Doentes com Esclerose Lateral Amiotrófica com terapias suspensas durante meses

Maioria das pessoas com ELA (53%) viram as suas terapias suspensas por um período superior a três meses. Adiamentos de consultas e terapias podem ter consequências irreversíveis.

Doentes com Esclerose Lateral Amiotrófica com terapias suspensas durante meses

Os resultados de um questionário desenvolvido pela Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica (APELA) revelaram que cerca de 79% das pessoas com ELA viram as suas terapias suspensas devido à pandemia, 29% durante mais de um mês, e 19% por menos de oito dias ou por um período superior a duas semanas.

Mais de metade das pessoas (64%) sente que essa suspensão interferiu na progressão da doença, sendo que apenas 7% afirmam não ter uma noção real de uma eventual progressão como consequência dessa suspensão. “Durante o confinamento não foi possível realizar todas as intervenções necessárias e por isso observou-se uma maior atrofia das competências motoras de muitos doentes quando regressaram às instalações da APELA”, sublinha ao SaúdeOnline a terapeuta da fala Margarida Oliveira.

Durante a pandemia de Covid-19, a APELA viu-se obrigada a encerrar as suas instalações, onde são acompanhados os doentes em terapia motora e da fala. Muitos fazem exercícios para ajudar o processo de deglutição ou treinam a comunicação com os diferentes SAAC’s – Sistemas Aumentativos e Alternativos de Comunicação, “como por exemplo tabelas alfanuméricas, ratos adaptados, controlo de computador através do olhar, softwares que permitem a escrita com síntese de fala, entre muitos outros”, enumera Margarida Oliveira.

 

A comunicação é estabelecida não só através da fala, mas também por mensagens escritas

 

Esta é feita através de sms, emails, redes sociais e para isso a utilização do telemóvel, computador e outros dispositivos torna-se indispensável. “Uma parte considerável dos doentes com ELA que estão inseridos no mercado de trabalho necessita destes dispositivos para continuar a exercer as suas funções”, explica.

“Surgiu uma preocupação enorme com o declínio mais acentuado das capacidades motoras dos doentes”, sublinha a terapeuta. Para contornar a situação, a APELA manteve as terapias por via digital. “Atualmente, alguns doentes realizam terapia da fala na APELA, no entanto para aqueles cuja condição se encontra mais frágil, nomeadamente, doentes ventilados, continuam a ser acompanhados através de videoconferências“, refere.

No que toca ao adiamento das consultas, 76% dos doentes inquiridos confirmam que as suas consultas foram adiadas, existindo em 66% dos casos o espaçamento de um período superior a dois meses, entre a consulta desmarcada e a nova consulta.

 

67% das pessoas sente-se insegura e com receio de ver a doença progredir

 

A maioria (75,6%) sente que a pandemia teve um impacto negativo tanto a nível físico como psicológico.

Estes são os principais dados recolhidos através do questionário que a APELA realizou no âmbito do apoio que presta às pessoas com ELA e respetivos cuidadores, de forma a reunir informações sobre o impacto que a pandemia de COVID-19 teve no acompanhamento de pessoas diagnosticadas com ELA.

“A doença é na sua natureza progressiva e a maioria dos casos apresenta uma sobrevida de 3 a 5 anos após o início dos sintomas, com um declínio funcional rápido, ou seja, maior incapacidade funcional. No entanto, o ritmo de progressão é variável de doente para doente, havendo casos de evolução por mais de 15 anos, e excecionalmente, e sem se conhecer o motivo há doentes nos quais a doença parece deixar de progredir”, explica Margarida Oliveira.

Pedro Souto, presidente da APELA, alerta: “as pessoas com ELA têm necessidades muito específicas, necessitam de diagnóstico precoce e de acompanhamento também precoce e contínuo de forma a desacelerar a evolução desta doença neurológica degenerativa que, de forma galopante, nos vai aprisionando no nosso próprio corpo. Se já em circunstâncias normais essa abordagem não é simples, em tempos de pandemia ainda menos. Reconhecemos os esforços dos profissionais de saúde e da comunidade, mas queremos alertar para a importância de incluir os doentes com ELA na lista de prioridades do Plano de Retoma da Atividade do SNS, uma vez que um mês de atraso já pode ser demais”.

A suspensão do apoio presencial a estes doentes, bem como adiamentos de primeiras consultas tem consequências que se podem traduzir em perdas físicas irreversíveis e num grande impacto psicológico sobre estes doentes e sobre os seus cuidadores informais, que continuam sem apoio do Estado.

TC/SO

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