da mama para idades mais jovens e recomendações para se ponderar o rastreio do cancro do pulmão e do cancro do estômago – com elevada incidência em Portugal – e também do cancro da próstata. A adesão por parte das pessoas que deveriam fazer estes rastreios ainda está longe de ser a desejável, nomeadamente no cancro do colo do útero, pelo que há também aqui um caminho a fazer…
No que respeita à capacidade de resposta, o sistema tem que estar preparado e ajustado às necessidades crescentes. Temos que ser capazes de proporcionar diagnósticos e tratamentos o mais céleres e adequados possível.
Relativamente à terapêutica, é preciso garantir o acesso rápido a tratamentos que provem eficácia e vantagem relativamente ao que se fazia antes. É fundamental encurtar o tempo de translação da inovação, fazendo com que esta entre o mais rapidamente possível na nossa prática clínica.
Este 21.º congresso assenta em quatro pilares. Um deles é a inovação, marca indelével na área da Oncologia. Em que ponto estamos e para onde vamos neste domínio
Em termos de inovação, quero destacar duas iniciativas “fora da caixa” que vão marcar o congresso, organizadas pela SPO em parceria com a ASCO, e cujos temas são a atratividade da especialidade e a relação entre Oncologia e redes sociais. “Como melhorar o ensino de graduação e aumentar o interesse numa futura carreira em Oncologia” é o título da primeira sessão conjunta, em que serão apresentados os resultados de um questionário nacional feito a estudantes do 5.º ano de Medicina. Nós, oncologistas, estamos muito preocupados com a capacidade de atrair profissionais de saúde – sobretudo médicos – para a área da Oncologia. Queremos perceber o que é que os alunos de Medicina de várias faculdades pensam da especialidade, que exposição tiveram a temas oncológicos durante a formação pré-graduada ou que aspetos desta área consideram atrativos e/ou entediantes… No âmbito desta sessão será ainda apresentada a realidade americana no que respeita aos programas de formação na área da Oncologia, que é certamente diferente da europeia.
Perceber qual o papel que o oncologista pode ter no aumento da literacia em saúde através da internet e das redes sociais é um dos objetivos da outra sessão conjunta SPO/ASCO. Um tema bastante disruptivo para um congresso médico, a meu ver, e que importa debater, na medida em que já há evidência de como a comunicação e partilha de informação através das redes sociais podem impactar positivamente a prestação de cuidados de saúde e até os outcomes terapêuticos.
A excelência é outro dos pilares definidos para este encontro. Como é que esta se alcança na prática da Oncologia? A chave está na formação?
A excelência depende de vários fatores, sendo a formação crítica. A velocidade de evolução do conhecimento, como disse anteriormente, é vertiginosa e quem venha a dedicar-se a esta área vai precisar de estudar muito e de forma contínua, porque a necessidade de atualização é enorme. Isso é um esforço grande para as pessoas, individualmente, mas tem que ser uma preocupação também das instituições. O tempo é limitado, as necessidades são cada vez maiores e a informação tem que chegar às pessoas que precisam dela.
A excelência implica que existam, obviamente, recursos humanos e técnicos suficientes para tratar as pessoas, como um número suficiente de anatomopatologistas, que configura uma preocupação grande a nível nacional, onde este número é reduzido.
Simultaneamente, considero que temos que caminhar na direção de as instituições divulgarem os seus resultados. Na Oncologia isso é não só determinante, como fácil de fazer, uma vez que dispomos de medidas muito objetivas para medir os nossos resultados.
Que valores e caraterísticas são indispensáveis para se cumprir o terceiro pilar, que reside num compromisso de liderança?
A liderança, aqui, entende-se no contexto do trabalho desenvolvido pela SPO. A SPO quer chamar para si o papel de liderança na defesa dos direitos dos doentes e na promoção da investigação em Oncologia em Portugal – e temos trabalhado nesse sentido. Portugal tem excelentes centros de investigação básica laboratorial e centros também muito bons na área da investigação clínica, mas enquanto país acho que podemos e devemos fazer melhor. Estamos aqui ao lado de Espanha que é um portento na investigação clínica em cancro e que é um dos países do mundo com maior taxa de participação de doentes em ensaios clínicos. Isto demonstra como na Península Ibérica é possível fazer mais e é algo em que nós, enquanto SPO, gostaríamos também de ter um papel de liderança.
Ainda neste âmbito, é objetivo da SPO, a dois anos, conseguir ter a sua revista indexada, por se tratar de um critério de qualidade e de uma forma de tornar visível e reconhecido pelos nossos pares dentro e fora do país aquilo que fazemos bem em Portugal.
Quanto ao futuro, considera que o futuro da Oncologia terá um pendor mais tecnológico ou um pendor mais humano?
A tecnologia obviamente que faz parte da Medicina e isso não é de agora. Por isso, a Oncologia tem uma componente tecnológica muito importante, nomeadamente na cirurgia e na radioterapia. Mas, a componente humana é determinante. Nós tratamos pessoas! E as pessoas têm necessidades que são necessidades técnicas – e que passam pelo controlo da sua doença e dos sintomas causados pela doença ou pelo tratamento – mas também têm outras necessidades que não são necessariamente médicas, mas antes do foro social, financeiro ou emocional e que têm que ser tratadas do ponto de vista do sofrimento psicológico com uma abordagem em que o equilíbrio entre componentes técnica e humana é incontornável.
Equilíbrio esse que também está plasmado na escolha dos temas que compõem o programa deste 21.º Congresso?
Isso tem sobretudo que ver com os vários grupos de trabalho que compõem a SPO e que foram desafiados a criarem um programa que refletisse as suas áreas de interesse.
O que gostaria que, no final do Congresso, os oncologistas levassem para as suas práticas clínicas?
Gostaria que achassem que foi um tempo bem empregue na sua formação. Gostaria que ficasse consolidada a ideia de que a SPO presta apoio a todos os seus membros e aos doentes oncológicos, com as suas várias atividades, que não se esgotam na organização do congresso. Gostaria que os colegas saíssem deste congresso ainda mais entusiasmados para trabalharem numa área que é desafiante do ponto de humano e científico e, por isso, tão fascinante e atrativa.
Cláudia Brito Marques
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