“O futuro será cada vez melhor em termos de controlo da doença oncológica”
Miguel Barbosa, membro do steering committee do Encontros da Primavera, acredita que o futuro da Oncologia vai ser positivo. Os avanços farmacológicos e uma aposta na prevenção, sobretudo em casos de síndromes hereditárias, são um caminho a consolidar. O oncologista falou ao SaúdeOnline no âmbito do evento que decorre entre 15 e 18 de abril, em Évora.

Encontros da Primavera é uma reunião interdisciplinar. Quais as mais-valias deste formato na prática clínica elativa ao tratamento da doença oncológica?
O tratamento do doente oncológico é muito complexo, por causa da inovação e da diferenciação. Cada área médica tem assistido a um desenvolvimento significativo, daí que precisemos de saber o que os colegas de outras especialidades conseguem oferecer aos outros doentes. Este tipo de iniciativas permite-nos contactar com outras experiências.
Atualmente, quais são os cancros mais preocupantes?
É sempre muito difícil responder a essa questão…Tendo em conta a incidência, em Portugal, destacam-se o cancro colorretal, o cancro da mama, o cancro da próstata e o cancro do pulmão, cuja mortalidade é elevada. Olhando para as diferentes regiões do país, por exemplo, no Norte existe uma incidência particular de cancro gástrico. Mas, no fundo, o mais preocupante para um oncologista, na sua prática clínica, é sempre obviamente o do doente que temos na consulta.
O cancro é cada vez mais uma doença crónica. Que desafios implica esta realidade?
À medida que se consegue controlar melhor as doenças oncológicas com tratamentos sucessivos é possível, nalguns cancros, essa cronicidade ou até o seu desaparecimento.
“A IA poderá permitir ao médico ter mais tempo de qualidade com o doente. As vantagens da IA são várias: por exemplo na ULS de São João temos um grupo de desenvolvimento de IA que nos permite fazer consulta sem estar a teclar no computador”
Entre os principais avanços farmacológicos, qual ou quais têm sido mais significativos para que seja uma doença crónica?
A mensagem que se transmite à sociedade é que dado tratamento vai ser definitivo para o cancro. Mas, na prática, a realidade é outra. Obviamente, há casos em que se trata de terapêuticas muito específicas para certa patologia, mas o que se verifica no dia a dia é que o sucesso está relacionado com a conjugação de tratamentos. Naturalmente, há um antes e depois da imunoterapia, mas os bons resultados surgem quando este tratamento é conjugado com a quimioterapia. Um bom exemplo é o cancro gástrico. Não diria que haja um tratamento único, mas formas cada vez mais completas para tratar o doente. A partir dessa premissa, atinge-se mais sucesso.
Mas a inovação também implica alguns riscos, como o cardiovascular. Como se gere esta situação?
Sim, afeta vários órgãos e sistemas. Quando fazemos uma intervenção, acabamos por alterar o equilíbrio do organismo, podendo potencialmente induzir-se algum tipo de toxicidade. O nosso objetivo é diminuir a carga de doença e aumentar o tempo e qualidade de vida. O tipo de toxicidade pode ser muito variável, mas de facto o risco cardiovascular destaca-se de alguma forma, apesar de também se poder afetar o sistema respiratório, digestivo ou endócrino. O oncologista tem de estar cada vez mais bem preparado para saber gerir as toxicidades. O lado positivo é que, felizmente, estamos muito bem preparados para as identificar e ter sucesso na sua gestão. Isso permite que os doentes possam continuar o seu tratamento.
“Todos queremos terapêuticas mais eficazes, para que se consiga tratar numa fase mais precoce e com menos toxicidade, por isso os próximos tempos deverão ser marcados pela migração para tratamentos ditos adjuvantes, curativos”
Essa questão remete-nos para a intensificação e descalagem terapêutica. A inteligência artificial (IA) poderá ser um apoio importante na tomada de decisão?
A IA poderá permitir ao médico ter mais tempo de qualidade com o doente. As vantagens da IA são várias: por exemplo na ULS de São João temos um grupo de desenvolvimento de IA que nos permite fazer consulta sem estar a teclar no computador. Apenas se fala com o doente, sendo gerado pela IA um diário clínico estruturado. Isto pode parecer um pormenor, mas não é: elimina a barreira do teclado e do monitor, resultando na melhoria da qualidade, do diagnóstico, da atenção aos sinais e sintomas do doente. Ao contrário do que se poderia pensar, a IA pode contribuir para uma maior humanização dos cuidados de saúde e isso é fundamental.
Os avanços terapêuticos poderão de alguma forma contribuir para a persistência terapêutica e adiar a referenciação para Cuidados Paliativos?
Existe sempre uma certa tensão… Por um lado, o doente e até a família, fruto de uma sociedade que privilegia muito a cura, não quer sequer ouvir falar em Cuidados Paliativos. Por outro, queremos caminhar para melhores cuidados de saúde, o que inclui a integração mais precoce da equipa de Cuidados Paliativos. É um caminho bastante difícil de trilhar. Não podemos esquecer que estes doentes podem ter a patologia controlada durante muito tempo, ou seja, a referenciação para Cuidados Paliativos – com poucos profissionais – não faz sentido neste caso. Precisamos mais do seu apoio para quem está numa situação mais complicada.
De futuro, o que se pode esperar da Oncologia?
O futuro da Oncologia está intrinsecamente ligado aos dos nossos doentes. Todos queremos terapêuticas mais eficazes, para que se consiga tratar numa fase mais precoce e com menos toxicidade, por isso os próximos tempos deverão ser marcados pela migração para tratamentos ditos adjuvantes, curativos.
E a prevenção é essencial também; os oncologistas devem ter uma palavra nesta área. Por exemplo, hoje, há cada vez mais registo de síndromes hereditárias, que potenciam o risco de desenvolvimento de cancro. Este conhecimento assenta na democratização dos testes genéticos e a Oncologia poderá ter um papel na prevenção e no seguimento junto de uma população ainda não doente. O futuro será cada vez melhor em termos de controlo da patologia oncológica e teremos com certeza tratamentos caros, já que a investigação é demorada e dispendiosa. A maneira de controlar os custos e permitir o acesso a cuidados implica envolver esta vertente mais preventiva. Na prática, já se nota este tipo de movimento, mas deve ser consolidado.












