26 Mar, 2021

Oftalmologia. 116 mil utentes em lista de espera para consultas

No Dia Mundial da Optometria debateram-se os principais problemas do setor e a necessidade de regulamentação da profissão de optometrista.

Para assinalar o Dia Mundial da Optometria, que se celebra a 23 de março, a Associação de Profissionais Licenciados de Optometria organizou uma série de debates compostos por um painel de peritos de Oftalmologia entre outras especialidades, nacionais e internacionais, e responsáveis políticos, que falaram da necessidade de regulamentação da profissão de optometrista. Sob o mote “Deficiência Visual evitável em Portugal – até quando a permitiremos?“, abordou-se ainda a urgência na implementação das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Estima-se que 2,2 mil milhões de pessoas tenham problemas de visão, sendo que perto de metade destes casos poderia ter sido evitado com serviços preventivos e curativos para a saúde visual. De acordo com a especialista do LV Prasad Eye Institute, Srinivas Marmarula “em 2050 1,7 mil milhões de pessoas viverão com deficiência visual e cegueira, e metade da população mundial terá miopia”.

Para inverter esta tendência, o OMS desenvolveu o programa Universal Eye Health e apela aos governos que, até 2030, aumentem em 40% a cobertura efetiva do erro refrativo e em 30% a cobertura de cirurgia à catarata. Para o responsável pelo LV Prasad Eye Institute, Silvio Paolo Mariotti, os próximos passos passarão “pelo trabalho com os Estados-membros para desenvolver projetos piloto, encontrar recursos e financiamento para que todos os países, mesmo os menos desenvolvidos, possam começar a tratar a visão dos seus cidadãos e a monitorizar os resultados”.

De acordo com Raúl de Sousa, Presidente da APLO, atualmente são “116 mil os utentes em lista de espera para a consulta hospitalar da especialidade de Oftalmologia”, num país onde há “desrespeito pelos tempos máximos de resposta garantida e uma total inexistência de cuidados primários para a saúde da visão”, sustenta.

Durante estes debates, foram vários os agentes da saúde em Portugal a querer contribuir com soluções para mudar esta realidade.

O investigador e docente de Saúde Pública Internacional, Luís Lapão, lembrou o exemplo do sistema de saúde do Reino Unido onde “oftalmologistas e optometristas contribuem para sinalizar problemas e tratá-los”, e enfatizou a necessidade de “reformar os cuidados de saúde primários, trazendo mais áreas e mais profissionais, e especialidades como a saúde da visão”.

Já o médico especialista em Medicina Interna, Henrique Martins, acredita nas mais-valias de “uma rede dividida em vários níveis de cuidados, onde as tarefas são feitas por quem estiver disponível e da forma mais eficiente para o cidadão”, e o especialista em Medicina Geral e Familiar Rui Nogueira defende a criação de “equipas de saúde da visão na comunidade, onde cabem os optometristas e também os oftalmologistas, em contacto permanente” para “resolver o problema crónico do acesso aos cuidados de saúde em visão em Portugal”.

Por fim, o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Alexandre Lourenço, entende que “os serviços de saúde devem ser vistos como serviços e não como estruturas, devendo ser feitos onde for mais viável e conveniente para os cidadãos”.

Todos estes especialistas defenderam, paralelamente, a necessidade de regulação efetiva da profissão de Optometrista. Uma posição subscrita também pelos deputados da Assembleia da República que participaram nos debates da APLO.

João Alves do Partido Comunista Português defendeu que a optometria “deve ser regulada e os optometristas devem estar representados no Serviço Nacional de Saúde e nos cuidados de saúde primários, onde são muito necessários”. Já Pedro Alves do Bloco de Esquerda vincou que “não é possível continuar a desconsiderar a saúde dos portugueses, numa profissão que tem formação superior a ser ministrada, que tem profissionais de qualidade e que pode ser posta em causa pela falta de regulamentação”. O Partido Ecologista “Os Verdes” também marcou presença através da assessora parlamentar Ana Calado, que lembrou “o projeto de resolução da profissão de optometrista” subscrito pelo partido, e espera que esta iniciativa legislativa “abra o caminho para a regulamentação” da profissão.

O conhecimento e a evidência existem e são incontornáveis. As recomendações são claras e os recursos estão disponíveis para evitar que mais uma única pessoa sofra de deficiência visual ou cegueira evitável. A resposta à pergunta em debate foi consensual: as recomendações são claras, as soluções existem, mas continuaremos a permitir a deficiência visual e cegueira evitável em Portugal, enquanto não houver vontade política para efetuar a mudança.

 

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