19 Jan, 2023

“Há ainda algum grau de subdiagnóstico da retinopatia diabética”

A retinopatia diabética é a principal causa de cegueira evitável na população ativa. Existe subdiagnóstico mas têm-se registado melhorias nos últimos anos, pelo menos nos maiores centros urbanos, diz, em entrevista, Rita Flores, presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia.

Qual o impacto da retinopatia diabética em Portugal?

A retinopatia diabética é indiscutivelmente um problema de saúde de grande relevância e um dos maiores desafios para a Oftalmologia. A prevalência da diabetes continua a aumentar, facto associado ao progressivo envelhecimento da população e à obesidade crescente. De acordo com o Observatório Nacional da diabetes, a prevalência estimada da doença diabética, em pessoas entre 20 e 79 anos, é de 13,1%, o que corresponde aproximadamente a 1 milhão de portugueses.  Destes estima-se que cerca de 16,3% tenham Retinopatia Diabética (RD).

O impacto da retinopatia diabética é muito significativo, sobretudo, nas formas avançadas da doença, porque pode promover um compromisso muito marcado e irreversível na acuidade visual. Este impacto é ainda maior porque muitos doentes diabéticos são adultos, em idade laboral, e assim incapacitados para a sua realização. A retinopatia diabética é a principal causa de cegueira evitável na população ativa.

 Que percentagem dos diabéticos acaba por desenvolver este problema? Existe subdiagnóstico?

Como já referi, estima-se que 16,3% da população diabética apresente algum grau de Retinopatia Diabética, o que representa cerca de 160 a 180.000 portugueses. A prevalência da RD varia em função do tipo de diabetes (tipo 1 ou tipo 2) e dos anos de evolução da doença. Ao final de 20 anos de diabetes estima-se que, cerca de 98% dos doentes com diabetes tipo 1, apresentem algum grau de RD e 50% em diabéticos de tipo 2.

O subdiagnóstico ainda existe e, podendo a doença ser assintomática nas suas fases iniciais, os programas de rastreio da RD são fundamentais para despiste, sinalização e posterior encaminhamento para unidades de saúde que prestem cuidados oftalmológicos especializados.

“Ao final de 20 anos de diabetes estima-se que, cerca de 50% dos doentes com diabetes tipo 2 apresentem algum grau de retinopatia diabética”

Qual o papel da Medicina Geral e Familiar no diagnóstico destes doentes? Considera que os médicos de MGF ainda desvalorizam muito as queixas, principalmente em pessoas mais idosas?

Há ainda, infelizmente, algum grau de subdiagnóstico da diabetes em geral e da retinopatia diabética em particular. A título de exemplo estima-se que podemos ter em Portugal 1 milhão de doentes diabéticos, dos quais 400.000 poderão não estar diagnosticados.

No entanto, diria que houve uma melhoria significativa na menorização deste subdiagnóstico nos últimos anos, pelo menos nos maiores centros urbanos, ainda que algumas zonas do interior do país mereçam medidas complementares. Os médicos de MGF estão muito mais despertos para o problema ocular e o rastreio da retinopatia diabética está em marcha em todo o território nacional.

Quando já são reportados sintomas, que percentagem dos casos acaba em perda grave de visão ou cegueira?

As formas mais graves da doença e com maior impacto na acuidade visual são o edema macular diabético e a retinopatia diabética proliferativa, que ocorrem em 9% e em 1,3% dos doentes respetivamente. São estas as duas formas da doença que necessitam de tratamento atempado e regular.

Com o aparecimento e utilização generalizada de tratamentos antiangiogénicos de administração em injeção intravítrea e com a implementação de cirurgias vitreoretinianas em tempo útil, o prognóstico visual destas duas entidades clínicas melhorou de forma muito significativa. Mesmo assim, reforço a necessidade de referenciação em tempo útil para centros oftalmológicos especializados em tratamentos de doenças da retina.

“Reforço a necessidade de referenciação em tempo útil para centros oftalmológicos especializados”

Que desafios se colocam a nível do tratamento?

Os progressos do conhecimento médico continuam a lutar contra esta epidemia global que é a diabetes e a procurar oferecer melhores soluções para o acompanhamento e tratamento da retinopatia diabética.

O rastreio eficaz para uma deteção precoce da retinopatia diabética, o acompanhamento com biomarcadores de progressão, e, quando as complicações da retinopatia diabética surgem, o seu tratamento atempado com os meios disponíveis e com outros em investigação são seguramente os desafios mais importantes a considerar.

Há novas perspetivas para tratamentos personalizados do indivíduo diabético no sentido de identificar os doentes em maior risco e de impedir a progressão da retinopatia para níveis de perda irreversível de visão. Terapêuticas em curso, e outras em investigação, que não só impeçam a perda de visão, como possam recuperar alguma visão já perdida.

SO

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