16 Set, 2021

Só houve recuperação da atividade assistencial porque os “utentes não chegaram aos hospitais”

Alerta é lançado pelo bastonário da Ordem dos Médicos. "Temos muitos doentes para tratar que não sabemos quem são. É este o desafio que temos pela frente", admite.

O Bastonário da Ordem dos Médicos (OM), Miguel Guimarães, diz que a recuperação da atividade assistencial acontece porque “a maior parte dos doentes não entrou no sistema”, porque “os utentes não chegaram aos hospitais”.

Miguel Guimarães comentava, no final de uma visita ao Centro de Saúde de Algueirão-Mem Martins, dados do Ministério da Saúde que retratam uma recuperação da atividade assistencial em hospitais e centros de saúde nos primeiros sete meses deste ano em relação ao mesmo período de 2020 e 2019.

Temos muitos doentes para tratar que não sabemos quem são. É este o desafio que temos pela frente, e nesta perspetiva, o papel dos médicos de família é crucial porque são a principal porta de entrada no SNS”, disse o bastonário da OM no dia em que se celebram 42 anos do Serviço Nacional de Saúde.

Numa carta aberta endereçada à ministra da Saúde em julho, Miguel Guimarães apelou para a libertação dos médicos de família das tarefas específicas de pandemia e hoje voltou a reiterar a mensagem.

“Já deviam ter sido libertos há meses para poderem ver os doentes de sempre, seguir com mais proximidade os doentes crónicos, fazer diagnósticos e referenciar utentes para os hospitais” quando for necessário”, afirmou.

O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Nuno Jacinto, também presente na visita, disse que o trabalho dos médicos de família tem sido feito “com poucos recursos e com equipas que estão muito cansadas por estarem há muito tempo a trabalhar acima do seu limite”.

“Os médicos de família precisam de o ser por inteiro e não ser médicos da pandemia. Temos de voltar a ver os nossos doentes, ter tempo para eles, prestar-lhes cuidados e de retomar a relação de confiança e continuidade”, frisou.

Miguel Guimarães sublinhou também a importância de fixar os médicos de família no SNS ao afirmar que “se o setor privado e social consegue oferecer melhores condições aos médicos, o Estado também consegue”.

“No último concurso, ficaram cerca de 40% de vagas por preencher. Num momento em que temos mais de um milhão de portugueses sem médico de família, precisaríamos de cerca de 600 novos especialistas para dar cobertura a esta população”, frisou.

Para Miguel Guimarães, este problema deve ser resolvido com a maior urgência, considerando fundamental investir no capital humano. “Que as carreiras sejam aplicadas na prática, que não haja atrasos nos concursos, congelamentos nas várias posições remuneratórias, e que sejam criadas condições dignas para que os médicos optem por trabalhar no SNS”, disse.

“O que devia ser feito de imediato é um investimento grande nos recursos humanos, não só a nível salarial como nas condições de reforço das equipas e das condições de trabalho, a nível material e de instalações. E sobretudo garantir aos médicos de família que vão fazer as tarefas para as quais estão treinados e têm que executar”, concluiu Nuno Jacinto.

SO/LUSA

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