6 Abr, 2021

Instante 5, a Surpresa

Por: Fernanda Mendes Barata

 

 

Tenho estado a imaginar os livros, filmes e documentários que produzirão sobre esta fase de uma desumanidade cruel: estamos todos a morrer.

É interessante: levámos séculos a encobrir a morte, a ignorá-la, a escondê-la atrás de cortinas, a despojá-la das suas vestes emocionais. Roubámos-lhe sem respeito o perfil incorpóreo e racionalizámos o fim. Descobrimos teorias para superar todos os lutos. Deixámos os nossos velhos e doentes anulados em camas de hospital, em lares, em asilos e tantas vezes sós em casa e agora… agora isto. Isto!

Riscámos toda a honra da vida humana de todos os quadrantes e deixámos que o horizonte não pudesse jamais queixar-se da ausência da dignidade perdida.

Agora… eis que a morte brota na meia noite em que adormeci, e era o dia seguinte. É o que é.

Somos todos culpados de termos deixado que o mundo adormecesse e despertasse no dia seguinte à sua morte. Não fizemos nada para impedir esta tragédia insólita. Estávamos todos ocupados em sobreviver para ganhar a vida com a qual haveríamos de comprar coisas que nos levavam a esquecer.

E eu… consenti a invasão de tudo contra mim. Entrei no jogo. Fantasiei, como todos, com um final feliz, um retrocesso miraculoso em tudo o que estava errado: os consumos exagerados de tudo um pouco. Esqueci o minimalismo e a certeza do bem.

Como grupo, nós, humanos, não soubemos parar. Deixámos que não nos deixassem chegar ao consenso.

La fora: o medo chegou a todos os Continentes. Alguém disse: é só uma gripezinha.

 

Por: Fernanda Mendes Barata

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