23 Jun, 2023

“Existe uma sobrecarga generalizada de trabalho para os médicos de família do Algarve”

Responsável pela organização deste 7.º Encontro de Médicos de Família do Algarve e pela Delegação Distrital de Faro da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Daniela Emílio fala sobre os objetivos desta iniciativa e de alguns temas a abordar durante a mesma, assim como de algumas das problemáticas da Medicina Geral e Familiar no Algarve, que, segundo afirma, leva a que os médicos de família se sintam “sobrecarregados”.

O Algarve é uma das regiões do país com mais escassez de recursos humanos na saúde, nomeadamente nos cuidados de saúde primários. Como é que os médicos de família do Algarve lidam com esta falta de médicos?
Os médicos de família do Algarve não lidam muito bem com essa situação, porque existe uma sobrecarga generalizada. Se compararmos os ficheiros, vemos que, no Algarve, estão praticamente todos completos ou acima do que está estipulado, o que faz com que exista uma sobrecarga permanente de trabalho.

Além disso, existe pouca capacidade de fixação dos médicos, o que significa que nunca se vê grandes melhorias após cada concurso.

Temos uma grande percentagem de doentes sem médicos de família e estamos constantemente a receber e-mails a pedir que façamos horas extraordinárias de apoio aos utentes sem médico, mas, como em tudo, existe um limite.

Por outro lado, temos o verão, que está à porta, e que aumenta ainda mais esta necessidade dos cuidados primários, dado as consultas que os turistas acabam por precisar e é necessária disponibilidade para essas pessoas.

 

Quais os concelhos mais carenciados?
Atualmente, o mais carenciado é Albufeira, seguido de Faro e Loulé, particularmente Almancil também tem zonas carenciadas. Toda a região do Barlavento e muito particularmente no concelho de Portimão. Só o Sotavento Algarvio, ou seja, de Tavira até Vila Real de Santo António, não tem falta de médicos de família. Neste sentido, é a melhor zona.

 

Porquê?
Por causa dos médicos espanhóis. Há cerca de 15/20 anos, vieram muitos colegas espanhóis para Portugal tirar a especialidade em Medicina Geral e Familiar e muitos ficaram a viver na fronteira ou, até mesmo, em Portugal. Ficaram a cobrir as zonas de Vila Real até Tavira. Existem imensos colegas de Espanha que são médicos de Família na região Algarvia.

 

Tal como referiu, no verão a situação torna-se pior. Que estratégias usam nesta altura do ano, de forma a responder a todas as pessoas que precisam de assistência médica?
Sim, tal como disse, a Medicina Geral e Familiar, como todas as especialidades no Algarve, sofre um aumento exponencial na sua procura durante o Verão. Estes contactos na sua maioria são feitos através de consultas de urgência ou de consultas do dia, com problemas que não conseguiram resolver nos seus centros de saúde antes das férias ou pequenos problemas de saúde que surgiram no momento.

Esta procura exige um reforço no atendimento sem que exista reforço de pessoal médico ou das próprias escalas nestes meses. Torna-se difícil esta gestão de aumentar as horas dos serviços sem reforço dos profissionais. São lutas antigas, mas que ainda se mantêm atuais.

 

E em relação à fixação dos médicos de família no SNS em geral e nos centros de saúde do Algarve em particular, o que leva a esta situação?
O problema da fixação dos médicos é transversal a todo o País, mas pela sua periferia, a falta de apoios torna estas zonas menos atrativas. Para quem não é local torna-se ainda mais difícil, como pode comprovar-se pelo número de vagas que ficaram por escolher no Algarve, 84% no último concurso.

A pouca dinamização das USF no Algarve também não atrai os novos médicos de família que procuram um modelo de trabalho mais organizado e com possibilidade de evolução no seu modelo remuneratório.

 

Como está a ser a experiência da organização deste 7.º Encontro de Médicos de Família do Algarve?
Está a ser desafiante. Este ano, optámos por realizar o encontro numa altura diferente do ano, o que nos traz coisas boas e menos boas. Trata-se de uma altura em que, tradicionalmente, existiriam menos atividades, mas parece que apareceram mais alguns eventos também no Algarve.

Alterámos a data do evento com a perspetiva de os participantes poderem aproveitar também um pouco o Algarve e o calor que se faz sentir em junho.

 

Enquanto médica, o que é que se aprende quando se está envolvido na organização de um evento como este?
Aprende-se a gerir melhor o tempo. Os médicos são profissionais muito sobrecarregados, com horários difíceis. Acaba por ser um stress diferente, porque parece que há muita coisa que sai do nosso controlo. Dentro do consultório temos mais controlo sobre o que se passa.

Mas, apesar das dificuldades, trabalhar com os colegas é muito bom. É uma aprendizagem, uma vez que temos contacto com pessoas com diferentes visões, numa organização em que tentamos estar também em contato com os colegas hospitalares, numa tentativa de nos aproximarmos e conseguirmos melhorar os cuidados de saúde para os nossos utentes.

São muitas pessoas envolvidas, muitas cabeças a pensar e nem sempre é fácil. Temos todos uma vida muito preenchida, é um desafio arranjar tempo para aprofundar alguns temas e para organizar as apresentações. Mas, no fundo, é sempre bom, porque no final os colegas dão-nos um feedback positivo. Dizem que gostaram dos temas, que fomos inovadores e alguns até nos dão dicas acerca do que gostariam de ver abordado no ano seguinte.

 

Falou na articulação/contacto com os colegas do hospital. Que avaliação faz dessa articulação entre a Medicina Geral e Familiar e as especialidades hospitalares no Algarve?
No âmbito do encontro, tem sido sempre muito proveitosa e corre muito bem. Muitas vezes conseguimos criar pontes que facilitam e que levam os colegas a perceber as nossas dificuldades nos centros de saúde. Esta proximidade entre médicos dos cuidados primários e hospitalares é uma mais-valia, no sentido de afinarmos os critérios de referenciação, os exames que devemos prescrever, assim com o que é importante numa história clínica, de forma a que os critérios de referenciação às consultas sejam o mais confortáveis possível, tanto para médicos de família, como para médicos hospitalares.

Tal como nos cuidados de saúde, o Hospital de Faro nem sempre consegue dar resposta. Por muito boa vontade que os colegas tenham, a capacidade humana é finita e, por isso, nem sempre conseguimos melhorias.

 

Qual o critério para a escolha de temas deste encontro?
A escolha dos temas resulta do brain storming da equipa, que promove temas que poucas vezes podemos abordar e se tornam muito importante nas nossas consultas do dia a dia. Procuramos sempre ser uma mais-valia com temas atuais e que nos suscitam dúvidas, dando um espaço privilegiado de discussão num ambiente interpar, permitindo explorar e melhorar a nossa capacidade de performance nos nossos locais de trabalho.

 

Este programa é composto por temas ainda pouco abordados ao dia de hoje, como é exemplo a sessão “Particularidades da consulta de MGF com pessoas LGBTQIAP+”. Quais são os principais desafios dos médicos de família no seguimento destas pessoas?
Um dos principais desafios é o nosso desconhecimento. Nem todos sabemos quais são as ofertas, as comunidades e os recursos existentes fora da saúde e que podemos dar a conhecer aos nossos utentes. Por vezes, nem sempre sabemos para onde referenciar, nem quais são os serviços mais preparados para receber esta comunidade.

Por outro lado, é o nosso próprio desconhecimento em relação a estas questões propriamente ditas. Como falar, o que abordar, o que é que esta comunidade precisa, porque é que nos procura.

Nem sempre as suas necessidades estão relacionadas com o facto de serem LGBTQIAP+. Têm todos os outros problemas. Provavelmente, precisamos de tentar descomplicar e de arranjar ferramentas para facilitar a nossa comunicação e apoio naquilo de que precisam e que lhes podemos prestar.

Foi divulgado um questionário pré-congresso, para que a Prof.ª Ana Macedo já tenha uma ideia do nível de conhecimento ou do à vontade dos participantes do Encontro, para lidar com a comunidade LGBTQIAP+. O objetivo é ter um ponto de partida e perceber de que forma nos pode ajudar, porque as dúvidas são mesmo muitas.

Trata-se de assuntos novos, em constante mudança, que leva a que nem sempre nos consigamos atualizar. Ouvir quem está dentro da área é sempre uma mais-valia.

 

E em relação à sessão “’Conversas com’ – A Comunidade migrante quem são e que cuidados de saúde precisam?”, quais as principais necessidades destas pessoas e dos médicos no seu seguimento?
O objetivo é pensarmos em conjunto – médicos, assistentes sociais e as próprias comunidades – e afinarmos qual a melhor forma de divulgarmos os serviços, como por exemplo o que é que o centro de saúde significa e pode dar às pessoas da comunidade migrante; e também perceber quais as expectativas que têm para connosco. De que sentem falta e o que consideram não estar a ser suprido atualmente. Pretendemos aproximar-nos e dar propostas concretas sobre o que são os nossos acessos e o que podemos fazer para estar perto das comunidades e ser uma mais-valia.

 

Quais as origens dessas comunidades?
Aqui no Algarve temos muitas comunidades brasileiras, indianas, chinesas, paquistanesas, ucranianas. São estas as que tenho ideia que mais recorrem. Na sessão iremos abordar e verificar se existem mais comunidades migrantes em crescimento.

 

Aqui temos logo à partida a questão da língua?
A barreira linguística é complicada. Algumas comunidades são mais organizadas e os utentes trazem um tradutor, o que facilita muito o nosso trabalho, mas as minorias têm menos recursos para conseguirem trazer alguém que os ajude a comunicar.

As outras barreiras estão relacionadas com a cultura. Existem coisas que para nós são banais e que para eles são fora do habitual e vice-versa. Inclusive com a comunidade brasileira. Apesar de partilharmos a língua, existem expressões diferentes, que muitas vezes são uma barreira linguística.

 

Enquanto responsável pelo encontro e pela Núcleo de APMGF no Algarve, que mensagem gostaria de deixar aos seus colegas?
Os médicos de família têm que se manter cada vez mais atualizados na vanguarda. Sempre fomos camaleónicos e sempre nos tentamos aproximar dos nossos doentes e utentes, portanto pretendemos, com estes encontros e com a abordagem destas temáticas, estar mais próximo dos nossos doentes, para que os consigamos tratar, ajudar e dar o apoio de que necessitam, independentemente daquilo que procuram em nós.

Texto: Sílvia Malheiro

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