Entre Fases: um programa terapêutico multidisciplinar na Menopausa
Roberta Frontini (docente na Universidade Católica Portuguesa) e Madalena Ferreira (mestranda na Universidade Católica Portuguesa)
12 Out, 2026

Entre Fases: um programa terapêutico multidisciplinar na Menopausa

A transição menopáusica faz parte do ciclo de vida da mulher, mas não é vivida da mesma forma por todas. Para algumas as alterações são pouco significativas, mas, para outras, podem ter um impacto importante no dia a dia. Sintomas vasomotores, alterações do sono, mudanças metabólicas, queixas geniturinárias, alterações da pele ou da sexualidade podem surgir a par de ansiedade, alterações do humor, dificuldades de concentração ou mudanças na forma como a mulher se relaciona com o próprio corpo e com os outros.

Na prática clínica, esta diversidade levanta questões importantes. Muitas destas mulheres apresentam necessidades que não pertencem exclusivamente a uma única especialidade e que, por isso, podem beneficiar de uma resposta mais articulada.

Foi neste contexto que nasceu o Entre Fases, um programa terapêutico e psicoeducativo multidisciplinar dirigido a mulheres na perimenopausa, menopausa e pós-menopausa, desenvolvido em contexto hospitalar, mas com o apoio de duas universidades portuguesas.

O programa decorre ao longo de 12 semanas e envolve profissionais de Ginecologia, Medicina Interna, Psicologia, Psiquiatria, Fisioterapia, Dermatologia, Nutrição e Sexologia. A Psicologia acompanha o grupo de forma transversal durante as 12 sessões, trabalhando temas como ansiedade, adaptação às mudanças, estratégias de coping, autoeficácia, autocuidado e regulação emocional. Mas, em cada sessão, uma especialidade também aborda questões particularmente relevantes nesta fase da vida.

Desde o início, quisemos que o grupo não fosse apenas um espaço onde se transmite informação. Há tempo para esclarecer dúvidas, falar sobre dificuldades concretas e experimentar estratégias que possam ser utilizadas fora das sessões. A partilha entre mulheres que estão a atravessar fases semelhantes acabou por assumir um papel importante. Muitas questões que individualmente são vividas com preocupação ou algum isolamento tornam-se mais fáceis de compreender quando são discutidas num espaço seguro e sem julgamento. Aliás, a evidência científica mostra uma melhoria nos sintomas da menopausa em grupos de vertente cognitivo-comportamental em comparação com as outras estratégias (mesmo consultas de terapia cognitivo-comportamental individual).

A primeira edição contou com 12 participantes, selecionadas de entre mais de 90 manifestações de interesse, em contexto hospitalar.

Outro aspeto que nos pareceu particularmente interessante foi o que aconteceu para além das sessões. O contacto com diferentes temas e profissionais levou algumas participantes a reconhecer necessidades que até então não tinham procurado avaliar. Houve procura de consultas noutras especialidades, realização de avaliações complementares e integração noutros programas terapêuticos. O grupo acabou, assim, por funcionar também como um ponto de partida para outros cuidados.

Desde o início existiu ainda a preocupação de associar a prática clínica à investigação. A primeira edição está ligada a duas dissertações de mestrado, desenvolvidas em duas instituições de ensino superior (Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Leiria e Oeste), e já deu origem a trabalhos aceites para apresentação em contexto científico. A análise destes dados permitirá compreender melhor não apenas a experiência das participantes, mas também o próprio modelo de intervenção e os aspetos que poderão ser melhorados nas próximas edições.

A procura registada levou à continuidade do projeto, com uma segunda edição iniciada em setembro de 2026. A experiência até ao momento tem-nos mostrado que falar de menopausa implica frequentemente falar de muito mais do que sintomas ginecológicos. Para o médico, perguntar pelo impacto destas mudanças no sono, no humor, na sexualidade, na atividade física, na alimentação ou nas relações pode revelar necessidades que de outra forma permaneceriam pouco visíveis.

Trabalhar de forma multidisciplinar não significa transformar a menopausa numa doença. Significa, isso sim, reconhecer que algumas mulheres precisam de apoio em diferentes dimensões e que uma articulação mais próxima entre profissionais pode tornar os cuidados mais coerentes, mais acessíveis e mais ajustados à pessoa que temos à nossa frente.

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