14 Mai, 2021

Instante 10, a Mudança

Por: Fernanda Mendes Barata

 

 

Há excessos de petróleo. Nascem guerras novas nas velhas diferenças planetárias. Agora, a insurreição e a vingança batalham rosto a rosto: os muito ricos e os muito pobres tentam abrir mão das suas alteridades. Será tarde demais? O Planeta, ele mesmo, parece atirar-nos com a porta sem qualquer pudor.

Olho para as desordens sem medo da zaragatoa com que a vida nos empurra sempre para trás. Penso e repenso. Mudo-me por dentro. Reponho os ventiladores do cérebro a funcionar. Tenho medo da vala comum em que antes existia com os meus semelhantes – para trás não volto, nunca mais! – e apesar desse temor apavorador sinto que não desabo qual muro armado. Sei que não caio, nem ruidosa, nem com clamor. O silêncio ainda é a minha arma.

Brota a meia noite e no dia seguinte em que acordo desperto. O infesto continua vivo, à soleira das nossas portas. Não morreu nem miraculosamente se desfez, mas levantaram as restrições porque, entre morrer de contágio ou de outro algo cujo nome temos vergonha de afirmar, então que venha o dito.

Ah…! A fome tem pernas…

Em breve poderemos sair. O meu vizinho soltou os cães. Ouço na varanda alguém trautear “La Vie em Rose”. Os carros dão a volta aos quarteirões. As lojas enchem-se de coisas que se enchem de pessoas a gastar o seu bem mais precioso, o tempo. Às janelas, Grândola Vila Morena marcha afónica, desafinada.

Está sol… Vale-me o mar que um dia destes verei. Tentarei esticar as mãos ao horizonte, aos milhões de seres humanos que não têm desavindos, apenas um sangue desnutrido e nenhuma esperança.

Um dia, talvez possa entender.

Lá fora: Alguém disse: a culpa, afinal, foi sempre do morcego.

 

Por: Fernanda Mendes Barata

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