Existe verba e uma portaria mas reabilitação oral dos doentes continua a ser feita no privado

Em entrevista ao Saúde Online, no Dia Mundial do Cancro da Cabeça e Pescoço (que se assinala esta sexta-feira), a médica oncologista Ana Castro critica a falta de articulação entre os hospitais e a Administração Central dos Sistemas de Saúde, o que ainda não permite que os doentes recebam próteses do SNS.

Há registo de 3000 novos casos de cancro da cabeça e pescoço por ano e este é um número que tem vindo a aumentar. Como é que se explica este aumento?

Essa evolução está relacionada com hábitos tabágicos, hábitos alcoólicos. E agora também com uma nova realidade, que são os doentes que têm infeção por HPV [Vírus do Papiloma Humano]: são doentes jovens e sem fatores de risco que contraem a infeção por via sexual. Esperamos que a vacinação possa ajudar a diminuir este fenómeno, embora neste momento apenas haja vacina gratuita para as raparigas.

Cerca de 85% dos casos surgem em fumadores ou ex-fumadores. Este é o principal fator de risco?

Sim, em conjunto com os hábitos alcoólicos. Os dois juntos potenciam-se. Há ainda um outro fator que pode ter alguma influência, que é a má higiene oral. A população portuguesa ainda tem poucos hábitos de saúde oral.

Como é que se manifesta este tipo de cancro? A que sinais devem as pessoas estar atentas?

Devem estar atentas a feridas, lesões brancas ou vermelhas na boca, aftas que não cicatrizem no período de três semanas. Também uma rouquidão ou uma dor de garganta que se prolongue por mais de três semanas, mesmo depois de a pessoa já ter feito tratamento, deve chamar à atenção. Depois, o nariz entupido só de um dos lados ou o ouvido entupido só de um lado são sinais de alerta.

Sabe-se que cerca de 50% dos casos são detetados já num estadio avançado, o que resulta numa taxa de sobrevivência relativamente baixa a cinco anos (ronda os 20%). O que se pode fazer para inverter este cenário?

O que se pode fazer é alertar as pessoas para os sinais e sintomas, para que elas possam recorrer ao médico mais cedo, fazer o diagnóstico mais cedo e podermos fazer o tratamento curativo. Não podemos fazer mais nada, não podemos obrigar os doentes a irem ao médico. A verdade é que grande parte da nossa população pertence a um estrato socioeconómico baixo e recorre pouco ao médico, o que não ajuda. Muitos casos são detetados numa fase avançada e não conseguimos ter a taxa de sucesso que desejaríamos.

Dentro do cancro da cabeça e pescoço, qual é subtipo de cancro mais e menos comum?

O mais comum é o da laringe e o mais raro é o das glândulas salivares.

Qual é a terapêutica utilizada atualmente para tratar este cancro?

Em estádios iniciais, os doentes são operados e podem-se ficar apenas pela cirurgia. Em estádios mais avançados, podem ter de fazer radioterapia, radio e quimioterapia ou até quimioterapia com anticorpos. Depois, numa outra fase, com a doença metastizada, podem fazer imunoterapia.

Este é um tipo de cancro muito agressivo e que pode criar defeitos faciais que têm implicações a nível estético e na qualidade de vida do doente. Como é se processa, depois, a reabilitação das pessoas que conseguem ultrapassar a doença?

A reabilitação, quando o doente é submetido a cirurgia, é feita de imediato, quando é possível. Obviamente, é reabilitado mas não fica totalmente recuperado logo. Quanto à reabilitação oral, conseguimos, junto do governo, há cerca de ano e meio, que fossem atribuídas verbas aos hospitais que tratam estes doentes para reabilitação oral no SNS com próteses dentárias. Existe uma portaria que a regulamenta mas ainda não está implementada por falta de articulação entre a ACSS (Administração Central dos Sistemas de Saúde) e os hospitais. Portanto, a parte de os doentes poderem voltar a ter dentes ainda não é possível. E depois há a questão da reabilitação em termos da terapia da fala. Agora, há doentes que nunca mais voltam a comer e alguns ficam com muita dificuldade em falar.

Mas a reabilitação oral é necessária em todos os casos?

É necessária na grande maioria dos casos. Porque os doentes que apresentem peças dentárias [dentes] em mau estado têm de as retirar para que se comece a fazer o tratamento – que só pode ser iniciado com a boca perfeitamente sã. E, como o tratamento tem de ser iniciado o quanto antes, não é possível preservar os dentes. E depois precisará de reabilitação quando estiver curado.

Qual é a solução para a reabilitação destes doentes, uma vez que ainda não está ‘no terreno’ o financiamento público? Têm de recorrer ao privado?

Sim, têm mesmo de fazer no privado, porque ainda não há no público. O problema é que os hospitais não podem comprar as próteses. Nós habitualmente lutamos porque não há dinheiro mas, neste caso, há dinheiro mas não há articulação nem normalização dos procedimentos. Neste caso, a culpa é da ACSS, que não diz aos hospitais como é que podem adquirir as próteses. Como sabe, as compras dos hospitais dependem de concurso público. E não se pode estar a fazer um concurso público para cada uma das próteses ou até para um grupo de próteses. A ACSS tem de dar uma autorização de isenção de concurso público mas tem de dizer aos hospitais que fornecedores é que podem ser consultados e como é que se pode fazer.

Saúde Online

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