O projeto deflamina, desenvolvido pelos investigadores do Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa (ISA-UL), Ana Lima, Joana Mota e Ricardo Boavida Ferreira, venceu a distinção Born from Knowledge (BfK) Awards, promovida pela Agência Nacional de Inovação (ANI) na última edição dos Food & Nutrition Awards (FNA).

Este Projeto de investigação deu já origem a uma patente, a uma startup e viu agora aprovada a construção de uma unidade-piloto destinada ao desenvolvimento do produto e ao início das vendas. Os testes realizados com vista a comprovar o efeito benéfico da proteína extraída das sementes do tremoço na prevenção e cura de doenças inflamatórias intestinais e do cancro colo-retal tiveram resultados extremamente positivos.

A Moléculas Soberbas, startup criada com o objetivo de continuar a desenvolver a investigação sobre a deflamina, proteína extraída das sementes do tremoço, que poderá estar na base de vários produtos anti-inflamatórios e anticancerígenos, recebeu o sinal verde para avançar com uma pequena fábrica de bolachas na Ilha da Madeira. Por hora, o grupo de investigadores, em parceria com várias outras entidades de investigação e de saúde, desenvolvem os testes pré-clínicos que poderão conduzir ao uso de um extrato em bruto de deflamina na prevenção e cura de doenças inflamatórias intestinais e do cancro colo-retal. Os resultados são animadores e encontram-se em fase de preparação vários ensaios pré-clínicos conjuntamente com várias instituições de Lisboa. 

A deflamina é uma molécula com potencial para causar uma disrupção na prevenção e no tratamento de doenças do aparelho digestivo, de alguns tipos de cancro e de efeitos colaterais indesejados dos tratamentos oncológicos”, aponta Ricardo Boavida Ferreira. O investigador aponta as razões: A família de enzimas MMP compreende proteases que participam intensivamente em inflamação e cancro, mas também estão envolvidas em muitos papéis fisiológicos saudáveis. Por esta razão, muitos inibidores de MMP, tanto naturais como sintéticos, falharam na fase dos ensaios clínicos, porque entram na corrente sanguínea e inibem as funções ‘boas’ que as MMPs desempenham no corpo humano”. Os investigadores admitem que a deflamina, atuando no aparelho digestivo, não deve apresentar os efeitos laterais nefastos dos inibidores de MMP previamente testados.

Num sentido lato, a deflamina é uma mistura de polipéptidos que exibe propriedades anti-inflamatórias e anticancerígenas, obtidos após aplicação de um procedimento específico de extração a um número de sementes comestíveis. A preparação bruta da deflamina é alcançada envolvendo exclusivamente extração com água e tratamentos com temperatura, visto que o oligómero puro é conseguido usando apenas água e etanol, assim como alterações de temperatura e de pH. A deflamina foi encontrada em sementes de algumas leguminosas (por exemplo, tremoço, grão-de-bico e soja, por ordem decrescente de atividade) e não-leguminosas. Estes procedimentos foram programados para serem facilmente adaptáveis a processos de scaling-up, quer para um nível de unidade-piloto, quer para uma escala industrial.

 

Primeiros estudos com resultados animadores

 

Atualmente, ao grupo de investigadores do ISA-UL juntaram-se Anabela Raymundo, da área de Engenharia Alimentar do ISA-UL, outros investigadores deste instituto e de várias outras instituições como o Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPO), o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), o Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM), a Universidade da Madeira e a Universidade de Guadalajara, México. O projeto engloba ainda parcerias com outras entidades

Até ao momento, foram desenvolvidos ensaios em ratos e peixes-zebra, com resultados excelentes. Os primeiros, realizados na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e na Universidade Luterana do Brasil, em Porto Alegre, Brasil, consistiram na indução de colite em ratos que, previamente ou posteriormente, ingeriram deflamina. As experiências com peixes-zebra expostos à deflamina, conduzidas no IMM, mostraram uma redução de cerca de 75% no tamanho dos tumores. Foram ainda realizados no INSA ensaios à mutagenicidade, genotoxicidade e citotoxicidade da proteína, que passou em todos os testes como sendo 100% segura para ingestão.

Apesar de a deflamina pura poder vir a ser usada na prevenção e tratamento de doenças, a Moléculas Soberbas não pretende desenvolver um medicamento, um processo que poderia durar 10 a 12 anos e custar entre 300 e mais de 500 mil milhões de dólares. A estratégia passa por criar alimentos que incluam um extrato bruto de deflamina. Nesta fase, a startup pretende financiar o subsequente desenvolvimento da deflamina, fazer o scaling-up do processo de produção para o nível de unidade-piloto e, logo que possível, iniciar as vendas. Atualmente, as bolachas já existem em várias versões (sem glúten, farinhas alternativas, etc.), podendo ser comercializadas dentro de um ano. No entanto, o objetivo de médio-prazo será o de criar um label que aponte as suas propriedades anti-inflamatórias e anticancerígenas, o que poderá ainda levar algum tempo e a realização de diversos ensaios.

A produção das bolachas arrancará assim que a unidade-piloto estiver em funcionamento, mas a startup já estuda declinações para outros alimentos, como gelatina, que possam ser mais facilmente ingeridos por alguns doentes. A Moléculas Soberbas acaba de ver aprovado o primeiro projeto a que se tinha candidatado, no âmbito do Sistema de Incentivos à Inovação Empresarial da Região Autónoma da Madeira – Inovar 2020, para a construção das instalações da unidade-piloto na Ilha da Madeira, onde também já desenvolveu uma parceria com a Universidade local. 

Ainda este ano, Ricardo Boavida Ferreira acredita estarem em condições de desenvolver, com a colaboração do grupo de nutrição animal do ISA-UL, estudos nutricionais em leitões desmamados para averiguar como é que a deflamina se comporta num modelo animal de nutrição semelhante ao humano.

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