Entrevista. A dexametasona “não cura a doença nem elimina o vírus”

Dexametasona só deve ser utilizada em pacientes graves e não "em outras situações, pois não evita a doença", esclarece o médico reumatologista e Presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia.

A dexametasona é um corticosteroide que já se encontra no mercado português há mais de 60 anos. Recentemente, a OMS desafiou os laboratórios a aumentarem a produção do medicamento, uma vez que este pode ser usado no tratamento de doentes graves infetados com Covid-19.

Originalmente, este medicamento é utilizado no tratamento de quais doenças?

Inicialmente uma das doenças em que a dexametasona estava indicado como um dos tratamentos utilizados era na Artrite Reumatóide. Contudo diversos outros corticosteroides foram sendo desenvolvidos com maior vantagem para as doenças reumáticas e a utilização deste medicamento nessas doenças é atualmente muito raro.

Atualmente a dexametasona é utilizada por exemplo pela neurocirurgia para reduzir o edema cerebral após uma cirurgia ou quando esse edema cerebral é causado por uma massa ou tumor.

É um medicamento acessível, em termos de preço?

É um medicamento bastante acessível pelo que não será pelo preço que ele possa não ser utilizado.

 Pode vir a esgotar, devido ao aumento da procura pelo medicamento?

Daquilo que foi publicado, a dexametasona e eventualmente outros corticosteroides são utilizados no contexto da Covid-19 apenas em doentes internados com impacto claro da sua função respiratória que necessitam de ventilação assistida ou necessidade de ventilação mecânica (ventiladores). Não deve ser utilizado em outras situações pois não evita a doença nem ajuda em fases iniciais e não graves da doença.

Enquanto médico reumatologista, qual é a sua opinião sobre o uso deste medicamento para tratar pacientes Covid-19 em estado grave?

Os corticosteroides como a dexametasona são potentes anti-inflamatórios sistémicos que permitem a redução da inflamação. Na Covid-19, a dexametasona não cura a doença nem elimina o vírus mas como a evolução do quadro clínico da doença por Covid-19 pode provocar um estado inflamatório generalizado como uma inflamação grave, ao nível dos pulmões, a utilização da dexametasona pode ajudar tal como outros medicamentos e procedimentos a reduzir a inflamação e a diminuir a gravidade da doença.

Quais as precauções a ter na administração deste medicamento, a este tipo de pacientes?

Estes fármacos sendo prescritos por períodos curtos e em ambiente hospitalar têm efeitos adversos limitados. A única precaução mais importante a ter é não os utilizar sem orientação médica e sem causa para a sua utilização. Existem diversos efeitos adversos que podem ocorrer mas maioritariamente em utilizações mais prolongadas e crónicas o que não é o caso da Covid-19.

AR/SO

 

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