“Gostaria que se olhasse para o GRESP como sendo também um grupo de investigação”
Pedro Fonte é o novo coordenador do Grupo de Estudos de Doenças Respiratórias (GRESP) da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). O médico de família quer dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelas coordenações anteriores, mas também deixar o seu cunho. Uma das principais ambições é reforçar o livre espírito de investigação no GRESP.

O que sente ao assumir a pasta do GRESP?
A transição começou em abril e coincidiu com a organização e preparação das Jornadas do GRESP, período durante o qual continuámos a contar com um grande apoio da Dr.ª Cláudia Vicente. Agora, sim, será o momento de dar continuidade aos projetos anteriores e iniciar outros. Sinto um enorme orgulho, porque este grupo de estudos é muito ativo e integra profissionais de grande qualidade. Mas tenho também consciência de que se trata de um grande desafio, o que gera, inevitavelmente, algum receio.
Quais são os principais objetivos do mandato desta Coordenação?
Antes de mais, é importante consolidar o que já conseguimos, porque o GRESP tem crescido imenso ao longo da sua história. Não será necessariamente expectável manter o mesmo ritmo de crescimento, quer em número de membros quer em iniciativas desenvolvidas.
Ainda assim, existem áreas nas quais gostaríamos de reforçar a nossa intervenção, como é o caso da investigação. O GRESP começou e tem-se desenvolvido sobretudo como um grupo formador dedicado à formação, procurando ajudar os colegas a prestar melhores cuidados às pessoas com doenças respiratórias, quer pela criação de ferramentas de apoio à consulta, quer através de iniciativas educativas. Mas alguns de nós, incluindo eu próprio, estamos ligados à academia e a projetos de investigação regionais ou internacionais. Esta é uma vertente que ainda não tem, enquanto atividade coletiva do GRESP, a expressão que gostaríamos de lhe dar.
Outro ponto a que devemos prestar atenção são algumas lacunas que persistem na abordagem das doenças respiratórias, apesar do empenho do grupo em procurar contribuir para a sua resolução. Temos de continuar a trabalhar para melhorar o acesso à espirometria, um exame fundamental para o diagnóstico de várias doenças respiratórias. Portugal continua a apresentar importantes limitações neste campo.
Outra área em que queremos marcar a diferença é na reabilitação respiratória, uma intervenção essencial, nomeadamente na doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC). Infelizmente, o acesso à reabilitação respiratória continua quase inexistente no nosso país e nós queremos contribuir para mudar esta realidade.
Além destas vertentes, manteremos as iniciativas habituais como as nossas Jornadas e procuraremos assegurar uma participação o mais ativa possível nos eventos da APMGF. É também nossa intenção manter e reforçar as parcerias que temos vindo a desenvolver com outras sociedades e associações científicas nacionais e, a nível internacional, claro com o IPCRG, que tem agora a Dr.ª Cláudia Vicente como presidente a.
“É necessário encontrar soluções que garantam um acesso atempado e equitativo a espirometrias de qualidade, independentemente da região do país”
Tendo o conta a vertente mais investigacional, o Departamento de Investigação da APMGF poderá ser uma ajuda importante?
Sim, aliás temos membros que participam, individualmente, nas reuniões do Departamento. Eu próprio já colaborei numa iniciativa. A questão, uma vez mais, é desenvolver esta vertente de forma mais estruturada e coletiva, enquanto grupo. Gostaria que se olhasse para o GRESP como sendo também um grupo de investigação.
Relativamente à espirometria, por que razão ainda persistem tantas assimetrias a nível nacional? Faltam recursos e uma aposta por parte da tutela?
É uma realidade complexa e multifatorial. Certamente que existem limitações de recursos, mas não estou certo de conseguir identificar todos os fatores que contribuem para esta situação. Temos procurado contrariar estas dificuldades há muitos anos e, naturalmente, continuaremos a fazê-lo. O que não podemos aceitar é que persistam desigualdades tão significativas no acesso a um exame fundamental para o diagnóstico de várias doenças respiratórias. É necessário encontrar soluções que garantam um acesso atempado e equitativo a espirometrias de qualidade, independentemente da região do país.
“Não podemos esperar que a criação de respostas semelhantes no restante país dependa exclusivamente deste tipo de iniciativas individuais, sob pena de continuarmos a aguardar muitos mais anos por uma maior disponibilização de serviços de reabilitação respiratória”
A reabilitação respiratória (RR) é outro problema em Portugal…
No nosso país e não só. Está amplamente demonstrado na literatura de que se trata de uma intervenção muito importante e custo-efetiva. Nas Jornadas tivemos uma mesa debater dedicada a esta temática.
Tenho debatido esta questão com a Dr.ª Carla Gomes, médica de família na ULS Algarve e responsável pelo Grupo de Trabalho de Reabilitação Respiratória do GRESP. Esta colega tem desenvolvido um verdadeiro serviço de RR na sua região, o que representa uma conquista fantástica! Recorremos frequentemente a este exemplo para demonstrar que é possível criar respostas desta natureza. Contudo, este percurso foi longo e exigiu muito esforço e voluntarismo por parte da nossa colega e de outros parceiros. Não podemos esperar que a criação de respostas semelhantes no restante país dependa exclusivamente deste tipo de iniciativas individuais, sob pena de continuarmos a aguardar muitos mais anos por uma maior disponibilização de serviços de reabilitação respiratória.
Nesta mesa, contámos também com a participação da Prof.ª Cristina Bárbara, diretora do Programa Nacional para as Doenças Respiratórias da Direção-Geral da Saúde. Na sua intervenção, a Professora referiu a intenção de criar um grupo de trabalho multidisciplinar na DGS, com o objetivo de promover as condições necessárias para a implementação de novas unidades de reabilitação respiratória no país. Obviamente, não será uma mudança imediata, mas o importante é dar início a este processo.
Podemos assim esperar que o GRESP continue a ser um modelo, como disse o Dr. Nuno Jacinto nas Jornadas?
Nunca desenvolvemos o nosso trabalho com o propósito de sermos um modelo. Há outros grupos mais recentes, que iniciaram as suas atividades há menos tempo e não sei se olharão para o GRESP dessa forma, mas ficamos muito satisfeitos com esse reconhecimento.
O meu compromisso é dar continuidade ao trabalho desenvolvido, preservando dinamismo, o rigor e a dedicação que têm caracterizado o GRESP ao longo dos anos. Queremos continuar a crescer e a evoluir, explorando novas áreas de trabalho, mas mantendo sempre o nosso principal objetivo – contribuir para melhorar a qualidade dos cuidados prestados às pessoas com doenças respiratórias e apoiar os médicos de família na sua prática clínica.
Maria João Garcia
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