8 Jul, 2020

Há mais 110 mil utentes sem médico de família este ano. Carência vai agravar-se

Todas as regiões do país têm agora mais utentes sem médico do que em dezembro. Aposentações vão aumentar nos próximos anos e entradas não chegam para compensar as saídas.

Num espaço de seis meses, disparou em 15% o número de utentes sem médico de família atribuído. São agora 840 mil, quando em dezembro de 2019 era 730 mil. São mais 110 mil pessoas a descoberto, adianta o Jornal de Notícias.

Entre os fatores que ajudam a explicar a evolução estão o aumento de aposentações dos médicos de Medicina Geral e Familiar, as saídas do SNS para a saúde privada e o adiamento dos exames para entrada na especialidade – e que levou ao atraso da abertura do concurso de 1ª época para médicos recém-especialistas.

Todas as zonas do país viram crescer o número de doentes sem médico. Contudo, a que mais piorou desde dezembro foi a região Norte, que tem agora mais 45 mil utentes a descoberto (aumento na ordem dos 80%), num total de 101 mil pessoas sem médico, segundo os dados disponíveis no portal do SNS.

Contudo, é em Lisboa e Vale do Tejo (LVT) que a situação é mais preocupante, à semelhança do que já vem acontecendo nos últimos anos. A região concentra 65% do total de utentes a descoberto e tem agora mais 21 mil pessoas sem clínico atribuído, o que eleva o total para 554 mil. Praticamente um em cada cinco residentes de LVT. Em alguns Centros de Saúde dos concelhos de Sintra, Almada e Lisboa o rácio é bastante pior, com metade dos utentes à espera que se lhe seja atribuído médico.

O segundo aumento percentual mais expressivo ocorreu na região Centro, que registou um acréscimo de 59%. Falta atribuir médico de família a mais de 75 mil pessoas. Em dezembro, o número rondava os 47 mil. No Alentejo há mais 7 mil utentes sem clínico de Medicina Geral e Familiar (MGF), enquanto no Algarve o saldo agravou-se em cerca de 10 mil.

 

Défice vai agravar-se. Entradas não compensam reformas

 

Mesmo sem o efeito da pandemia, dificilmente o ano de 2020 seria um sucesso no que diz respeito a este indicador. Por um lado, não param de aumentar os inscritos no SNS. Por outro, nos próximos três anos – até 2022 – devem reformar-se cerca de dois mil médicos de MGF. Só este ano, o Ministério da Saúde estima que saiam 559 médicos. O défice é evidente: este ano, terminaram a primeira época 390 jovens especialistas, o que não é suficiente para compensar as saídas (mesmo com mais 58 vagas previstas para a segunda época). O ano passado, o ritmo de aposentações já acelerara bastante.

O bastonário da Ordem dos Médicos tem vindo a alertar para a necessidade de se apostar na valorização das carreiras, através da dedicação exclusiva ou no aumento da remuneração mediante o cumprimento de objetivos (sistema implementado nas Unidades de Saúde Familiar Modelo B).

Já o Ministério da Saúde, que ainda no início do ano tinha a expectativa de atribuir médico de família a mais 200 mil portugueses no decorrer de 2020, sofre mais um revés no objetivo de dar médico de família a todos os portugueses, o que dificilmente acontecerá até ao fim da legislatura.

TC/SO

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