Frequentemente subestimada, por desconhecimento da sua importância, a tiroide é uma glândula localizada no pescoço, imediatamente abaixo da “maçã-de-adão”, constituída por dois lobos unidos por uma parte central chamada istmo. A sua função é produzir, armazenar e libertar para a corrente sanguínea as hormonas tiroideias – triiodotironina (T3) e tetraiodotironina (tiroxina ou T4) – essenciais à vida. Contribuem para a regulação da temperatura corporal, da frequência cardíaca, da pressão arterial, do funcionamento intestinal, do controlo do peso, do nível do colesterol, da força muscular, da memória, dos estados de humor, entre outras funções. Desconhecida de muitos, são ainda mais os que desconhecem que a tiroide pode adoecer, que o mesmo é dizer, deixar de funcionar corretamente.

“Muitas vezes silenciosas e com sintomatologia inespecífica, as doenças da tiroide incluem um vasto conjunto de condições que se podem dividir, grosso modo, em dois grandes grupos: as doenças em que há alteração da forma e que são, sobretudo, os nódulos da tiroide e as doenças em que se registam alterações na função, onde se inscrevem o hipotiroidismo (produção insuficiente de hormonas) e o hipertiroidismo (produção excessiva de hormonas)”, começa por explicar João Jácome de Castro, Coronel médico e endocrinologista do Hospital das Forças Armadas.

Em termos de prevalência, explica o também Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia Diabetes e Metabolismo (SPEDM) “há que ter em conta duas realidades distintas. A dos nódulos com significado clínico, que de acordo com as estimativas disponíveis afetarão cerca de entre 4 e 5% da população adulta e a dos nódulos sem relevância clínica, que se estima estejam presentes em cerca de 40% da população, havendo mesmo estudos realizados a partir de dados de autópsias que mostram uma prevalência superior a 50%”, acrescenta.

Uma realidade com a qual é preciso saber lidar muito bem, explica o dirigente da SPEDM: “por um lado temos que ser cuidadosos, alertando as pessoas para a possibilidade de terem nódulos da tiroide, aconselhando a que recorram ao médico de família, o qual, caso seja necessário, referenciará para o endocrinologista, e por outro, passar uma mensagem de tranquilidade, explicando que a maioria dos pequenos nódulos que surgem não têm significado clínico, pelo que as pessoas não se devem preocupar desnecessariamente.

A fronteira entre o que é relevante ou não, em termos clínicos é, essencialmente, a dimensão, explica. “Nódulos com menos de 1 cm de diâmetro, não têm expressão clínica. A não ser em casos muito excecionais de pessoas com historia familiar, muito marcada, de cancro da tiroide. No caso de nódulos com mais de 1cm de diâmetro já achamos que merecem um acompanhamento mais diferenciado.

Já no que diz respeito à prevalência de doença associada a alterações da função “temos 2% a 3% de pessoas com hipotiroidismo e 1% a 2% com hipertiroidismo”, aponta o especialistas, que sublinha. “Estamos a falar, claro, de hipotiroidismo e hipertiroidismo com a expressão clínica”… Porque há uma outra versão da doença a que designamos de hipotiroidismo ou hipertiroidismo subclínicos forma branda de alterações da função, geralmente assintomáticas, mas já detetável através de exames laboratoriais). Nestas condições, encontramos prevalências muito elevadas, particularmente na população com mais de 50 anos de idade. Muito embora não haja indicação para tratamento, em todos estes casos os doentes devem ser monitorizados periodicamente, para se verificar se houve, ou não, evolução para situações com relevância clínica, que necessitem de tratamento específico, acrescenta Jácome de Castro.

Mulheres mais afetadas do que homens

A prevalência da doença da tiroide é cinco ou oito vezes maior no sexo feminino do que no sexo masculino. “Na verdade nós não sabemos exatamente porquê. Há fatores hormonais, certamente, envolvidos, começa por explicar Jácome de Castro, até porque, salienta, “os picos de incidência da doença não são só são mais frequentes nas senhoras, como afetam particularmente mulheres com entre os 20 e os 50 anos de idade, uma realidade que suscita a hipótese do papel das hormonas na história natural da doença, ainda que não tenha sido possível fixar uma ligação causa/efeito até ao momento. Mas não é um assunto fechado; é um mundo riquíssimo ainda por investigar” salienta o médico.

Outro aspeto que Jácome de Castro destaca como relevante e que importa transmitir relativamente às doenças da tiroide associadas a alterações da forma, é o de que 90% dos nódulos estão associados a doença nodular benigna, contra “apenas” 10% dos casos associados a doenças nodulares malignas, de entre as quais se destaca o cancro de tiroide.

Fatores de risco: iodo, radiação, stresse e tabaco…

Pese desconhecerem-se as causas que determinam o desenvolvimento de patologia da tiroide, sabe-se que o aporte de iodo desempenha um papel essencial. “O iodo funciona para a tiroide como a gasolina funciona para os automóveis. É o principal combustível para o fabrico das hormonas da tiroide, se falhar, temos problemas”, exemplifica o endocrinologista, que, explica, “havendo falta de iodo, muitas vezes o que acontece é haver um processo de aumento da dimensão tiroide para tentar compensar a falta de unidades funcionais, o que constitui um fator de risco para o bócio, para a doença nodular e para o hipotiroidismo”. Já o excesso de iodo, sublinha, “pode contribuir como fator de risco, quer para o hipertiroidismo, quer para o hipotiroidismo. E aqui o que é determinante é o ambiente em que vivemos e o aporte de iodo que este proporciona”.

Outro fator de risco identificado são as radiações cervicais, que constituem fator de risco significativo para o cancro da tiroide. “Um exemplo desta associação foi o acidente de Chernobyl, após o qual houve um aumento muito grande do número de casos de cancro da tiroide na população afetada pelas radiações”, aponta Jácome de Castro. Segundo o médico, “o tabagismo e o stresse são outros dois fatores de risco muito significativos para a exacerbação das doenças autoimunes da tiroide, especialmente para o hipertiroidismo”. O stresse, explica, “funciona como um impulsionador da doença autoimune da tiroide”. Já o tabagismo “é um fator desencadeador e de agravamento para o hipertiroidismo autoimune”, acrescenta o médico.

Em resumo, sintetiza: “entre os principais factores que podemos encontrar na génese da doenças da tiroide destacam-se o iodo, as radiações, o stresse e o tabaco…”

Depois, acrescenta, “há um conjunto de substâncias poluentes do ambiente que interferem com o metabolismo das hormonas da tiroide e provocam alterações do funcionamento, nomeadamente, bloqueando a boa produção de hormonas da tiroide e desta forma aumentando o risco do hipertiroidismo.

Subdiagnóstico…. Um problema crónico

O endocrinologista destaca o subdiagnóstico como um dos problemas mais preocupantes na área das doenças da tiroide. Que é justificado, em parte, com o facto “de ser muito frequente que as hormonas tiroideias, afetem um conjunto de sistemas do organismo, como o equilíbrio da pressão arterial, o controlo da frequência cardíaca, o balanço do peso, o humor, (a depressão, a ansiedade, a labilidade emocional,…), o funcionamento do intestino, a regulação hídrica. Ou seja, uma pessoa com hipertiroidismo pode apresentar tremores, calor, hipersudorese, arritmias, perda peso e ansiedade, em suma um vasto conjunto de sintomas que podem ser valorados como tendo na sua génese outras condições que não as doenças da tiroide.

“Já o hipotiroidismo é um pouco o contrário”, prossegue, “estando associado a cansaço, depressão, bradicardia, aumento de peso, pele seca e quebradiça, edemas, frio e obstipação. Todo um conjunto de sintomas inespecíficos, que tal como os do hipertiroidismo, levam a um subdiagnóstico das doenças da tiroide”, explica.

O mais das vezes, ao invés de referenciadas para o endocrinologista, as pessoas são enviadas para as especialidades mais diretamente relacionadas com a sintomatologia presente, explica Jácome de Castro, que exemplifica: “se têm a pele húmida, ou seca, enviam-nas para o dermatologista, se estão tristes vão ao psiquiatra se têm problemas no trato intestinal, enviam-nas à gastrenterologia. Um desperdício de tempo e, o que é pior”, sublinha, “é um protelar desnecessário de uma situação incómoda, por vezes perigosa, que pode ser resolvida de forma célere pelo endocrinologista. “Não estou a exagerar quando digo que quando decidem ir a um endocrinologista, os doentes entram no gabinete a sentir-se mal e sem saber o que têm e quando saem têm o diagnostico feito e em breve sentir-se-ão muito melhor”, sublinha o médico, que, afirma, “é uma das áreas mais gratificantes da medicina que eu conheço.

E quais são os sinais a que se deve estar atento? João Jácome de Castro explica: “em termos da alteração da função serão as alterações na temperatura corporal, no trânsito intestinal, no peso, na menstruação… na frequência cardíaca e a sintomatologia associada ao sistema nervoso central, como a ansiedade e as oscilações de humor. Já no que toca às alterações da forma, é preciso estar atento ao facto de devido à presença dos nódulos a glândula poder aumentar de dimensões, sendo detectável um aumento do volume do pescoço que pode causar sintomas compressivos cervicais (falta de ar, dificuldade em engolir ou rouquidão persistente).

Médico de Família: um aliado precioso

Se em todas as áreas de especialidade uma boa ligação aos cuidados de saúde primários é relevante, no que toca ao diagnóstico das doenças da tiroide a ligação estre níveis de cuidados é fundamental, aponta Jácome de Castro. Uma ligação que a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia Diabetes e Metabolismo (SPEDM) tem vindo a fortalecer com a realização de ações e formação dirigidos aos especialistas em Medicina Geral e Familiar e também com a disseminação de normas nacionais para o tratamento das doenças endócrinas e de referenciação para endocrinologia.

Uma articulação que deve funcionar na perfeição, até porque, aponta Jácome de Castro, há muitas situações que podem e devem ser seguidas pelo médico de família e outras em que é mandatória a referenciação para o endocrinologista.

O cancro da tiroide…

Mais ou menos, 5 a 10% dos nódulos da tiroide, com significado clínico, correspondem a doença maligna. Destes, o carcinoma papilar é o mais frequente ainda que normalmente tenha boa evolução. Ocorre em 75 a 80% dos casos. Outra forma de cancro é o carcinoma folicular, que como o papilífero apresenta em geral boa evolução, ocorrendo de 10 a 15 % dos casos. Neste grupo, inclui-se o carcinoma de células de Hürthle, um subtipo mais raro, com uma frequência de cerca de 3%.

Também raro, o carcinoma medular apresenta pior evolução e menor probabilidade de cura, ocorrendo em aproximadamente 3,5% dos casos. Muito raro ainda, o carcinoma indiferenciado ou anaplásico é quase sempre fatal. Felizmente, representa apenas 1,5% dos casos.

“Nós conseguimos curar, sensivelmente, cerca dos 90% dos casos do cancro da tiroide, ao contrário da maioria das doenças malignas”, sublinha João Jácome de Castro.

Para o médico, justifica-se a criação de centros de referência para o tratamento do cancro da tiroide, “serviços de endocrinologia com mais apetência para esta área”.

Em jeito de conclusão, João Jácome de Castro, afirma que tratar bem as doenças da tiroide constitui um enorme desafio, mas um desafio muito gratificante, porque são doenças que por um lado interferem claramente com a qualidade de vida das pessoas, ainda que sejam doenças que, na generalidade, são fáceis de resolver. O grande desafio, defende, “está no facto de para nós conseguirmos tratar estas doenças, temos de conseguir diagnosticar corretamente e para as diagnosticarmos temos de pensar nelas; colocar a tiroide «no mapa».

“Há muita doença da tiroide, há pouco formação pré graduada e a formação pós graduada que existe anda muito «a reboque da sociedade portuguesa de endocrinologia». E não é demais a que existe.

É igualmente fundamental que a própria população esteja alerta para o facto de as doenças da tiroide poderem assumir grande diversidade e que sempre que tenham sintomatologia suspeita, devem procurar ajuda junto do médico de família que por sua vez, sempre que se justifique, deve referenciar para o endocrinologista.

As doenças da tiroide constituíram um dos tema em destaque no Congresso Europeu de Endocrinologia que se realizou em Lisboa, entre 20 e 23 de maio. Neste congresso, que pela primeira vez se realizou em Portugal, e que constitui a reunião magna da endocrinologia europeia e que contou com a presença de mais de 5000 (cinco mil) clínicos e investigadores da área, foram temas em destaque a abordagem do cancro da tiroide e o tratamento do hipotiroidismo, sublinha João Jácome de Castro, Presidente do Congresso Europeu de Endocrinologia.

 

MMM