Congresso de Psiquiatria. “Queremos ultrapassar dicotomias tradicionais, como biológico versus psicológico ou individual versus social”
“Os ambientes da Psiquiatria: do corpo à sociedade” é a temática central do Congresso Nacional de Psiquiatria que vai decorrer entre 25 e 28 de novembro, em Coimbra. Luís Madeira, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, aborda alguns dos assuntos que vão marcar as várias sessões, nomeadamente microbioma, neuromodulação e articulação com os cuidados primários.

“Os ambientes da Psiquiatria: do corpo à sociedade” é o tema do Congresso. Porquê esta temática geral?
A escolha deste tema parte de uma ideia fundamental: a doença mental não acontece isoladamente no cérebro, nem pode ser compreendida exclusivamente a partir dos processos biológicos do indivíduo. A nossa experiência, o nosso sofrimento e a nossa saúde mental constituem-se na relação permanente entre o corpo, a história pessoal, os outros e o mundo em que vivemos. Durante décadas, a Psiquiatria procurou compreender melhor os mecanismos biológicos das perturbações mentais, com avanços científicos muito importantes. Hoje, temos também uma consciência crescente de que esses mecanismos estão profundamente relacionados com os ambientes em que as pessoas vivem. Desde a inflamação e o metabolismo até às relações interpessoais, aos ambientes digitais, às desigualdades sociais e às alterações climáticas, existem múltiplos níveis de influência sobre a saúde mental.
O tema do Congresso pretende precisamente explorar estas diferentes escalas, do corpo à sociedade, sem as colocar em oposição. Queremos ultrapassar dicotomias tradicionais, como biológico versus psicológico ou individual versus social, e promover uma compreensão verdadeiramente integrada da pessoa. Há ainda uma segunda dimensão que considero particularmente importante: a Psiquiatria não estuda apenas doenças, estuda pessoas cuja relação consigo próprias, com os outros e com o mundo se encontra, de alguma forma, transformada. Compreender esses ambientes é também compreender melhor a experiência vivida dos nossos doentes.
O programa científico traduz esta ambição, reunindo contributos da imunopsiquiatria, da Psiquiatria metabólica, da psicopatologia fenomenológica, da psicoterapia, da ecopsiquiatria e da saúde digital, entre muitas outras áreas. Pretendemos que seja um congresso que não se limite a apresentar novos tratamentos, mas que contribua também para pensar criticamente o presente e o futuro da nossa especialidade.
Uma das linhas de trabalho do congresso aborda o corpo e os ambientes biológicos. Como é que avanços como a Psiquiatria metabólica, a imunopsiquiatria e o impacto do microbioma na saúde mental estão a mudar a prática clínica diária em Portugal?
Estamos a assistir a uma transformação importante na forma como compreendemos as relações entre o corpo e as perturbações mentais. Durante muito tempo, algumas destas relações foram consideradas sobretudo como associações ou comorbilidades. Hoje, começamos a compreender melhor os mecanismos através dos quais processos metabólicos, inflamatórios e imunológicos podem participar no desenvolvimento, na expressão e, eventualmente, na resposta terapêutica de determinadas perturbações psiquiátricas. A imunopsiquiatria, por exemplo, tem identificado relações relevantes entre processos inflamatórios e sintomas depressivos, alterações cognitivas e perturbações psicóticas. A Psiquiatria metabólica chama a atenção para a importância da resistência à insulina, da obesidade, da alimentação e de outros processos metabólicos, não apenas como consequências da doença ou dos tratamentos, mas também como possíveis elementos envolvidos na sua fisiopatologia.
O microbioma constitui outra área particularmente interessante, pela possibilidade de compreender melhor a comunicação bidirecional entre o intestino, o sistema imunitário e o cérebro. Contudo, importa distinguir aquilo que já conhecemos daquilo que permanece no domínio da investigação. A evidência é promissora, mas ainda não justifica a utilização generalizada de testes do microbioma ou de intervenções dirigidas à sua modificação como tratamentos psiquiátricos estabelecidos.
Na prática clínica portuguesa, a mudança mais imediata deve traduzir-se numa maior atenção à saúde física das pessoas com doença mental, frequentemente marcada por desigualdades significativas no acesso aos cuidados e nos resultados em saúde. A avaliação cardiometabólica, a promoção da atividade física, a intervenção nutricional e a articulação com outras especialidades devem fazer parte dos cuidados psiquiátricos de qualidade. Mas existe também uma transformação conceptual: deixamos progressivamente de pensar o cérebro como um órgão isolado e passamos a compreendê-lo como parte de um organismo em interação constante com o seu ambiente. É precisamente esta discussão que queremos aprofundar no Congresso, nomeadamente com as conferências de Golam Khandaker, sobre imunopsiquiatria, e Lucile Capuron, sobre inflamação, nutrição e saúde mental.
“É também importante evitar que o entusiasmo tecnológico conduza a uma visão redutora do tratamento psiquiátrico. A inovação farmacológica e tecnológica deve integrar-se numa abordagem clínica que continue a valorizar a psicoterapia, a reabilitação psicossocial e a relação terapêutica”
O programa destaca a neuromodulação e intervenções biológicas inovadoras. Onde nos encontramos no acesso dos doentes portugueses a estas novas terapêuticas?
Vivemos um período particularmente estimulante no desenvolvimento de novas intervenções terapêuticas em Psiquiatria. A estimulação magnética transcraniana, a eletroconvulsivoterapia, a escetamina e outras abordagens de neuromodulação ou de intervenção biológica têm vindo a alargar as possibilidades de tratamento, sobretudo em situações de maior gravidade ou resistência às terapêuticas convencionais. Importa, contudo, não confundir inovação com novidade. Algumas destas intervenções, como a eletroconvulsivoterapia, têm décadas de utilização e apresentam evidência científica robusta em indicações específicas. Outras, como a estimulação magnética transcraniana, têm vindo a consolidar o seu lugar no tratamento de determinadas perturbações, particularmente na depressão resistente. A escetamina representa igualmente uma alternativa relevante para grupos selecionados de doentes.
Em Portugal, estas opções já existem em diferentes instituições, mas o acesso permanece desigual. A disponibilidade depende frequentemente da região, da instituição, dos recursos humanos especializados e das condições de financiamento. Persistem diferenças importantes entre os setores público e privado, e nem sempre os doentes conseguem aceder a estas intervenções de forma atempada. Considero que o principal desafio é passar de uma lógica de inovação concentrada em alguns centros para uma lógica de acesso organizado, equitativo e sustentado pela evidência científica.
Isso exige investimento na formação dos profissionais, definição de critérios clínicos de referenciação, avaliação sistemática de resultados e criação de redes assistenciais que permitam oferecer estas intervenções aos doentes que delas podem beneficiar. É também importante evitar que o entusiasmo tecnológico conduza a uma visão redutora do tratamento psiquiátrico. A inovação farmacológica e tecnológica deve integrar-se numa abordagem clínica que continue a valorizar a psicoterapia, a reabilitação psicossocial e a relação terapêutica. A SPPSM pretende contribuir para este debate, promovendo a formação, a discussão científica e a reflexão sobre as condições necessárias para garantir um acesso mais justo às diferentes modalidades terapêuticas.
O congresso dedica um espaço importante aos ambientes digitais e à IA. Esta deve ser vista primariamente como uma ferramenta de diagnóstico e personalização de tratamento ou traz novos desafios éticos e clínicos significativos?
Penso que seria redutor encarar a inteligência artificial apenas como uma nova ferramenta de diagnóstico ou de personalização terapêutica. Estamos perante uma transformação tecnológica que pode modificar não apenas a forma como prestamos cuidados, mas também a maneira como as pessoas compreendem a sua própria experiência, estabelecem relações e procuram ajuda.
Na prática clínica, a inteligência artificial oferece oportunidades relevantes. Pode apoiar a organização da informação clínica, reduzir tarefas administrativas, identificar padrões em grandes conjuntos de dados e contribuir para modelos mais individualizados de previsão e acompanhamento. A fenotipagem digital, por exemplo, procura identificar alterações comportamentais através de dados recolhidos por dispositivos digitais, podendo eventualmente ajudar a reconhecer mudanças clinicamente relevantes. Contudo, estas possibilidades devem ser avaliadas com prudência. A capacidade de identificar correlações não equivale necessariamente à capacidade de compreender o significado clínico de uma experiência. Em Psiquiatria, esta distinção é particularmente importante, porque os sintomas não são apenas comportamentos observáveis ou padrões de dados. Têm um significado para a pessoa, uma história e um contexto.
Existem ainda desafios éticos muito relevantes relacionados com a privacidade, o consentimento, os enviesamentos algorítmicos, a transparência e a responsabilidade pelas decisões clínicas. A utilização de sistemas cuja lógica de funcionamento não é suficientemente compreensível pode introduzir novas formas de opacidade na relação terapêutica. E a utilização de ferramentas digitais em populações vulneráveis exige garantias acrescidas de proteção. Há também uma dimensão que considero menos discutida: os próprios ambientes digitais estão a transformar a nossa vida psicológica. As redes sociais, os sistemas de recomendação e os agentes conversacionais influenciam a atenção, a identidade, a perceção de reconhecimento e as formas de relacionamento. A inteligência artificial é, por isso, simultaneamente uma possível ferramenta clínica e um novo elemento do ambiente em que a saúde mental se constitui.
A minha posição é que devemos promover uma inovação responsável, na qual a tecnologia aumente as capacidades dos profissionais sem substituir o julgamento clínico ou comprometer a autonomia dos doentes. A responsabilidade clínica e institucional não pode ser transferida para um algoritmo. A inteligência artificial deve ajudar-nos a cuidar melhor, não a afastar-nos da pessoa que procuramos compreender.
“O desafio clínico consiste em reconhecer quando esse sofrimento se torna persistente, incapacitante ou se associa a perturbações psiquiátricas que exigem intervenção, sem transformar automaticamente preocupações legítimas em diagnósticos”
Com a inclusão da Ecopsiquiatria no programa, como é que os psiquiatras portugueses estão a lidar com novos fenómenos como a ecoansiedade ou o impacto das alterações climáticas na saúde mental?
As alterações climáticas representam um dos exemplos mais claros de como a saúde mental está ligada aos ambientes em que vivemos. Os seus efeitos não se limitam às consequências físicas de fenómenos extremos. Incluem também o impacto psicológico de incêndios, secas, inundações, deslocações populacionais, perda de condições de vida e incerteza relativamente ao futuro. A ecoansiedade é particularmente interessante porque nos obriga a refletir sobre os limites entre sofrimento psicológico e perturbação mental. Sentir preocupação, tristeza ou medo perante as alterações climáticas não constitui, por si só, uma doença. Em muitos casos, estas emoções representam respostas compreensíveis a ameaças reais e podem até motivar comportamentos de adaptação e participação cívica.
O desafio clínico consiste em reconhecer quando esse sofrimento se torna persistente, incapacitante ou se associa a perturbações psiquiátricas que exigem intervenção, sem transformar automaticamente preocupações legítimas em diagnósticos. Em Portugal, esta discussão é especialmente relevante pela exposição do país a ondas de calor, incêndios rurais e outros fenómenos climáticos extremos. Os seus efeitos são particularmente importantes em populações vulneráveis, incluindo pessoas idosas, crianças e adolescentes, indivíduos com doença mental prévia e comunidades com menores recursos socioeconómicos.
A Psiquiatria tem aqui uma responsabilidade que ultrapassa a consulta individual. Precisamos de contribuir para a preparação dos serviços de saúde, para a resposta psicossocial a situações de catástrofe e para políticas públicas que reconheçam os efeitos das alterações ambientais na saúde mental. No Congresso, teremos a oportunidade de discutir estas questões com Maria Ojala, cujo trabalho sobre ansiedade climática, esperança e capacidade de ação entre os jovens é particularmente relevante. Interessa-nos compreender não apenas como as alterações climáticas produzem sofrimento, mas também como podemos promover respostas individuais e coletivas que transformem a preocupação em participação, adaptação e esperança.
A articulação entre os cuidados de saúde primários e a Psiquiatria comunitária é um tema premente. Quais são as principais conclusões ou reivindicações que a SPPSM espera que saiam deste congresso para influenciar as políticas públicas de saúde mental no país?
Uma das prioridades da SPPSM é contribuir para que a reforma dos cuidados de saúde mental se traduza em melhorias concretas e mensuráveis na vida das pessoas. Portugal tem vindo a desenvolver um novo enquadramento organizativo para os cuidados de saúde mental, com maior valorização das respostas comunitárias, mas a concretização destes objetivos continua a enfrentar dificuldades importantes.
A articulação entre os cuidados de saúde primários e os serviços especializados é absolutamente central. Uma parte significativa das necessidades de saúde mental da população é identificada e acompanhada nos cuidados primários, mas persistem dificuldades na referenciação, na comunicação entre equipas e na continuidade assistencial.
Precisamos de modelos de cuidados verdadeiramente integrados, nos quais os profissionais possam partilhar responsabilidades, informação clínica relevante e planos terapêuticos. Isso implica reforçar os mecanismos de consultoria e colaboração entre a Psiquiatria e a Medicina Geral e Familiar, desenvolver respostas comunitárias multidisciplinares e garantir percursos assistenciais claros, sobretudo para pessoas com doença mental grave.
Existe também uma questão incontornável de recursos. Não basta criar novas estruturas ou definir novos modelos organizativos se não existirem profissionais suficientes, condições de trabalho adequadas e financiamento sustentável. A expansão das equipas comunitárias deve ser acompanhada de uma avaliação rigorosa da sua capacidade de resposta, acessibilidade e resultados clínicos. Gostaria de destacar ainda a necessidade de uma maior continuidade entre os diferentes níveis de cuidados. A transição entre serviços de infância e adolescência e serviços de adultos, a articulação com os cuidados sociais e a integração da reabilitação psicossocial continuam a representar desafios importantes. Enquanto sociedade científica, a SPPSM deve contribuir para este processo através da produção de conhecimento, da definição de recomendações técnicas e do diálogo com os decisores políticos. O nosso papel não é apenas identificar insuficiências, mas ajudar a construir soluções fundamentadas na evidência e na experiência dos profissionais e dos doentes.
Se tivesse de sintetizar a principal mensagem política deste Congresso, diria que não basta aumentar a oferta de cuidados de saúde mental. É necessário garantir que os cuidados são acessíveis, articulados, contínuos e capazes de responder à complexidade das necessidades das pessoas. A saúde mental não pode continuar a ser pensada apenas em termos de número de consultas ou de episódios de internamento. Precisamos de avaliar também a qualidade dos cuidados, a recuperação funcional, a participação social e a experiência dos próprios doentes.
“É necessário criar condições para que os jovens médicos possam reconhecer no SNS um espaço de realização profissional e desenvolvimento científico”
Que mensagem e foco traz este congresso para os jovens médicos internos de Psiquiatria, numa altura em que o SNS enfrenta desafios na fixação de especialistas?
Os médicos internos representam o futuro da Psiquiatria portuguesa e constituem uma parte fundamental da nossa comunidade científica. Queremos que este Congresso seja também um espaço de formação, participação e afirmação das novas gerações. A Psiquiatria atravessa um período de grande transformação. Os avanços das neurociências, da psicofarmacologia, da psicoterapia, da inteligência artificial e das abordagens comunitárias estão a ampliar as possibilidades de intervenção, mas também a exigir novas competências aos profissionais. Neste contexto, considero fundamental que a formação dos jovens psiquiatras não se limite à aquisição de conhecimentos técnicos. Precisamos de médicos com uma preparação científica sólida, mas também com capacidade de reflexão crítica, sensibilidade ética e competências relacionais. A Psiquiatria continuará a ser uma especialidade profundamente dependente da capacidade de compreender a experiência humana e de estabelecer relações terapêuticas significativas.
O Congresso procura refletir esta diversidade através de cursos práticos, sessões científicas, apresentações de investigação e oportunidades de contacto com especialistas nacionais e internacionais. Queremos estimular a participação ativa dos internos, não apenas enquanto participantes, mas também enquanto produtores de conhecimento e intervenientes na discussão sobre o futuro da especialidade. Relativamente à fixação de especialistas no SNS, penso que devemos reconhecer que não estamos apenas perante uma questão remuneratória, embora essa dimensão seja naturalmente importante. A possibilidade de desenvolver uma carreira estimulante, trabalhar em equipas estáveis, participar em investigação, ter acesso a formação diferenciada e dispor de condições adequadas para prestar bons cuidados são fatores igualmente relevantes.
É necessário criar condições para que os jovens médicos possam reconhecer no SNS um espaço de realização profissional e desenvolvimento científico. A ausência de perspetivas de progressão, a sobrecarga assistencial e as dificuldades organizativas comprometem não apenas a retenção de profissionais, mas também a qualidade e a continuidade dos cuidados. A renovação geracional não deve ser entendida apenas como uma sucessão de profissionais, mas como uma oportunidade para repensar práticas, estruturas e prioridades. A Psiquiatria tem hoje possibilidades extraordinárias de desenvolvimento científico e clínico, mas que o seu futuro dependerá também da nossa capacidade de preservar aquilo que a torna singular: a atenção à pessoa, à sua experiência e à sua relação com o mundo. Queremos uma Psiquiatria cientificamente ambiciosa, clinicamente competente, eticamente responsável e socialmente comprometida. E queremos que as novas gerações sejam protagonistas dessa construção.
Maria João Garcia
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