20 Out, 2021

“A dor crónica representa gastos de 610 m€ em consultas e 730 m€ em medicamentos”

Só em 2010, os dados mostram que apenas a lombalgia apresentou custos na ordem de 738,85 milhões de euros, sendo 280,95 milhões de euros devidos ao absentismo gerado pela incapacidade de curto prazo.

Vários são os custos anuais que, de forma direta ou indireta, a dor crónica provoca em todo o mundo. Segundo a Presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED), Ana Pedro, em entrevista à SaúdeNotícias, Portugal é um dos países que não foge à regra.

Quais os principais desafios que enfrentam hoje em dia os doentes com dor crónica em Portugal?

Estes prendem-se essencialmente com o não reconhecimento público e das autoridades sanitárias, com a importância e relevância da sua dor, assim como o impacto negativo e sofrimento na vida pessoal, social e laboral do doente.

Em contrapartida, quais são os principais desafios que enfrentam os especialistas que os tratam?

A nível dos cuidados de saúde primários, o desafio prende-se com a falta de reconhecimento da dor como um indicador de qualidade de saúde prioritário, com o qual se assumiria a necessidade de tempo, organização e visibilidade para o trabalho realizado com os doentes com dor.

A nível hospitalar há uma grande falta de especialistas dedicados à Medicina da Dor, considerando a procura deste tipo de cuidados de saúde, traduzindo-se na gestão de listas de espera (não desejadas pelos profissionais e muito menos pelos doentes), tal como o que acontece com outras áreas das especialidades médicas e cirúrgicas.

A Ordem dos Médicos (OM) reconhece, desde 2006, a Medicina da Dor como competência médica.  A última versão da classificação internacional das doenças, o ICD11, emanada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), enquanto autoridade máxima de saúde, já integra a classificação da dor crónica, desta forma permitindo a classificação correta e uniformizada das diferentes condições clínicas.

Falta agora, o reconhecimento por parte da tutela, da Medicina da Dor como disciplina autónoma, permitindo assim dotar as Unidades de Dor dos recursos adequados, ao momento tão desfalcadas, com profissionais dedicados em exclusivo ao seu funcionamento.

Quais os custos (diretos ou indiretos) provocados pela dor crónica em Portugal?

A dor crónica tem custos diretos e indiretos muito elevados em todo o mundo, não sendo Portugal exceção.

Anualmente a doença representa gastos de cerca de 610 milhões de euros em consultas, 730 milhões em medicamentos e 275 milhões em exames complementares, como parte dos custos diretos, aos quais se somam os custos indiretos, por absentismo laboral, perda de produtividade e reformas antecipadas, entre outros.

As estimativas em Portugal, no ano de 2010, considerando apenas a lombalgia, apontam para custos na ordem de 738,85 milhões de euros, sendo 280,95 milhões de euros devidos ao absentismo gerado pela incapacidade de curto prazo e 458,90 milhões de euros devidos à redução do volume de emprego por reformas antecipadas e outras formas de não participação no mercado de trabalho.

Que trabalho ainda há por fazer no nosso país em termos da melhoria dos tratamentos?

Em Portugal, ainda há um longo caminho a percorrer a nível da rede de referenciação entre as várias estruturas de cuidados de saúde primários e hospitalares, assim como na integração e proximidade dos diferentes níveis de prestação de cuidados.

Quando comparado com os restantes países europeus, em que posição se encontra Portugal ao nível do tratamento e apoios prestados a estes doentes?

Infelizmente não há dados disponíveis que nos permitam responder a esta questão.

Enquanto especialista, que conselhos deixa a estes doentes?

Apesar das contrariedades vividas, os doentes podem ficar tranquilos que, tanto os médicos como os restantes profissionais de saúde, se mantêm empenhados no seu tratamento e melhoria da qualidade de vida.

Daniela Tomé

 

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