16 Dez, 2020

25% dos doentes com VIH já têm mais de 50 anos. Que desafios traz o envelhecimento à gestão da doença?

Estima-se que, em 2040, 80% dos doentes tenham mais de 80 anos. Trata-se de uma mudança que já está a levantar preocupações no que diz respeito à gestão da infeção por VIH e das comorbilidades associadas à idade avançada, diz o diretor do Serviço de Infeciologia do Hospital Curry Cabral.

A sida tornou-se uma doença crónica ao longo dos anos. As terapêuticas antirretrovirais tornaram-se, progressivamente, mais eficazes e mais cómodas, permitindo aumentar o tempo de vida dos doentes, bem como a tolerância e adesão destes à terapêutica, ao mesmo tempo que diminuem as resistências à medicação.

“É cada vez maior a prevalência de infetados por VIH em faixas etárias mais avançadas. Cerca de 24 a 25% dos doentes infetados já têm mais de 50 anos”, sublinha, em declarações ao SaúdeOnline, o diretor do Serviço de Infeciologia do Hospital Curry Cabral, Fernando Maltez. Estima-se que, daqui a 20 anos, em 2040, esta percentagem dispare para os 80%. “A partir daí, surgem todas as comorbilidades inerentes ao envelhecimento (doença cardiovascular, dislipidemia, diabetes, alterações neurocognitivas, maior probabilidade de neoplasias não ligadas ao VIH)”, sublinha o especialista.

Contudo, num doente com VIH, estes problemas poderão ser mais prevalentes e isso “levanta preocupações no que diz respeito à sua gestão”. Tudo isto vai implicar “da parte do infeciologista, conhecimentos e disponibilidade para manejar todas essas comorbilidades e interações medicamentosas”. “Vai implicar que se repense a organização e a oferta de cuidados a estes doentes; de avaliar se continuaremos a oferecer estes cuidados apenas em instituições hospitalares e centros especializados ou se teremos de os alargar a outras especialidades médicas e aos cuidados de saúde primários”, aponta Fernando Maltez.

A idade média de diagnóstico de muitas destas comorbilidades é mais baixa do que na população em geral, refere o infeciologista, embora ainda não se saiba, com exatidão, “se os mecanismos de envelhecimento de um infetado com VIH são iguais aos da população em geral”.

Isto porque “a evidência ainda é insuficiente para demonstrar qual a quota de responsabilidade da infeção por VIH nos fatores de risco clássicos, bem como a quota de responsabilidade de outros fatores, comos os genéticos e ambientais e da própria terapêutica – que, apesar de conseguir controlar a infeção por VIH, pode originar efeitos secundários a esse nível que não estão suficientemente caracterizados”, diz o também presidente da Sociedade Portuguesa de Doenças Infeciosas e Microbiologia Clínica.

Com um número crescente elevado de doentes em idades mais avançadas, tornar-se impossível evitar as polimedicações, o que torna mais frequentes as interações medicamentosas. “Os doentes terão de fazer anticoagulantes, antidiabéticos, antiepiléticos, hipotensores. Isto vai obrigar a conhecer melhor as interações medicamentosas, a selecionar muito bem a terapêutica para estas comorbilidades, mas sobretudo saber escolher a melhor terapêutica antirretroviral para cada doente, numa abordagem cada vez mais individualizada”.

Outro desafio importante coloca-se no plano do diagnóstico. Em Portugal, cerca de 50% dos diagnósticos ainda se fazem só depois dos 50 anos. Um atraso que tem consequências no que diz respeito ao prognóstico. Segundo um estudo realizado Inglaterra, Gales e Irlanda do Norte, os doentes com mais de 50 anos diagnosticados tardiamente apresentavam, em média, uma probabilidade 14 vezes superior de virem a morrer dentro de um ano do que os indivíduos na mesma faixa etária diagnosticados precocemente.

TC/SO

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