“O objetivo do meu mandato é deixar de olhar para o glaucoma como um problema inultrapassável”
Luís Abegão Pinto é o primeiro português a presidir à Sociedade Europeia de Glaucoma. No próximo biénio, o também responsável pelo Departamento de Glaucoma da ULS de Santa Maria vai apostar na divulgação das novas guidelines da doença, mas também alertar para a necessidade de se rastrear os doentes assintomáticos com o apoio da inteligência artificial (IA). Em entrevista, destaca ainda o pioneirismo de Portugal nesta área da Oftalmologia.

O que é que sente perante este novo desafio de ser o presidente da Sociedade Europeia de Glaucoma?
Por um lado, a pessoa fica sempre contente com estas distinções, mas, por outro, eu já sabia com 2 anos de avanço. Há sempre aquela noção de que somos o presidente eleito, o que permite alguma continuidade, nomeadamente na passagem de pastas. É verdade que a tomada de posse é sempre um momento de novo empenho e de uma nova responsabilidade e sente-se alguma alegria pelo trabalho reconhecido.
Já há um trabalho de fundo como vice-presidente, cargo que exerci durante o último biénio. É muito confortante sentir que a sociedade confia em mim para os desafios dos próximos dois anos. É gratificante saber que os melhores da área, os gigantes desta sociedade – que eu creio ter os melhores da Europa -, confiam em mim para liderar as decisões, sempre em equipa. Ter este mérito reconhecido é muito gratificante.
E quais são os seus objetivos para este mandato?
Temos vindo a implementar várias estratégias e há aqui uma continuidade de projetos que têm sido fantásticos. Acabámos de lançar a 7.ª edição das guidelines do glaucoma, que já aborda temas como a inteligência artificial (IA) e define diretrizes para cirurgias, solidificando o raciocínio clínico sobre os vários tipos de glaucoma. Agora, o trabalho é de implementação: fazer chegar ao oftalmologista no terreno, e às sociedades científicas, que mudou o paradigma destas guidelines.
Por outro lado, estamos focados no potencial da inteligência artificial. Pessoalmente, sou um adepto das novas tecnologias, mas são ferramentas que têm de ser bem usadas. Temos um conjunto de task forces na sociedade que tentam explicar, por exemplo, se os rastreios passam a ser possíveis com estas tecnologias e se a forma como trabalhamos as imagens e os diagnósticos pode ser otimizada. Esse é um dos nossos esforços: como sociedade científica, temos de dar resposta ao que se sabe, ao que ainda é experimental e ao que já está validado.
Do ponto de vista institucional, estamos a reforçar a ligação à Europa. É espantoso como as pessoas se voltam cada vez mais para este continente. No nosso recente congresso em Bruxelas, um em cada quatro participantes já era extraeuropeu – vindos da América Latina, Ásia e Médio Oriente – , procurando a Europa como fonte de crescimento e colaboração. Os horizontes da ciência não têm limites geográficos e, quando produzimos bons materiais educativos e temos boas reuniões, as pessoas olham para a Europa como líder. Isso aumenta a nossa responsabilidade, mas é muito gratificante.
“Por exemplo, em 2023, realizámos um estudo-piloto em Lisboa com IA para rastreio. Chamámos cerca de 1.000 doentes e, dos que foram positivos, um terço já apresentava glaucoma moderado a grave”
Relativamente ao glaucoma, o que é que o preocupa mais hoje em dia?
O que é crítico, e que discutimos em todas as reuniões, é o facto de ser o “ladrão silencioso da visão”. Não tem sintomas e tem a perversidade de que 50% das pessoas que têm a doença não sabem que a têm. É preciso ir ao oftalmologista, mas se a doença é silenciosa, porque é que a pessoa há de ir? Quando nos procuram, muitas vezes é porque já não veem, e como a doença é irreversível, já só conseguimos gerir o dano. O glaucoma é o exemplo paradigmático do que devia ser uma doença preventiva: deveríamos ir à procura dela antes de causar problemas.
Por isso, estamos muito preocupados com os rastreios. Trabalhamos com organizações de doentes – que são key stakeholders – para perceber as suas necessidades. Por exemplo, em 2023, realizámos um estudo-piloto em Lisboa com IA para rastreio. Chamámos cerca de 1.000 doentes e, dos que foram positivos, um terço já apresentava glaucoma moderado a grave. Mesmo em Lisboa, quando vamos à procura da doença em assintomáticos, percebemos que o sistema não está a funcionar bem. O objetivo do meu mandato é deixar de olhar para o glaucoma como um problema inultrapassável. Já temos ferramentas; agora temos de escolher a melhor solução, não apenas identificar o problema.
Não deveria haver uma maior interligação com a Medicina Geral e Familiar?
Essa é uma boa observação. Portugal é um dos países que faz rastreios nos cuidados primários para a retinopatia diabética, a segunda causa de cegueira, com retinógrafos e sistemas de gestão de doentes. O que propomos, e já temos um centro pioneiro no Hospital de Santa Maria, é: se já temos o setup montado para a segunda causa de cegueira, porque não rastrear a causa principal, que é o glaucoma? Antes, não era possível fazer isto com humanos, mas agora temos a IA. Estamos anos-luz à frente de muitos países que se consideram líderes, mas que não têm isto de forma estruturada.
Considerando o seu trabalho com a inteligência artificial, acha que deveria haver mais legislação?
O problema não é a legislação. Portugal é, aliás, o único país da Europa que prevê que se deveriam fazer rastreios ao glaucoma. O problema é tecnológico e de eficiência. Imagine, temos X oftalmologistas; se a doença atinge 4% da população, teríamos de rastrear 100 pessoas para encontrar 4 casos. Isso não é eficaz, porque não temos tempo médico para isso.
A IA ajuda porque pode fazer este primeiro passo de forma contínua, sem fadiga. Se a máquina triar essas 100 pessoas e me enviar 8 casos suspeitos, eu já consigo absorver esse volume. O que torna o processo exequível é a IA conseguir filtrar a população.
“Há subtilezas, como as diferenças anatómicas entre populações (asiáticos, africanos, europeus), que podem levar a erros se a máquina não tiver sido treinada com uma base de dados diversa”
E quanto à formação dos profissionais de saúde nesta área?
Esse é um problema transversal. Como as pessoas muitas vezes não sabem como os algoritmos são feitos, confiam cegamente no resultado. O risco na saúde é saber até que ponto estas ferramentas estão validadas. É aí que as sociedades científicas entram: temos de explicar que a IA será tão forte quanto o treino que foi dado à máquina. No glaucoma, é um reconhecimento de padrões complexo.
Há subtilezas, como as diferenças anatómicas entre populações (asiáticos, africanos, europeus), que podem levar a erros se a máquina não tiver sido treinada com uma base de dados diversa. Garantir a segurança é fundamental para, primeiramente, “não lesar”. Mas o copo está meio cheio: só estamos a discutir os desafios da implementação do rastreio com IA, porque já o conseguimos realizar.
Estar à frente da Sociedade Europeia do Glaucoma será uma forma de dar ainda maior destaque ao que se faz em Portugal?
É prestigiante ter sido o primeiro português a liderar esta sociedade, mas sou o último de uma longa linhagem de oftalmologistas portugueses com lugares de soberania na oftalmologia internacional, como a professora Filomena Ribeiro ou o professor Cunha Vaz. Somos um país pequeno, mas com uma educação médica muito boa e uma mentalidade de resolver problemas. Lá fora, reconhece-se essa atitude proativa. Não é um caso isolado; é o resultado de décadas de trabalho da Oftalmologia portuguesa.
Maria João Garcia
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