19 Abr, 2022

DPOC. “Há um subdiagnóstico da doença nos vários níveis de cuidados”

Em entrevista, a pneumologista do Hospital Pedro Hispano (de Matosinhos) salienta que maioria dos diagnósticos são feitos já com a doença numa fase grave ou muito grave e reforça a necessidades de os especialistas “pensaram” na doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC).

Quais considera serem, neste momento, os maiores desafios na prevenção da progressão da DPOC na prática clínica?

Temos duas vertentes principais. Uma é diagnosticar correta e atempadamente a doença, de forma a impedir a sua progressão e a morte de tantas pessoas por DPOC. Isso não está a acontecer, na medida em que há um subdiagnóstico da doença nos vários níveis de cuidados. Para tal, é preciso garantir um acesso adequado à espirometria, nos cuidados de saúde primários, de forma a que os médicos de família possam diagnosticar a DPOC o mais precocemente possível. Isto significa pensar na doença em pessoas que estão, por exemplo, expostas ao tabaco, a poeiras, etc., e que tenham mais de 40 anos. Nestes casos, os clínicos têm de pensar em DPOC.

É preciso melhorar a sensibilização juntos dos médicos, sobretudo dos especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF)?

Sim, a maior parte dos casos são diagnosticados em fase tardia. Tem sido feito trabalho no sentido de dotar os clínicos e a população de conhecimento sobre a doença. Contudo, a verdade é que a maioria dos diagnósticos são feitos já com a doença numa fase grave ou muito grave. As pessoas que fumam raramente procuram ajuda médica antes de terem queixas importantes. Cansam-se muito e têm dificuldades na prática de atividade/exercício físico, mas vão desvalorizando. A maior parte das pessoas pensa que o tabaco provoca principalmente cancro do pulmão quando, na verdade, causa muito mais DPOC do que cancro do pulmão.

Uma outra vertente é o tratamento correto da doença – e aqui entra a prevenção das exacerbações, que são o busílis da questão na prevenção da doença e da mortalidade. A cada nova exacerbação, o doente fica pior, perde capacidade funcional. Cada exacerbação da DPOC é percursora de mais exacerbações, se não for bem tratada e isso leva a que o doente entre em declínio. Temos de identificar e tratar corretamente essas exacerbações, mas o mais importante é preveni-las através de medicação adequada.

E neste momento, quão frequentes são as exacerbações nas pessoas com DPOC?

Os dados que temos, da vida real, apontam para muitas exacerbações. E temos disponíveis fármacos para evitar que a maioria dessas exacerbações aconteçam. O que vemos é que os doentes não estão a ser tratados da forma mais adequada. Não só, porque, muitas vezes, os médicos não tratam, como, por outro lado, os doentes não procuram o médico e não reportam as exacerbações. Tem de haver um trabalho de fundo, de sensibilização, junto das pessoas, para que percebam a gravidade desta doença, que se vai tornar, em breve, a terceira causa de morte a nível mundial.

Que impacto pode ter uma boa gestão da doença na redução da mortalidade para DPOC?

A boa gestão da doença diminui a mortalidade. Já há, neste momento, intervenções não farmacológicas e farmacológicas a demonstrar que diminuem a mortalidade em ambiente de ensaio clínico.

No primeiro grupo estão a cessação tabágica e a reabilitação respiratória (iniciada logo após uma exacerbação).

No segundo, os fármacos, como as terapêuticas triplas, que diminuem, nestes doentes, a mortalidade por todas as causas em comparação com outros fármacos.

SO

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