14 Jun, 2021

“Estudo REWIND destaca-se por ser o primeiro a incluir a maior percentagem de doentes sem DCV estabelecida”

Estudo REWIND "veio acrescentar a transversalidade dos benefícios da terapêutica com dulaglutido na população com diabetes desde os cuidados de saúde primários aos terciários", salienta a endocrinologista do Hospital de Braga.

A relação entre diabetes e coração/risco cardiovascular (RCV) é uma preocupação do endocrinologista na abordagem da pessoa com diabetes?

O médico Endocrinologista constituiu um dos elos essenciais da equipa multidisciplinar que deve abordar e orientar a pessoa com diabetes.

Atualmente, a possibilidade de impactarmos positivamente a morbi-mortalidade e prevenirmos doença cardio-renal no indivíduo diabético veio necessariamente alterar uma abordagem predominantemente glucocêntrica na consulta de Endocrinologia, com vista à elaboração de um plano terapêutico centrado no indivíduo e abrangente nas suas diversas dimensões patológicas.

Que papel têm os aGLP-1 neste contexto? O que espelham as mais recentes guidelines do tratamento da diabetes a este respeito?

Os resultados dos diferentes ensaios randomizados de desfechos cardiovasculares na área da diabetes impactaram necessariamente as normas de orientação clínica a nível internacional e nacional pela demonstração significativa de benefício sobre o risco de eventos cardiovasculares adversos major (acidente vascular cerebral não-fatal (AVC), enfarte agudo do miocárdio (EAM) não-fatal e mortalidade).

A classe terapêutica dos Agonistas rGLP-1 representa assim uma arma terapêutica preferencial não apenas em doentes com doença cardiovascular estabelecida (antecedentes pessoais de EAM, AVC ou doença arterial obstrutiva periférica) mas também em doentes sem evento prévio mas com fatores de alto risco (por exemplo, hipertrofia do ventrículo esquerdo; estenose carotídea, coronária ou dos membros inferiores >50%) e, ressalve-se ainda, constitui-se como opção farmacológica independente do valor de HbA1c de base do doente.

Destacaria ainda a sua preferência de utilização, logo após metformina, em doentes portadores de diabetes e obesidade. De acordo com os últimos dados do Inquérito Nacional de Saúde, em Portugal a percentagem de pessoas com diabetes que apresentam obesidade é de 55,4%. Per se, a obesidade constituiu um fator de risco adicional para doença cardiovascular sendo assim minorado com a utilização desta classe terapêutica em doentes com alto risco cardiovascular de base.

 

 

Qual o impacto dos resultados do estudo REWIND – redução em 12% do número de eventos cardiovasculares adversos major (MACE) com dulaglutido – na prática clínica e no tratamento da pessoa com diabetes?

O estudo REWIND veio trazer robustez sobre os benefícios cardiovasculares da classe dos Agonistas do rGLP-1. Não obstante, pelas particularidades do seu desenho e características da população de estudo ( maior dimensão amostral com mais de 9900 doentes incluídos, maior representatividade de pessoas do sexo feminino (46,2% da amostra), menor percentagem de indivíduos com evento cardiovascular prévio (31%), menor mediana HbA1c no início de estudo (7,2%) e maior mediana de follow-up (5,4 anos)), veio acrescentar a transversalidade dos benefícios da terapêutica com dulaglutido na população com diabetes desde os cuidados de saúde primários aos terciários, tornando-se assim uma opção comprovadamente relevante e interessante para diferentes prestadores de cuidados em saúde na área da diabetologia.

No que diz respeito à prevenção primária de doença cardiovascular (DCV) qual a importância das conclusões do REWIND?

O estudo REWIND, destaca-se dos demais ensaios randomizados de desfechos cardiovasculares com outros Agonistas do rGLP-1 por ser o primeiro da classe a incluir a maior percentagem de doentes sem doença cardiovascular estabelecida, ou seja, apresenta maioritariamente uma população em prevenção primária para doença cardiovascular (69% população do estudo, correspondendo a 6221 indivíduos com diabetes sem evento prévio).

Na análise de subgrupos, o benefício encontrado da terapêutica com dulaglutido 1,5mg 1x/semana foi semelhante comparando indivíduos com ou sem doença cardiovascular prévia (p-interação = .97) e HbA1c superior e inferior a 7,2% (p-interação = .75) sendo que os resultados persistiram após estratificação por idade, sexo, duração de diabetes e índice de massa corporal.

Os resultados obtidos reforçam assim a necessidade de precocemente intensificar-se terapêutica para além da perspetiva exclusiva do controlo glicémico e oferecer opções seguras, com efeito de elevada durabilidade e que impactem positivamente o prognóstico da pessoa com diabetes especialmente antes da ocorrência de um evento cardiovascular.

ler mais

RECENTES

ler mais